Enquanto a atenção global em Inteligência Artificial (IA) se concentra frequentemente em polos tecnológicos consolidados, como o Vale do Silício, Shenzhen ou Bangalore, emerge um novo protagonista com um potencial transformador: África. Contrariamente à perceção comum, o continente africano, apesar das suas limitações em infraestruturas e capital, revela um manancial de criatividade humana, um recurso fundamental na era da IA.
A IA, ao contrário de outras tecnologias que exigem investimentos massivos, valoriza a criatividade e a visão. Este aspeto oferece a África uma vantagem competitiva, já que não necessita de grandes instalações industriais, mas sim de dados, conhecimento linguístico e uma compreensão profunda do contexto local, elementos em que o continente se destaca.
A inovação africana surge, tipicamente, da necessidade de resolver problemas concretos. A IA está a revelar-se uma ferramenta poderosa para acelerar o desenvolvimento e colmatar lacunas sociais no continente. No Quénia, por exemplo, drones equipados com IA auxiliam os agricultores a identificar doenças nas plantações, aumentando a produtividade e a segurança alimentar. Na Nigéria, ferramentas de diagnóstico baseadas em IA aproximam pacientes e médicos, melhorando o acesso aos cuidados de saúde em áreas remotas ou com falta de profissionais. No setor financeiro, a IA é utilizada para desenvolver modelos de risco e crédito que atendem a populações com histórico financeiro informal, formalizando mercados informais.
África possui uma das populações digitais mais jovens e em rápido crescimento do mundo. Uma nova geração está a crescer não só a falar inglês ou suaíli, mas também a linguagem dos algoritmos, APIs e aprendizagem automática. Este grupo representa a base de talento necessária para impulsionar a criação de tecnologia.
O verdadeiro potencial da IA em África reside na redefinição de oportunidades. A diversidade linguística do continente pode ser transformada num ativo de dados valioso para treinar modelos de IA mais inclusivos e representativos. Ao capacitar a sua jovem população com as ferramentas da IA, África pode formar uma força de trabalho altamente qualificada.
A próxima década será crucial para o posicionamento de África no cenário global da IA. O continente perdeu a revolução industrial e participou apenas parcialmente na era digital, mas tem agora a oportunidade de liderar a próxima revolução tecnológica.
Para que esta visão se concretize, são necessárias ações estratégicas. Os governos devem investir em políticas de dados abertos, literacia digital e pesquisa de IA local. Os empreendedores devem concentrar-se em resolver problemas locais urgentes, adaptando ferramentas globais às realidades africanas. Os investidores devem direcionar os seus recursos para laboratórios de IA africanos e capital humano, em vez de se limitarem às matérias-primas tradicionais.
A história da IA em África é uma história de resiliência e necessidade. Ao utilizar a IA para superar as suas próprias limitações, o continente está a construir um caminho para um futuro de crescimento impulsionado pela tecnologia.
Fonte: postal.pt