Numa fascinante fusão de moda, biotecnologia e exploração espacial, uma iniciativa pioneira está a desenvolver têxteis capazes de detetar a radiação. Este projeto inovador visa criar um sistema de alerta precoce que poderá ser crucial para a segurança dos futuros exploradores espaciais, bem como para a saúde pública na Terra. Ao aproveitar as propriedades únicas de pigmentos bacterianos, os investigadores estão a conceber tecidos que reagem visivelmente à exposição à radiação, oferecendo uma solução simples e eficaz sem a necessidade de eletrónica complexa. Esta colaboração entre cientistas e designers promete revolucionar a forma como monitorizamos e nos protegemos contra os perigos invisíveis da radiação, desde a órbita lunar até ao nosso quotidiano, abrindo novas portas para a moda funcional e a segurança ambiental.
Inovação têxtil: um sistema de alerta precoce
A sinergia entre ciência e moda
A Universidade de Glasgow, no Reino Unido, está na vanguarda de uma colaboração sem precedentes que une o rigor científico à criatividade da moda. Juntamente com a estilista Katie Tubbing, os investigadores desenvolveram tecidos multicamadas e multicoloridos, tingidos com corantes biológicos especialmente formulados a partir de diferentes tipos de bactérias. A ideia central é genial na sua simplicidade: quando expostos a radiação e luz ultravioleta (UV), os corantes em cada camada desvanecem, revelando a camada subjacente e, assim, fornecendo uma indicação visual clara e imediata do nível de radiação absorvida. Este conceito inovador promete ser um divisor de águas na proteção contra os riscos radiológicos, oferecendo uma ferramenta intuitiva e acessível. A abordagem de camadas não só permite uma gradação na leitura da exposição, como também adiciona uma dimensão estética aos têxteis, tornando-os visualmente atraentes.
Teste de resistência no espaço
Para validar a eficácia destes corantes em condições extremas, o projeto “Pigmented Space Pioneers” dará um passo crucial. A startup espacial Spinning Around planeia enviar uma amostra deste tecido inovador a bordo de um satélite PocketQube, com lançamento previsto para fevereiro de 2026. Durante meses de exposição à radiação em órbita terrestre baixa, o satélite irá capturar e transmitir fotografias do tecido. Estas imagens serão fundamentais para documentar a mudança de cor dos pigmentos, permitindo aos cientistas avaliar o seu desempenho e a sua previsibilidade face à radiação cósmica. Este teste rigoroso é essencial para garantir a fiabilidade do sistema, confirmando que os tecidos podem realmente servir como um indicador robusto e autónomo da exposição radiológica em ambientes espaciais hostis.
Aplicações revolucionárias: do cosmos ao quotidiano
Proteger exploradores espaciais e equipamentos sensíveis
O potencial dos tecidos tingidos com corantes bacterianos estende-se muito além dos testes orbitais. Em futuras missões espaciais, estes têxteis poderiam ser utilizados para cobrir equipamentos sensíveis, protegendo-os da degradação causada pela radiação. Mais crucialmente, poderiam ser incorporados nos uniformes dos astronautas, funcionando como um sistema de alerta imediato. Imaginar os exploradores na Lua ou em Marte a verificar a cor das suas roupas para determinar se foram expostos a níveis perigosos de radiação oferece uma nova camada de segurança. Este método, que não depende de eletrónica, representa uma vantagem significativa em ambientes onde a fiabilidade dos dispositivos eletrónicos pode ser comprometida, proporcionando aos astronautas uma forma visual e instintiva de gerir os riscos.
Vigilância solar e saúde na terra
As aplicações destes tecidos não se confinam ao espaço. Na Terra, o seu impacto pode ser igualmente transformador, especialmente em contextos clínicos. Em hospitais, por exemplo, uniformes e aventais sensíveis à radiação poderiam ser usados pela equipa de radioterapia, ajudando a monitorizar a sua exposição. Contudo, uma das aplicações mais promissoras é na moda do dia a dia. Roupas que mudam de cor para indicar a exposição solar excessiva poderiam tornar-se uma ferramenta essencial na prevenção do cancro da pele, um problema de saúde pública crescente. Este conceito transformaria peças de vestuário comuns em dispositivos de saúde proativos, educando e protegendo os utilizadores de forma subtil, mas eficaz, contra os perigos dos raios UV.
A ciência por detrás da cor e da proteção
Como as bactérias sinalizam o perigo
O Dr. Gilles Bailet, professor de tecnologia espacial na Escola de Engenharia James Watt e líder do projeto Pigmented Space Pioneers, esclarece o mecanismo por trás desta inovação: “A exposição à radiação degrada os pigmentos das bactérias, enquanto uma exposição semelhante à radiação em humanos degrada o nosso ADN”. Esta analogia é crucial para entender a relevância do projeto. Nas bactérias, a degradação manifesta-se numa redução da saturação das cores, um fenómeno visível. Nos humanos, a radiação pode levar a mutações genéticas e, em última instância, ao cancro. A inteligência do projeto reside em aproveitar a resposta altamente visível das bactérias para criar um sistema de alerta precoce inequívoco para a exposição à radiação. A grande vantagem é que este sistema não requer qualquer dispositivo eletrónico ou baterias; basta a observação visual para perceber como as cores reagem às mudanças na radiação ambiente, tornando-o extremamente simples e acessível.
