Durante décadas, a Venezuela foi um farol de prosperidade na América do Sul, vista como um país vizinho rico, impulsionado pela abundância inigualável de recursos naturais e pela robustez da sua indústria petrolífera. Contudo, esse cenário promissor começou a desfazer-se gradualmente com a adoção de políticas económicas de orientação socialista sob a liderança de Hugo Chávez, e a deterioração aprofundou-se de forma ainda mais severa durante o governo de Nicolás Maduro. A dimensão da perda de riqueza enfrentada pela população venezuelana nas últimas décadas assemelha-se agora à de nações que atravessaram conflitos armados de larga escala, um contraste dramático com o seu passado glorioso. O declínio económico da Venezuela é uma realidade incontornável, com impactos profundos na vida dos seus cidadãos e na sua posição geopolítica.
O apogeu e a viragem das políticas económicas
Nos primeiros anos do século XXI, a Venezuela parecia surfar a crista de uma onda dourada. Dados do Banco Mundial revelam que, nos anos 2000, o país beneficiou fortemente da subida global das matérias-primas, com o petróleo a atingir picos históricos. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita venezuelano deu um salto impressionante, passando de 4.776 dólares em 2000 para 13.646 dólares em 2010. Este período marcou o auge da era Chávez, solidamente sustentada pelos preços elevados do barril de petróleo, que garantiam um fluxo constante de receitas para o Estado e permitiam a implementação de amplos programas sociais.
A ilusão da prosperidade petrolífera
Por detrás deste crescimento aparente, contudo, a base da economia já começava a fragilizar-se. A opção política de concentrar o controlo económico nas mãos do Estado, iniciada por Chávez e intensificada por Maduro, teve efeitos duradouros e corrosivos. Uma extensa vaga de nacionalizações varreu o país, abrangendo desde a poderosa estatal petrolífera PDVSA até setores vitais como os alimentos, as telecomunicações e a indústria transformadora. A premissa era a de garantir a soberania e redistribuir a riqueza, mas o resultado prático foi o comprometimento severo da capacidade produtiva do país.
A administração política destas empresas, outrora pilares de inovação e eficiência, resultou num ambiente de ineficácia generalizada, no aumento exponencial da corrupção e numa fuga maciça de capitais. O chavismo apostou na ideia de que a receita do petróleo seria uma fonte inesgotável, suficiente para sustentar indefinidamente um modelo económico centralizado e estatal. No entanto, o resultado provou ser exatamente o oposto do esperado, precipitando o país para um abismo financeiro.
A aposta no controlo estatal e as suas consequências
Enquanto muitas economias globais avançavam, modernizavam-se e diversificavam-se, a Venezuela entrou num processo de regressão profunda. A excessiva dependência do petróleo, aliada à ineficácia da gestão estatal e à falta de investimento em infraestruturas e inovação, tornou a economia venezuelana perigosamente vulnerável. Quando os preços internacionais do petróleo começaram a cair, a partir de 2012, as fragilidades da gestão estatal refletiram-se de forma contundente nos indicadores económicos, expondo as rachaduras de um modelo insustentável.
O colapso da riqueza e o contraste internacional
O impacto da queda dos preços do petróleo e das políticas económicas implementadas foi devastador. Entre 2012, ano em que Nicolás Maduro assumiu o poder após a morte de Hugo Chávez, e 2020, o PIB per capita venezuelano despenhou-se de 12.607 dólares para uns meros 1.506 dólares. Em menos de uma década, a riqueza média do venezuelano foi reduzida em quase 90%, um colapso sem precedentes em tempos de paz.
A queda vertiginosa do PIB per capita
Em termos práticos, em 2020, o país regressou a níveis nominais de receita semelhantes aos registados em 1973. Esta regressão dramática apagou cerca de meio século de avanços económicos numa única década de crise, um testemunho sombrio das consequências de decisões políticas e económicas desastrosas. A população sentiu o impacto de forma visceral, com a inflação a disparar, a escassez de bens básicos a tornar-se uma realidade diária e milhões de cidadãos a procurar refúgio e oportunidades noutros países.
Venezuela versus o mundo: um retrocesso de décadas
O contraste torna-se ainda mais evidente quando a trajetória venezuelana é comparada à de outras nações. Em 1990, a China, hoje uma potência económica global, apresentava um PIB per capita equivalente a apenas 13% do registado na Venezuela. Naquele ano, cada chinês produzia em média 319 dólares, enquanto o venezuelano alcançava 2.452 dólares. Mais de três décadas depois, o cenário inverteu-se de forma radical: em 2024, a China registava um PIB per capita de 13.303 dólares, enquanto a Venezuela alcançava apenas 4.218 dólares, ainda muito distante do seu próprio pico.
O mesmo tipo de disparidade pode ser observado em relação ao Brasil. Em 1960, o PIB per capita brasileiro, de 235 dólares, correspondia a cerca de um terço do valor venezuelano à época. Décadas depois, o Brasil, impulsionado também pelo ciclo das matérias-primas, viu a sua receita média superar em mais do dobro a venezuelana, alcançando 10.311 dólares, enquanto a Venezuela continuava a lutar contra a sua recessão.
O legado da crise e o caminho incerto
Apesar de uma recuperação recente em alguns indicadores económicos, a Venezuela permanece dolorosamente distante do patamar que já ocupou no passado. Atualmente, o país mantém uma receita média equivalente a aproximadamente um terço do que já foi no seu período de maior prosperidade. Este cenário persiste mesmo após a escalada de tensões internacionais e as ações recentes dos Estados Unidos contra o regime, o que evidencia que a crise venezuelana tem raízes profundas e estruturais. Estas raízes foram construídas ao longo de anos de decisões políticas com um viés socialista, que comprometeram de forma duradoura a economia nacional, deixando um legado de empobrecimento e incerteza.
FAQ
Qual foi o principal fator para o declínio económico da Venezuela?
O principal fator para o declínio económico da Venezuela foi a combinação de políticas económicas socialistas, com forte controlo estatal e extensas nacionalizações, e a excessiva dependência do petróleo. A má gestão e a corrupção nas empresas estatais agravaram a situação, tornando o país extremamente vulnerável à queda dos preços internacionais do petróleo.
Como o PIB per capita da Venezuela se compara com o de outros países?
O PIB per capita da Venezuela sofreu um colapso drástico. Em 1990, era significativamente superior ao da China ou do Brasil. Contudo, em 2024, o PIB per capita venezuelano (4.218 dólares) é muito inferior ao da China (13.303 dólares) e do Brasil (que ultrapassou os 10.000 dólares), evidenciando um retrocesso económico de décadas.
A Venezuela tem mostrado sinais de recuperação económica?
Embora existam alguns indicadores recentes de uma ligeira recuperação, a Venezuela ainda está muito longe do seu patamar de prosperidade do passado. A receita média do país é atualmente cerca de um terço do que foi no seu auge, e as suas raízes estruturais da crise continuam a representar um desafio significativo para uma recuperação sustentável e abrangente.
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Fonte: https://www.conexaopolitica.com.br