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A subestimação do risco climático pessoal é um padrão global

Por Portugal 24 Horas

As alterações climáticas são, inegavelmente, um dos maiores desafios da nossa era, mas a forma como os indivíduos percecionam a sua própria vulnerabilidade a este fenómeno revela uma tendência surpreendente e preocupante. Uma análise aprofundada de múltiplos estudos internacionais demonstra que uma percentagem significativa da população global acredita que será menos afetada pelos impactos das alterações climáticas do que outras pessoas. Esta perceção, que persiste independentemente da gravidade dos eventos extremos ou das consequências a longo prazo, levanta questões importantes sobre a eficácia das estratégias de comunicação e sensibilização. Compreender este enviesamento psicológico é crucial para desenvolver abordagens mais eficazes na mitigação e adaptação aos desafios climáticos que se avizinham e que já estão a manifestar-se.

O fenómeno da autodiscrepância na perceção do risco climático

Uma análise exaustiva de estudos globais sublinha uma realidade notável: a maioria das pessoas tende a minimizar o seu risco pessoal face aos impactos das alterações climáticas. Esta conclusão emerge de uma compilação robusta de 83 estudos individuais, que abrange 17 países e envolveu mais de 70.000 participantes, revelando uma perceção generalizada e persistentemente enviesada. Os investigadores, responsáveis pela compilação e análise destes dados, observaram que os riscos climáticos são sistematicamente subestimados quando se trata do impacto direto na vida dos indivíduos. Este padrão sugere uma desconexão entre o reconhecimento do problema global e a aceitação da sua relevância a nível pessoal.

A ilusão da invulnerabilidade pessoal

Os resultados são inequívocos: 65% dos inquiridos classificaram o seu risco pessoal de serem afetados pelas alterações climáticas como inferior ao risco para outras pessoas. Esta autoavaliação mantém-se consistentemente baixa, quer os estudos se foquem em fenómenos específicos, como ondas de calor e inundações, quer abordem as ramificações mais amplas e a longo prazo das mudanças climáticas. Embora a análise realizada não tenha como objetivo medir o risco real a que as pessoas estão expostas, mas sim a sua perceção, a observação a nível de grupo é clara: a maioria das pessoas sente-se menos vulnerável.

Este padrão sugere que, mesmo perante evidências crescentes dos perigos climáticos, uma forte tendência psicológica prevalece, levando os indivíduos a crer que os piores cenários se aplicarão a terceiros – sejam eles vizinhos, concidadãos, populações de outros países ou até mesmo gerações futuras. É particularmente notável que a magnitude deste enviesamento psicológico seja maior quando a comparação é feita com grupos abstratos, como “outros” ou “a humanidade”, e significativamente menor quando os pontos de referência são mais concretos, como os próprios vizinhos.

Paradoxalmente, este fenómeno de “autodiscrepância” foi particularmente acentuado na avaliação de regiões consideradas de baixo risco, como a Europa, e menos evidente em regiões de alto risco, como a Ásia. Esta disparidade indica que em locais onde a ameaça pode parecer mais distante, a tendência para a subestimação pessoal é ainda mais forte. Apenas dois estudos, realizados com agricultores na China e na Coreia do Sul, mostraram uma exceção a esta regra, onde os participantes avaliaram o seu risco pessoal como igual ou superior ao de outros. Este facto sugere que a experiência direta e a exposição concreta aos impactos das alterações climáticas podem reduzir significativamente este efeito psicológico de distanciamento. A resiliência pessoal e a capacidade de superação são frequentemente sobrestimadas, criando uma barreira à aceitação da própria vulnerabilidade.

Os mecanismos psicológicos e as implicações políticas

Esta discrepância entre a perceção do risco pessoal e o risco alheio não é aleatória; está intrinsecamente ligada a mecanismos psicológicos bem estabelecidos. As pessoas tendem a sobrestimar as suas próprias capacidades de enfrentamento e a sua resiliência, ao mesmo tempo que atribuem os riscos a grupos mais abstratos ou distantes. Esta forma de pensar, que pode parecer inofensiva ou até uma forma de poupar energia cognitiva num mundo complexo, acarreta, no entanto, consequências significativas e potencialmente problemáticas para o futuro do planeta e da humanidade.

