Agricultura espanhola: crise, envelhecimento e desafios do pacto verde

Gonçalo Viegas

A crise no setor agrícola em Espanha atinge um dos seus pontos mais críticos, confrontando os produtores com um cenário de incerteza e dificuldades crescentes. A falta de rentabilidade no campo, o envelhecimento acentuado da força de trabalho e a quase inexistência de jovens dispostos a abraçar este setor vital são fatores que ameaçam a continuidade de muitas explorações. Este quadro complexo está a levar um número crescente de agricultores a ponderar o encerramento de atividades que, por gerações, foram o sustento de famílias e comunidades. Os custos de produção dispararam, enquanto os preços de venda estagnam, criando uma pressão insustentável. A questão da renovação geracional, em particular, surge como um problema estrutural que, se não for abordado, poderá ter consequências irreversíveis para a segurança alimentar e a coesão territorial de Espanha.

A crise no setor agrícola espanhol: um cenário de declínio

Falta de rentabilidade e custos crescentes

O campo espanhol debate-se com uma combinação de obstáculos económicos que comprometem seriamente a sua viabilidade. Aos custos de produção, que têm vindo a aumentar exponencialmente, juntam-se preços de venda dos produtos agrícolas que raramente compensam o esforço e o investimento dos agricultores. Esta desproporção resulta numa pressão financeira insuportável, empurrando muitos profissionais para a beira do abandono. As longas jornadas de trabalho, que chegam a estender-se por 18 horas diárias, são frequentemente necessárias para garantir um rendimento mínimo que, ainda assim, se revela insuficiente para cobrir as despesas e assegurar uma vida digna. A falta de rentabilidade é, portanto, um fator central na crise agrícola em Espanha, desmotivando não só os atuais produtores, mas também qualquer potencial novo entrante no setor. A contínua redução do número de explorações agrícolas é um espelho desta realidade, com muitos proprietários a verem-se forçados a abdicar da atividade familiar.

O desafio demográfico e o envelhecimento da força de trabalho

Um dos pilares da crise agrícola em Espanha é, inequivocamente, o problema do envelhecimento dos trabalhadores e a ausência de uma substituição geracional. A idade média dos profissionais que ainda se dedicam à agricultura ronda os 60 anos, um indicador alarmante da diminuta atratividade do setor para as novas gerações. Dados recentes revelam que menos de 4% dos agricultores espanhóis têm menos de 35 anos, sublinhando a dificuldade em captar e reter talentos jovens na atividade agrícola. Este fenómeno não se limita à perda de mão de obra; acarreta também a perda de conhecimento e técnicas tradicionais, bem como a estagnação na adoção de novas tecnologias e práticas. A ausência de jovens no campo contribui para a desertificação das zonas rurais, exacerbando problemas como a diminuição da população ativa e a degradação dos serviços essenciais. A vitalidade e a inovação do setor dependem crucialmente da entrada de novas gerações, que atualmente preferem outras opções profissionais que lhes ofereçam maior estabilidade e remuneração.

O impacto das políticas europeias e a desertificação rural

O peso do Pacto Verde Europeu nas explorações

O Pacto Verde Europeu, com os seus ambiciosos objetivos ambientais, tem sido apontado por muitos agricultores como um fator adicional de pressão sobre um setor já fragilizado. Embora reconhecendo a importância da sustentabilidade, os representantes do setor agrícola em Espanha argumentam que as novas normas ambientais impuseram um aumento significativo nos custos de produção, sem que houvesse uma contrapartida financeira ou mecanismos de apoio eficazes que garantam a viabilidade económica das explorações. Medidas como a redução do uso de fertilizantes, produtos fitofarmacêuticos e antibióticos, apesar de visarem práticas mais ecológicas, são vistas como limitativas da produtividade. Na ótica dos agricultores, estas restrições não são acompanhadas de alternativas claras ou de compensações financeiras adequadas, o que os coloca numa posição desfavorável perante a concorrência e agrava a sua já precária situação. Há um apelo generalizado por uma revisão destas políticas, de modo a encontrar um equilíbrio entre as exigências ambientais e a sustentabilidade económica do setor primário.

A urgência da despovoação rural e a busca por soluções

A crise no setor agrícola está intrinsecamente ligada ao problema mais amplo da despovoação rural em Espanha. A saída de jovens e famílias das zonas rurais em busca de melhores oportunidades em centros urbanos tem um impacto devastador na vitalidade das comunidades, na manutenção das paisagens e na própria segurança alimentar. Instituições europeias e nacionais têm procurado combater esta tendência através de programas como o Pacto Rural Europeu, que visa fortalecer a governação local, melhorar infraestruturas e atrair investimento para o interior. No entanto, a perceção no terreno é de que estas iniciativas, embora louváveis, não são suficientes. Muitos agricultores são unânimes em afirmar que é impossível reverter a despovoação e atrair novas gerações para o campo enquanto a atividade agrícola não garantir rendimentos suficientes e condições de trabalho que sejam compatíveis com as expectativas e o estilo de vida contemporâneos. A continuidade deste setor vital exige uma abordagem holística que aborde tanto os desafios económicos e demográficos como as pressões regulatórias.

A necessidade de ação urgente

A gravidade da crise agrícola em Espanha é inegável, com alertas a multiplicarem-se e números que confirmam um declínio preocupante. A combinação da falta de rentabilidade, o envelhecimento da população ativa e o impacto das políticas ambientais coloca o setor num precipício. As soluções para reverter esta tendência são complexas e exigem uma coordenação de esforços entre governos, instituições europeias e os próprios produtores. É imperativo criar condições que assegurem a viabilidade económica das explorações, incentivem a renovação geracional e promovam um desenvolvimento rural sustentável. A questão central que se impõe é se haverá capacidade e vontade política para implementar as ações necessárias a tempo de evitar um declínio irreversível de um setor que é fundamental para a economia, a cultura e a segurança alimentar de Espanha e da Europa. A inação poderá ter consequências profundas e duradouras para o futuro do campo.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que está a causar a atual crise no setor agrícola em Espanha?
A crise resulta de uma combinação de fatores: a falta de rentabilidade devido aos elevados custos de produção e aos baixos preços de venda, o acentuado envelhecimento da força de trabalho e a falta de jovens dispostos a integrar o setor, e o impacto das novas políticas ambientais do Pacto Verde Europeu que, segundo os agricultores, aumentam os custos sem compensação adequada.

Qual é o principal desafio demográfico que o setor agrícola espanhol enfrenta?
O principal desafio demográfico é o envelhecimento da população agrícola. A idade média dos agricultores é de cerca de 60 anos, e menos de 4% têm menos de 35, indicando uma grave falta de renovação geracional. Esta situação ameaça a continuidade das explorações e a transmissão de conhecimento no setor.

Como é que o Pacto Verde Europeu afeta os agricultores espanhóis?
O Pacto Verde Europeu é criticado por impor medidas ambientais, como a redução do uso de fertilizantes e produtos fitofarmacêuticos, que aumentam os custos de produção e limitam a produtividade. Os agricultores sentem que estas medidas não são acompanhadas de alternativas viáveis ou de apoio financeiro que compense as perdas de rendimento, colocando em risco a viabilidade das suas explorações.

Para aprofundar a sua compreensão sobre os desafios e as propostas para o futuro da agricultura europeia, consulte mais informações e participe na discussão sobre as políticas que moldarão este setor vital.

Fonte: https://postal.pt

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