Arte rupestre de Muna pode ser a mais antiga do mundo com

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Uma descoberta notável na arqueologia mundial reescreve a cronologia da criatividade humana. Na remota ilha de Muna, Indonésia, arqueólogos identificaram uma representação de uma mão em stencil numa gruta que poderá ser a arte rupestre mais antiga conhecida no planeta. Datada de, pelo menos, 67.800 anos, esta imagem ancestral desafia as conceções pré-estabelecidas sobre as origens da arte e a dispersão dos primeiros humanos. Longe das famosas grutas europeias, esta descoberta sublinha a riqueza cultural do Sudeste Asiático e a complexidade das sociedades pré-históricas naquela região. A identificação desta arte rupestre em Muna representa um marco crucial, sugerindo que a capacidade simbólica e artística não se restringia a um único berço geográfico, mas floresceu independentemente em diversos pontos do globo.

A revelação em Muna: uma janela para o passado

A ilha de Muna, parte da província de Celebes (Sulawesi) na Indonésia, emergiu recentemente como um dos mais importantes epicentros da arqueologia mundial. Longe dos circuitos tradicionais de investigação, esta região remota tem vindo a revelar tesouros que redefinem a narrativa da humanidade. A descoberta da mão em stencil não é apenas um feito isolado, mas parte de um conjunto de achados que têm posicionado o Sudeste Asiático marítimo na vanguarda da pesquisa sobre as primeiras expressões artísticas. A humildade da ilha esconde uma história profunda e complexa, agora revelada através da perseverança de equipas de arqueólogos que se aventuram nestes recantos esquecidos.

O contexto geográfico e a descoberta

A ilha de Muna, caracterizada pelas suas paisagens cársicas e inúmeras grutas e abrigos rochosos, oferece um cenário ideal para a preservação de vestígios arqueológicos. Estas formações geológicas atuam como cápsulas do tempo, protegendo a arte rupestre e outros artefactos das intempies e da degradação. A descoberta da mão em stencil ocorreu no interior de uma dessas grutas, onde as condições ambientais permitiram que a tinta e o pigmento se mantivessem intactos por dezenas de milhares de anos. A identificação desta obra foi o resultado de uma exploração sistemática, combinando técnicas avançadas de documentação e datação com o conhecimento tradicional das comunidades locais, que muitas vezes guardam segredos sobre estes locais ancestrais. A localização remota e o acesso desafiador a estas grutas realçam o esforço e a dedicação das equipas envolvidas nesta pesquisa pioneira.

A técnica do stencil e o seu significado

A técnica de stencil, ou estêncil, é um dos métodos mais antigos e universalmente reconhecidos de arte rupestre. Consiste em colocar a mão diretamente sobre a parede da gruta e depois soprar pigmento em pó – geralmente ocre vermelho ou preto – sobre ela, deixando a forma negativa da mão impressa na rocha. Este gesto, aparentemente simples, carrega uma profunda carga simbólica. Pode ser interpretado como uma forma de “assinar” a obra, de marcar presença, de invocar proteção ou de participar num ritual. É uma ligação direta e íntima com o artista do passado, um eco palpável de uma existência muito distante. A uniformidade e a prevalência desta técnica em diferentes culturas e épocas, desde a Europa à Austrália e à Indonésia, sugerem uma intuição comum sobre a representação e a permanência do indivíduo no coletivo ou no ambiente. A mão em stencil em Muna, com a sua idade extraordinária, amplifica o mistério e a universalidade desta forma de expressão humana.

Repensar as origens da arte humana

Durante muito tempo, a Europa, com as suas grutas de Chauvet, Lascaux e Altamira, foi considerada o berço da arte rupestre complexa e simbólica. Estas grutas, embora espetaculares, datam de períodos posteriores ao achado de Muna. A descoberta na Indonésia, e outras semelhantes na região, forçam uma reavaliação fundamental dessa perspetiva eurocêntrica, demonstrando que a criatividade humana floresceu em diversas regiões do globo muito antes do que se pensava. Esta arte rupestre é um testemunho da capacidade inata dos nossos antepassados para pensar abstratamente e expressar-se artisticamente.

A datação revolucionária e o método

A datação de 67.800 anos para a arte rupestre de Muna foi alcançada através de métodos científicos rigorosos, nomeadamente a datação por urânio-tório. Este método é particularmente eficaz para arte rupestre em grutas, pois analisa depósitos de carbonato de cálcio, como as crostas finas de calcita que se formam sobre e por baixo da arte ao longo de milénios. O urânio presente nesses depósitos decai radioactivamente em tório a uma taxa conhecida, permitindo aos cientistas calcular com precisão quando esses depósitos se formaram e, por inferência, a idade mínima e máxima da arte. A fiabilidade desta técnica é crucial para validar a antiguidade destas descobertas e sustentar a sua importância no contexto da história da arte global. A aplicação desta metodologia avançada em Muna permite uma janela de tempo sem precedentes para a atividade artística primitiva na região.

