No vocabulário da Proteção Civil, poucas palavras evocam tanto perigo como o «rompimento de um dique». Para compreender a gravidade do que acontece atualmente em Coimbra, é necessário entender a engenharia por trás destas barreiras e a física implacável da água em movimento.
LISBOA – Frequentemente confundidos com barragens, os diques são estruturas de engenharia hidráulica com uma função distinta e crucial: a contenção lateral. Enquanto uma barragem atravessa um rio para criar um reservatório, um dique é construído paralelamente às margens. O seu objetivo é manter o curso de água dentro de um canal confinado, impedindo que este galgue para áreas que, embora geograficamente baixas (planícies aluviais), são hoje ocupadas por habitações, hospitais ou explorações agrícolas.
A mecânica da contenção
No caso do Baixo Mondego, o sistema assenta em aterros de terra, rocha e, nalguns troços, betão. Estas estruturas funcionam como «muros de segurança» que permitem que o rio corra a uma cota superior à dos terrenos circundantes. No entanto, esta eficácia depende de um equilíbrio frágil.
Quando o caudal sobe para níveis extremos — como os atuais 1.700 m³/s — o dique sofre dois tipos de agressão:
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Pressão Hidrostática: O peso da água exerce uma força lateral constante sobre a estrutura. Se houver fissuras ou falta de manutenção, a água começa a infiltrar-se, enfraquecendo o núcleo do dique.
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Erosão por Galgamento: Se a água passa por cima do topo do dique, a velocidade da queda no lado seco começa a «escavar» a base da estrutura. É aqui que reside o maior perigo.
O efeito «bomba»: A rotura catastrófica
O termo «bomba», utilizado pelas autoridades em Coimbra, não é um exagero retórico. Quando um dique de terra cede, ele não se limita a deixar a água passar; ele colapsa rapidamente.
A rotura cria uma brecha que se expande em segundos devido à força erosiva da torrente. A massa de água, acumulada a uma altura superior à do terreno, é libertada subitamente, criando uma onda de cheia repentina. Ao contrário de uma inundação gradual provocada pela chuva, o rompimento de um dique projeta água com uma energia cinética devastadora, capaz de arrastar viaturas, derrubar muros e inundar pisos térreos em poucos minutos.
O «Dique Fusível»: Uma válvula de segurança
Curiosamente, o sistema do Mondego inclui estruturas chamadas «diques fusíveis». São secções projetadas propositadamente para serem mais baixas ou frágeis, funcionando como um «disjuntor» elétrico. Em caso de pressão extrema, o engenheiro opta por deixar a água sair por ali — inundando campos agrícolas controlados — para evitar que o dique principal rebente junto a zonas densamente povoadas, como a Baixa de Coimbra.
O que ocorreu hoje em Casais foi, no entanto, uma falha não planeada. Com a integridade estrutural comprometida, a única defesa restante é a distância e o tempo — as duas razões que levaram à evacuação urgente das 3.000 pessoas que se encontravam no caminho provável da água.