Antártida: tecnologia espacial revela mundo oculto sob quilómetros de gelo

Meteored Portugal

A vasta e misteriosa Antártida, coberta por uma monumental camada de gelo que em algumas áreas atinge quase quatro quilómetros de espessura, tem guardado segredos geográficos por milénios. Agora, uma inovação científica de ponta, baseada em observações espaciais, permitiu aos investigadores desvendar, pela primeira vez, o complexo relevo subglacial deste continente gelado com uma clareza sem precedentes. Este avanço transcende a mera curiosidade, fornecendo um mapa detalhado de montanhas, vales e colinas que se estendem sob o manto gelado, essencial para entender a dinâmica do gelo, a sua resposta às alterações climáticas e a subsequente contribuição para a subida global dos níveis do mar. Este mapeamento revolucionário transforma a nossa compreensão do continente.

A descoberta de um continente oculto

Os desafios do mapeamento subglacial

Até recentemente, o conhecimento sobre o terreno subjacente à imensa camada de gelo da Antártida era fragmentado e repleto de incertezas. A superfície rochosa e sedimentar do continente, oculta sob quilómetros de gelo, representa um desafio monumental para a exploração e mapeamento. As metodologias anteriores baseavam-se principalmente em sondagens geofísicas por radar, realizadas a partir de aeronaves ou terrestres. Embora estas sondagens fornecessem dados valiosos, eram inerentemente pontuais e dispersas, cobrindo apenas pequenas porções da vasta extensão antártica.

Como resultado, os mapas existentes do relevo subglacial eram construídos através de interpolações complexas entre esses pontos de medição, o que invariavelmente introduzia grandes margens de erro e incertezas significativas em vastas áreas. Estas lacunas de informação limitavam drasticamente a capacidade dos cientistas para compreender a interação fundamental entre o gelo e o leito rochoso. O terreno subglacial, com as suas montanhas, vales, colinas e canais profundos, é um fator crucial que determina como as camadas de gelo se movem, quão rapidamente podem fluir para o oceano e, em última análise, a sua estabilidade face às alterações ambientais. A necessidade de um mapa contínuo, de alta resolução e preciso era, portanto, uma prioridade urgente para a ciência polar e climática.

Inovação tecnológica: a análise de perturbação do fluxo de gelo (IFPA)

Desvendando o terreno através do gelo em movimento

A inovação central que permitiu esta revolução no mapeamento subglacial reside numa técnica engenhosa designada por Ice Flow Perturbation Analysis (IFPA), ou Análise de Perturbação do Fluxo de Gelo. Esta abordagem singular não tenta mapear diretamente o leito subterrâneo, o que seria tecnologicamente quase impossível à escala continental, mas sim “ler” as marcas que o terreno deixa na superfície do gelo. O princípio físico subjacente é que, à medida que o gelo flui sobre obstáculos e irregularidades no leito rochoso – sejam montanhas, vales ou pequenas elevações – essas perturbações topográficas se traduzem em pequenas alterações no perfil e na velocidade da superfície do gelo.

Em termos mais simples, o gelo atua como um registador passivo do terreno que atravessa. As variações observadas na sua superfície, como pequenas ondulações ou mudanças na sua elevação, são os “ecos” da paisagem subjacente. A equipa de investigadores combinou observações de satélite de alta resolução da superfície do gelo com as medições disponíveis da espessura do gelo, aplicando então o algoritmo IFPA. Este processo permitiu reconstruir o relevo por baixo do manto gelado. O resultado é o primeiro mapa contínuo e detalhado da topografia subglacial de toda a Antártida, com uma resolução que permite identificar características geográficas que variam entre 2 e 30 quilómetros de largura.

O que foi descoberto? O novo mapa desvenda uma miríade de características surpreendentes, muitas das quais nunca tinham sido observadas nos mapas anteriores. Inclui cadeias de montanhas e colinas subglaciais extensas, vales profundos e canais com centenas de quilómetros de comprimento, como um vale particularmente pronunciado na Bacia Subglacial de Maud. A rugosidade topográfica geral do continente é muito maior do que se pensava, com a identificação de milhares de pequenas elevações e depressões que anteriormente escapavam aos modelos. Uma estimativa conservadora aponta para mais de 71.000 elevações locais (colinas) sob o gelo, um número que duplica as observações de mapas anteriores baseados em interpolação. Esta informação pormenorizada é crucial, pois a forma do terreno influencia diretamente a velocidade e a dinâmica do fluxo de gelo. Uma superfície subglacial mais rugosa, com mais obstáculos, gera um maior atrito, desacelerando o movimento das camadas de gelo e, consequentemente, influenciando a estabilidade de vastas zonas glaciares. As transições abruptas entre terrenos altos e baixos, agora visíveis, podem indicar fronteiras tectónicas ou diferentes tipos geológicos, abrindo novas vias para a compreensão da história geológica do continente.

Implicações cruciais para o futuro do planeta

Impacto nos modelos climáticos e geológicos

O mapeamento detalhado do terreno subglacial da Antártida transcende o interesse puramente geográfico, possuindo implicações práticas profundas para a ciência do clima e para a compreensão do futuro do nosso planeta. Em primeiro lugar, a forma do terreno é um fator determinante na forma como as camadas de gelo se desprendem e se deslocam em direção ao oceano. Um mapa mais preciso do leito subglacial reduz significativamente as incertezas nos modelos climáticos que procuram antecipar a rapidez com que o gelo antártico pode derreter e contribuir para a subida global dos níveis do mar. Modelos climáticos mais robustos e precisos são vitais para o planeamento de estratégias de adaptação e mitigação das alterações climáticas.

Além disso, as características descobertas, como vales profundos ou canais, podem ser relíquias de eras geológicas muito antigas, precedendo a formação da atual camada de gelo. O estudo pormenorizado destas formações ajuda os cientistas a reconstruir o passado tectónico e climático da Antártida, fornecendo pistas sobre como o continente evoluiu ao longo de milhões de anos. Esta perspetiva histórica é fundamental para contextualizar as mudanças atuais e futuras. Finalmente, o novo mapa tem um valor inestimável para guiar futuras sondagens e investigações. Ao identificar zonas onde as condições do terreno são particularmente interessantes, complexas ou de grande relevância para a dinâmica do gelo, os cientistas podem agora direcionar recursos e campanhas de estudo geofísico mais detalhadas para as áreas prioritárias, otimizando a recolha de dados e a eficiência da pesquisa.

Apesar dos notáveis avanços que este novo mapa representa, é importante reconhecer as suas limitações. A técnica IFPA, embora poderosa, mapeia principalmente características subglaciais maiores, na escala de 2 a 30 quilómetros. Pequenas características topográficas mais finas ainda permanecem fora do alcance desta metodologia. Adicionalmente, a IFPA baseia-se em certas assunções sobre o comportamento físico do gelo, que poderão necessitar de refinamento à medida que mais dados de observação forem sendo acumulados. No entanto, os autores deste estudo estão otimistas quanto ao potencial de melhoria progressiva deste tipo de mapa com futuras observações por satélite e, crucialmente, com o direcionamento de campanhas de sondagens geoelétricas ou por radar, agora mais eficazmente orientadas graças à nova visão oferecida por este mapeamento. Este estudo marca um passo gigantesco na nossa capacidade de explorar e compreender o continente mais inacessível da Terra, com repercussões profundas para a ciência polar e climática.

Fonte: https://www.tempo.pt

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