Comparação com outras descobertas globais

A descoberta em Muna junta-se a um crescente corpo de evidências que desafiam a primazia europeia na arte rupestre. Recentemente, outras descobertas em Celebes (Sulawesi), incluindo representações de animais como porcos-do-mato e babirusas, foram datadas de mais de 45.500 anos. Embora mais jovens que a mão de Muna, estas obras também foram consideradas entre as mais antigas representações figurativas do mundo. Na Austrália, há evidências de arte rupestre que pode ter mais de 65.000 anos, embora a datação direta seja mais desafiadora. Estas descobertas coletivas no Sudeste Asiático e na Oceânia indicam uma complexidade cultural e uma capacidade artística sofisticada que se desenvolveu em paralelo ou até antes do que se verificou na Europa. Longe de serem ilhas isoladas de criatividade, estas regiões foram centros vibrantes de inovação cultural e tecnológica para os primeiros humanos.

Implicações para a história da migração humana

A idade da arte rupestre em Muna tem profundas implicações para a compreensão dos padrões de migração dos primeiros humanos. Sugere que o Homo sapiens já estava estabelecido nesta parte do Sudeste Asiático muito antes do que se pensava e com uma capacidade cultural plena. A travessia marítima para ilhas como Muna e Celebes era um feito complexo que exigia não só tecnologia, mas também planeamento e cooperação social avançada.

A presença humana primitiva na Insulíndia

A datação da arte de Muna, em 67.800 anos, recua significativamente o cronograma para a colonização da Insulíndia – o arquipélago que engloba as ilhas da Indonésia, Malásia, Filipinas e Nova Guiné. Esta região é crucial para entender a rota de dispersão dos primeiros Homo sapiens para a Austrália e Nova Guiné. Para alcançar a ilha de Muna, os nossos antepassados teriam de realizar travessias marítimas, um feito que demonstra habilidades de navegação e tecnologia de construção de embarcações primitivas. Isto indica que as sociedades que habitaram Muna naquela época eram complexas e resilientes, capazes de se adaptar e prosperar em ambientes insulares desafiadores. A ilha não era um mero ponto de passagem, mas um lar onde a cultura e a arte floresciam.

A complexidade cognitiva dos nossos antepassados

A criação de arte rupestre, especialmente de formas simbólicas como as mãos em stencil, não é um simples ato manual. Requer uma capacidade cognitiva avançada: pensamento abstrato, simbolismo, planeamento e a habilidade de transmitir ideias e emoções. A arte de Muna revela que os Homo sapiens há quase 70.000 anos possuíam essas capacidades em plena manifestação. Isso desafia a ideia de que a “revolução cognitiva” que levou à arte e ao pensamento simbólico ocorreu de forma súbita e localizada. Em vez disso, sugere que estas habilidades foram desenvolvidas e expressas em diferentes populações em diversas partes do mundo, sublinhando a universalidade e a antiguidade da mente humana moderna. É um testemunho da riqueza intelectual e espiritual dos nossos antepassados, que deixaram a sua marca não só em grutas europeias, mas também nas cavernas tropicais de uma ilha remota da Indonésia.

Património e futuro da investigação

A descoberta da arte rupestre em Muna é um lembrete contundente da riqueza do património cultural global e da necessidade urgente de o proteger. Estes locais são vulneráveis à degradação natural e à atividade humana, exigindo esforços concertados para a sua conservação e estudo.

A conservação de sítios arqueológicos

A preservação de sítios de arte rupestre tão antigos e valiosos como o de Muna é um desafio monumental. A exposição a elementos naturais, o turismo não regulado e até a pilhagem representam ameaças significativas. É imperativo que as autoridades locais e as organizações internacionais trabalhem em conjunto para implementar medidas de conservação eficazes. Isso inclui a monitorização climática das grutas, a restrição de acesso a áreas sensíveis, a educação das comunidades locais sobre a importância do património e a implementação de tecnologias de digitalização para criar registos tridimensionais das obras. Proteger estes locais é proteger a nossa história coletiva e a herança de toda a humanidade, garantindo que as gerações futuras possam aprender e inspirar-se nas primeiras manifestações de criatividade.

O potencial inexplorado da região

A ilha de Muna e a região mais vasta de Celebes ainda guardam muitos segredos. A densidade de grutas e abrigos rochosos, combinada com o clima tropical que favorece a formação de depósitos de calcita para datação, sugere que há um vasto potencial para novas descobertas. A investigação futura nesta área poderá não só revelar mais arte rupestre, mas também fornecer informações cruciais sobre as ferramentas, dietas e modos de vida dos primeiros Homo sapiens na Insulíndia. Estas descobertas continuarão a remodelar a nossa compreensão da pré-história humana, demonstrando que a história da arte e da migração humana é muito mais complexa e rica do que os modelos anteriores sugeriam, com múltiplos centros de inovação e desenvolvimento cultural espalhados pelo mundo.

Perguntas frequentes sobre a arte rupestre de Muna

1. O que é a arte rupestre de Muna?
É uma representação de uma mão em stencil encontrada numa gruta na ilha de Muna, Indonésia, datada de pelo menos 67.800 anos, tornando-a potencialmente a arte rupestre mais antiga conhecida no mundo.

2. Como foi datada esta arte rupestre?
Foi datada usando a técnica de urânio-tório, que analisa o decaimento radioativo de urânio em depósitos de calcita que se formaram sobre e sob a arte na parede da gruta.

3. Qual é a importância desta descoberta?
A sua idade reescreve a cronologia da arte humana, sugerindo que a capacidade artística e simbólica floresceu no Sudeste Asiático muito antes e em paralelo com a Europa, e fornece novas perspetivas sobre a migração e as capacidades cognitivas dos primeiros Homo sapiens.

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Fonte: https://www.theportugalnews.com

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