Impacto na ação e na política climática

As avaliações de risco distorcidas têm um impacto direto no comportamento. Quem acredita estar menos suscetível aos efeitos das alterações climáticas, naturalmente, vê menos motivos para alterar os seus próprios hábitos de vida ou para apoiar ativamente políticas e medidas de mitigação e adaptação. Esta é precisamente a essência do perigo. Se uma grande parte da população permanece convencida de que o problema é “dos outros” – sejam vizinhos, países distantes ou gerações futuras – a vontade coletiva de agir pode ser seriamente comprometida. Este enviesamento psicológico, no pior dos cenários, pode atrasar tanto a capacidade de adaptação às mudanças climáticas inevitáveis, quanto os esforços cruciais para as atenuar e reverter.

A análise global deixa claro que uma política climática eficaz não pode depender apenas da comunicação de dados e factos científicos sobre o aumento das temperaturas ou a frequência de eventos extremos. É fundamental que se compreendam e abordem os filtros psicológicos que moldam a perceção pública do risco. Aumentar a consciencialização sobre a vulnerabilidade pessoal e a interconexão dos destinos humanos face à crise climática é tão importante quanto apresentar as evidências científicas. As estratégias futuras devem, portanto, integrar uma dimensão psicológica robusta, que ajude a colmatar esta lacuna entre a perceção individual e a realidade coletiva do desafio climático. Só assim será possível mobilizar a ação necessária a uma escala global, incentivando mudanças comportamentais e o apoio a políticas ambiciosas que visem proteger o nosso planeta.

Conclusão

A revelação de que a maioria das pessoas subestima consistentemente o seu risco pessoal face às alterações climáticas é um alerta crucial para os decisores políticos, comunicadores e para a sociedade em geral. Esta “ilusão de invulnerabilidade” não é um mero capricho individual, mas um padrão global persistente, enraizado em complexos mecanismos psicológicos. Ao acreditarem que os perigos climáticos afetam principalmente outros, os indivíduos veem-se menos motivados a agir, atrasando esforços essenciais de mitigação e adaptação. A superação deste obstáculo requer uma abordagem mais sofisticada, que vá além da mera apresentação de dados e factos científicos, focando-se em estratégias que ajudem as pessoas a reconhecer a sua própria vulnerabilidade e a interconexão com o problema global. É imperativo que as futuras campanhas de sensibilização e as políticas públicas integrem esta dimensão psicológica, fomentando uma maior perceção da urgência e da responsabilidade individual e coletiva. Só através de uma compreensão aprofundada desta dinâmica humana poderemos catalisar a ação necessária para enfrentar eficazmente a crise climática.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. O que significa a subestimação do risco climático pessoal?
Significa que a maioria das pessoas tende a acreditar que os impactos negativos das alterações climáticas as afetarão menos do que a outras pessoas, como vizinhos, concidadãos ou populações de outros países. Esta é uma perceção comum e generalizada.

2. Porque é que as pessoas subestimam o seu próprio risco face às alterações climáticas?
Esta perceção é atribuída a mecanismos psicológicos, como a tendência para sobrestimar a própria resiliência e capacidade de enfrentamento, e a inclinação para atribuir riscos a grupos mais abstratos e distantes, o que poupa energia cognitiva.

3. Qual o impacto desta subestimação na luta contra as alterações climáticas?
Pessoas que se sentem menos vulneráveis tendem a estar menos motivadas para mudar o seu comportamento ou para apoiar políticas e medidas de mitigação e adaptação. Isto pode atrasar significativamente a resposta global à crise climática e a tomada de decisões cruciais.

4. Como pode ser superada esta discrepância na perceção de risco?
É essencial ir além da comunicação de dados científicos, integrando estratégias que ajudem as pessoas a reconhecer a sua própria vulnerabilidade e a ver a conexão direta entre as alterações climáticas e a sua vida. O uso de pontos de referência concretos (como vizinhos) em vez de abstratos pode ser mais eficaz na comunicação.

Descubra mais sobre como as alterações climáticas podem impactar a sua vida e as ações que pode tomar para fazer a diferença. Informe-se e junte-se ao movimento por um futuro mais sustentável.

Fonte: https://www.tempo.pt

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