O impacto das atividades económicas na paisagem urbana e na arquitetura das cidades tem sido um campo de estudo robusto ao longo das últimas décadas, abrangendo setores como a extração de recursos, a indústria e o turismo. Contudo, surpreendentemente, a vasta influência da pesca – uma atividade intrinsecamente ligada a inúmeros povos costeiros – na formação e evolução do ambiente construído permaneceu, em grande parte, inexplorada. Foi para preencher esta lacuna de conhecimento que o arquiteto André Tavares, investigador-coordenador da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, desenvolveu a sua obra “Architecture Follows Fish: An Amphibious History of the North Atlantic”. Este trabalho inovador, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC) no âmbito do projeto “Fishing Architecture”, catapultou a sua pesquisa para o reconhecimento internacional, oferecendo uma nova perspetiva sobre a complexa relação entre a arquitetura e a pesca.
Uma perspetiva inovadora: arquitetura segue os peixes
A obra de André Tavares, publicada no final de 2024, rapidamente captou a atenção global devido à sua abordagem singular. Até então, a história da arquitetura nunca havia sido contada sob a perspetiva dos peixes, com as investigações convencionais sobre ambientes marinhos circunscritas predominantemente aos ecossistemas aquáticos. Ao colocar o peixe como protagonista central, Tavares é o primeiro autor a entrelaçar as biografias do mar e da terra, criando uma narrativa anfíbia que redefine os limites da história da arquitetura.
Entrelaçando mar e terra na história da arquitetura
A profundidade e a originalidade da sua investigação valeram-lhe a prestigiada medalha Alice Davis Hitchcock, uma das distinções internacionais mais significativas no domínio da história da arquitetura, atribuída pela Society of Architectural Historians of Great Britain (SAHGB). O júri, presidido por Elizabeth McKellar, destacou o enorme contributo deste trabalho para ampliar os horizontes da disciplina, integrando as dimensões marítima e terrestre numa “narrativa abrangente e de grande originalidade”. A obra propõe, fundamentalmente, uma leitura da arquitetura a partir da sua intrínseca relação com a ecologia marinha. Analisa como a captura, o processamento e a comercialização de peixe moldaram a construção e a organização de centros urbanos e pequenos povoados ao longo do Atlântico Norte, desde os grandes portos às mais recônditas vilas piscatórias. Conforme apontado pelo jornal The Art Bulletin, “da mesma forma que as tecnologias marítimas ajudam a tornar o oceano navegável, o livro ‘Arquitetura Segue os Peixes’ muda a perspetiva sobre o ambiente construído e o seu lugar numa narrativa ecológica em transformação.”
Rotas atlânticas e o traçado das cidades
A investigação de André Tavares embarca numa fascinante viagem geográfica e cronológica, explorando a influência das atividades piscatórias desde as zonas coloniais de pesca e caça à baleia na Terra Nova e América do Norte, até às costas atlânticas da Escandinávia e de Portugal, passando pelo Mar do Norte e pelo histórico mercado de Billingsgate, em Londres. Este percurso demonstra como as inovações tecnológicas, como a refrigeração, o processamento alimentar e a industrialização do ambiente marinho, provocaram profundas transformações na ocupação humana e nas paisagens construídas desde o início do século XIX até à década de 1990.
O bacalhau e o legado português na Terra Nova
A pesquisa centra-se em espécies emblemáticas como o atum, o bacalhau e a sardinha. Ao seguir as suas trajetórias, o investigador explora os habitats marinhos para compreender as razões da sua transformação em polos de pesca. Mas vai mais além, ao investigar como a atividade piscatória impulsionou o desenvolvimento de tecnologias — desde embarcações e técnicas de captura a métodos de processamento alimentar — que não só alteraram os ecossistemas costeiros, como também influenciaram políticas públicas e a própria arquitetura das cidades. O bacalhau, em particular, assume um papel central na investigação de André Tavares. A milhares de quilómetros de Portugal, a Terra Nova, na costa nordeste da América do Norte, foi o ponto de partida para as rotas portuguesas de pesca do bacalhau. Lançando linhas e redes, os pescadores não só extraíam os peixes do mar, mas também moldavam o desenho dos territórios terrestres. Em épocas em que os impactos negativos da pesca predatória não eram tão evidentes, surgiram povoações precárias nas costas da Terra Nova, assentes em solos inóspitos, onde a presença humana só se justificava pelas oportunidades proporcionadas pelo bacalhau.
