A inteligência artificial transforma o mercado de trabalho português

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A inteligência artificial (IA) representa uma das maiores revoluções tecnológicas da era moderna, com um impacto profundo e multifacetado no mercado de trabalho global, e Portugal não é exceção. Esta tecnologia emergente, que abrange desde a automação de tarefas rotineiras até à análise preditiva complexa, está a redefinir a natureza dos empregos, as competências exigidas e a própria estrutura económica. Embora a promessa de maior eficiência e inovação seja inegável, surgem também preocupações significativas sobre a potencial deslocação de trabalhadores e a necessidade urgente de adaptação. Este artigo explora as dinâmicas desta transformação, analisando os desafios e as oportunidades que a IA apresenta para a força de trabalho portuguesa e as respostas que se estão a delinear.

O impacto transformador da inteligência artificial no emprego

Setores mais vulneráveis e a emergência de novas competências
A ascensão da inteligência artificial tem gerado um debate intenso sobre o futuro do emprego. Estudos recentes e análises setoriais indicam que certos domínios da economia são particularmente suscetíveis à automação impulsionada pela IA. O setor do retalho, por exemplo, enfrenta a crescente implementação de sistemas de checkout automatizados e de gestão de inventário inteligente, que podem reduzir a necessidade de intervenção humana em tarefas transacionais. Na logística e nos transportes, a condução autónoma e os sistemas otimizados de entrega prometem revolucionar as cadeias de abastecimento, diminuindo significativamente a dependência de motoristas e operadores de armazém. O atendimento ao cliente, outrora um baluarte de interação humana, está a ser progressivamente dominado por chatbots e assistentes virtuais capazes de processar um volume vasto de informações e responder a questões complexas com rapidez e consistência, 24 horas por dia.

Contudo, este cenário não é meramente de substituição. A IA também cria novas categorias de emprego e exige um conjunto diferente de competências, reconfigurando a paisagem profissional. A procura por engenheiros de IA, cientistas de dados, especialistas em ética de IA e gestores de projetos de automação está em ascensão, espelhando a crescente dependência das organizações em tecnologias avançadas. Adicionalmente, competências inerentemente humanas como a criatividade, o pensamento crítico, a inteligência emocional e a capacidade de resolução de problemas complexos tornam-se ainda mais valiosas, uma vez que são difíceis, ou impossíveis, de replicar por máquinas. A requalificação profissional (reskilling) e a formação contínua (upskilling) emergem, portanto, como pilares fundamentais para que os trabalhadores portugueses possam navegar com sucesso nesta transição. As universidades, os politécnicos e os centros de formação têm um papel crucial na adaptação dos seus currículos para responder a estas novas exigências do mercado, garantindo que os futuros e atuais profissionais estejam devidamente equipados.

Estratégias de adaptação e políticas de mitigação

O papel da requalificação e do rendimento básico universal
Diante da iminência de uma reestruturação laboral impulsionada pela inteligência artificial, a implementação de estratégias de adaptação robustas e políticas públicas proativas torna-se imperativa. Governos e entidades empregadoras em Portugal têm a responsabilidade partilhada de preparar a força de trabalho para os desafios que se avizinham. Uma das abordagens mais consensualizadas é a aposta massiva na requalificação e na melhoria de competências dos trabalhadores. Programas de formação financiados pelo estado ou em parceria com empresas, focados em literacia digital avançada, programação, análise de dados, cibersegurança e pensamento computacional, são cruciais para capacitar os trabalhadores a transitar para funções mais complexas e interativas com a tecnologia. É vital que estas iniciativas não se limitem a grandes centros urbanos, mas que cheguem a todas as regiões do país, incluindo as mais despovoadas, garantindo uma transição justa e inclusiva que não agrave as assimetrias regionais.

Paralelamente, o debate em torno do rendimento básico universal (RBU) tem vindo a ganhar uma nova relevância neste contexto. A ideia de um rendimento incondicional para todos os cidadãos, independentemente da sua situação laboral, é apresentada por alguns como uma rede de segurança social essencial para mitigar o impacto da perda massiva de empregos devido à automação. Embora o RBU seja um tema complexo e controverso, com debates acalorados sobre a sua viabilidade económica, os seus efeitos na motivação para o trabalho e a sua implementação prática, a sua discussão reflete a gravidade do desafio imposto pela IA. Outras políticas complementares incluem subsídios para a transição profissional, incentivos fiscais para empresas que invistam na formação dos seus colaboradores, e o reforço dos serviços públicos de emprego com consultoria especializada em carreiras digitais. A colaboração estreita entre o setor público, o setor privado e a academia é indispensável para construir um futuro do trabalho que seja resiliente, equitativo e sustentável para a sociedade portuguesa.

A urgência de uma abordagem ética e regulatória
A rápida evolução da inteligência artificial não levanta apenas questões económicas e sociais; acarreta também profundas implicações éticas e regulatórias que exigem uma atenção imediata e concertada. A conceção, desenvolvimento e implementação de sistemas de IA devem ser guiadas por princípios de transparência, responsabilidade e equidade, garantindo que a tecnologia serve o bem-estar humano e social. Questões prementes como a privacidade dos dados pessoais, a opacidade da tomada de decisões algorítmica e o risco de preconceitos (bias) inseridos nos algoritmos são preocupações que precisam de ser ativamente endereçadas. Se os algoritmos forem treinados com conjuntos de dados enviesados ou incompletos, podem perpetuar e amplificar desigualdades existentes, seja na contratação de trabalhadores, na atribuição de crédito bancário ou na administração da justiça penal, comprometendo a equidade e a justiça social.

Portugal, enquanto membro ativo da União Europeia, participa ativamente na formulação de quadros regulatórios inovadores para a IA. A União Europeia tem liderado esforços globais para desenvolver uma abordagem centrada no ser humano para a IA, com propostas de regulamentação que visam garantir a segurança, a confiança e o respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos. A criação de conselhos consultivos de ética em IA, a promoção da auditoria algorítmica independente e a exigência de explicabilidade dos sistemas de IA são passos essenciais para construir a confiança pública e assegurar a responsabilização. Além disso, a discussão sobre a responsabilidade legal em caso de falhas ou danos causados por sistemas autónomos é fundamental para estabelecer um enquadramento jurídico claro. As empresas que desenvolvem e implementam IA devem ser incentivadas a adotar códigos de conduta éticos robustos, garantindo que a inovação tecnológica não compromete os valores humanos e sociais fundamentais. A construção de uma governação robusta e adaptável para a IA é um empreendimento complexo que requer um diálogo contínuo e inclusivo entre legisladores, tecnólogos, filósofos, sociólogos e a sociedade civil em geral, para moldar um futuro onde a IA seja uma força para o progresso humano.

Fonte: https://www.noticiasaominuto.com

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