De Ílhavo a Lisboa: as marcas do bacalhau
Com a introdução da técnica de congelação, e antes mesmo da segunda metade do século XX, o bacalhau assumiu uma importância crucial na organização urbanística da Terra Nova e, paralelamente, na cultura alimentar portuguesa. O bacalhau, pescado à linha e salgado ainda a bordo das embarcações, seguia diretamente para os secadores em Portugal. Ílhavo, por exemplo, transformou-se num grande centro de pesca que coexistiu e se integrou com as atividades agrícolas do município. Instalações fabris, aldeias piscatórias e infraestruturas comerciais transformaram a paisagem e a arquitetura, ganhando escala à medida que a atividade transitava da pesca à linha para as redes de arrasto. A presença do bacalhau deixou marcas indeléveis que perduram na reserva natural das Salinas do Samouco, nas ruínas dos extensos estrados para a secagem do peixe em Alcochete, no Barreiro, no Montijo ou no Seixal, e ainda em grandes armazéns como os do Ginjal, em Almada, ou Alcântara, em Lisboa. A fábrica de Ribeiralves, na Moita, permanece ainda hoje uma das maiores unidades de transformação de bacalhau do mundo, processando uma percentagem significativa das capturas globais da espécie, provenientes atualmente da Noruega e da Islândia, dado que a pesca na Terra Nova está interdita desde os anos 90. No centro de Lisboa, a Rua do Arsenal, vizinha da Rua dos Bacalhoeiros, foi a principal artéria onde o comércio do bacalhau prosperou. Uma fotografia do final dos anos 60 do Arquivo Municipal de Lisboa ilustra a variedade da espécie exposta nas montras, com preços que revelam não só o tipo de bacalhau (Noruega, Terra Nova, Islândia) mas também indícios sobre a escassez e o estado de sobrepesca em cada região. Como refere o The Wall Street Journal, “bem ilustrado com fotografias históricas e incorporando considerações sobre comércio, economia e ecologia, este é um daqueles raros livros que nos fazem pensar de forma diferente sobre todo um setor do ambiente construído”. Ao observarmos estas paisagens urbanas, encontramos, portanto, ligações diretas com a fragilidade de ecossistemas marinhos distantes, mas profundamente interligados com a identidade portuguesa.
Um legado arquitetónico e ecológico
O livro “Architecture Follows Fish: An Amphibious History of the North Atlantic”, publicado pela The MIT Press, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, recupera uma memória submersa durante décadas, que emerge agora com o seu justo reconhecimento internacional. A crítica internacional foi unânime em reconhecer o valor histórico e a relevância deste trabalho, que não só preenche um vazio no estudo da história da arquitetura, mas também convida a uma reflexão mais profunda sobre a nossa relação com os ecossistemas marinhos. A pesquisa de André Tavares oferece uma compreensão mais rica e integrada de como as interações humanas com a natureza moldam não só as nossas cidades e edifícios, mas também a nossa cultura e a nossa própria identidade, alertando para a fragilidade de ecossistemas distantes que têm um impacto direto nas nossas vidas.
Perguntas frequentes
Qual é a principal inovação do estudo de André Tavares?
A principal inovação reside em abordar a história da arquitetura e do urbanismo sob uma perspetiva inédita, colocando o peixe como protagonista e entrelaçando as biografias do mar e da terra, um conceito a que o autor chama “história anfíbia”.
Onde se focou a investigação geográfica de “Architecture Follows Fish”?
A investigação abrangeu o Atlântico Norte, com um percurso que inclui as zonas coloniais de pesca da Terra Nova e América do Norte, as costas atlânticas da Escandinávia e de Portugal, o Mar do Norte e o mercado de Billingsgate em Londres.
Que distinção internacional recebeu André Tavares pelo seu trabalho?
André Tavares foi distinguido com a medalha Alice Davis Hitchcock, um dos prémios mais prestigiados no domínio da história da arquitetura, atribuído pela Society of Architectural Historians of Great Britain (SAHGB).
Como o bacalhau influenciou a arquitetura e o urbanismo em Portugal?
O bacalhau impulsionou o desenvolvimento de infraestruturas de processamento e secagem (como em Ílhavo), a criação de armazéns (Ginjal, Alcântara), a organização de ruas e mercados em cidades como Lisboa (Rua do Arsenal, Rua dos Bacalhoeiros), e a própria formação de povoados e instalações fabris, deixando marcas duradouras na paisagem construída.
Para aprofundar esta fascinante interligação entre o oceano e o ambiente construído, explore o livro “Architecture Follows Fish: An Amphibious History of the North Atlantic”, uma obra que redefine a história da arquitetura e a nossa relação com o mundo marinho.
Fonte: https://www.tempo.pt