Pigmentos naturais e engenharia de tecidos
Os tecidos foram tingidos com seis cores distintas, todas derivadas de bactérias: vermelho, amarelo, rosa, azul e laranja. As bactérias selecionadas para este projeto são inofensivas e produzem naturalmente diferentes pigmentos com variadas funções protetoras. Tal como algumas bactérias desenvolveram mecanismos para se defenderem da luz ultravioleta, de antibióticos ou de outras ameaças ambientais, estes pigmentos atuam como escudos naturais. A aplicação das bactérias nos tecidos foi feita com precisão, utilizando agulhas especiais e técnicas de impressão 3D para criar padrões e camadas controlados. Após a morte das bactérias, restam apenas os seus pigmentos protetores, resultando num tecido estável e com cores resistentes, que reage de forma previsível à exposição à radiação. Katie Tubbing, a estilista envolvida, sublinha: “Estamos a desenvolver um tecido com um design visualmente atraente, mas também fácil de ler, para que no futuro seja fácil ver à primeira vista quando a cor desvanecer devido à exposição à radiação potencialmente perigosa. É um desafio emocionante e uma fusão única de arte e ciência.”
O papel da microbiologia: da casa de banho ao espaço
A Dra. Keira Tucker, bióloga-chefe da empresa ASCUS Art & Science, responsável pelo cultivo e aplicação das bactérias, destaca a sustentabilidade da abordagem. “Na ASCUS, trabalhamos em maneiras de usar formas comuns de bactérias para criar métodos mais sustentáveis de tingimento de roupas do que os corantes sintéticos, que podem poluir a água e ter sérios impactos negativos no ambiente”. Este projeto não só é inovador, como também ambientalmente consciente. A Dra. Tucker dá um exemplo surpreendente: “Uma das bactérias pigmentadas que usamos, a Serratia marcescens, pode estar presente na sua casa de banho se não limpar o lavatório há algum tempo; ela forma anéis vermelhos à volta das torneiras. É fantástico pensar que podemos dar a essas bactérias um novo propósito em projetos ambiciosos como o Pigmented Space Pioneers”. Este pormenor ilustra a capacidade da ciência de transformar elementos do quotidiano em ferramentas para a exploração de fronteiras.
O futuro da proteção radiológica
Expansão da missão lunar: 2028
Se a missão de fevereiro de 2026 for bem-sucedida, o projeto “Pigmented Space Pioneers” prevê um passo ainda mais ambicioso: o envio de um pedaço maior do tecido para a superfície lunar em 2028. Esta amostra será equipada com uma câmara e um microscópio dedicados, permitindo à equipa de investigação compreender melhor como o corante reage à exposição prolongada à intensa radiação presente na Lua. Os dados recolhidos sobre os padrões de exposição à radiação serão cruciais para aprimorar as medidas de segurança de futuras missões tripuladas à Lua, garantindo que os astronautas estejam o mais protegidos possível num ambiente tão desafiador.
Um teste “fora do comum”
O Dr. Bailet expressa o entusiasmo e a visão a longo prazo do projeto: “Se o projeto se desenvolver como esperamos, estamos a explorar a possibilidade de enviar uma segunda amostra, maior, do tecido à Lua para submetê-la a um teste de resistência que será literalmente fora do comum”. Esta declaração não só reforça a magnitude das ambições do projeto, como também a sua natureza verdadeiramente inovadora, buscando soluções de proteção que desafiam os limites da engenharia e da biotecnologia. A visão é clara: criar um futuro onde a exploração espacial seja mais segura e a saúde na Terra, mais protegida.
Perspetivas de um futuro mais seguro e consciente
A fusão de biotecnologia, design e engenharia espacial neste projeto representa um marco significativo na busca por soluções inovadoras para desafios globais. A promessa de tecidos que alertam visualmente para a radiação, quer seja para astronautas em órbita ou para cidadãos no seu dia a dia, demonstra o potencial ilimitado da ciência quando aplicada de forma criativa. Este sistema passivo, mas eficaz, é um testemunho da capacidade humana de adaptar a natureza em prol da segurança e do bem-estar, delineando um futuro onde a proteção contra perigos invisíveis se torna uma parte integrada e intuitiva da nossa existência.
Perguntas frequentes sobre os têxteis inteligentes
1. Como funcionam os tecidos tingidos com bactérias para detetar radiação?
Os tecidos são tingidos com corantes produzidos por bactérias inofensivas. Estes pigmentos reagem à exposição à radiação e à luz ultravioleta desvanecendo-se, ou seja, perdem a cor. O desvanecimento da cor revela camadas inferiores do tecido, funcionando como um indicador visual claro e imediato do nível de radiação absorvida, sem a necessidade de qualquer eletrónica.
2. Quais são as principais aplicações destes tecidos inovadores?
Existem duas grandes áreas de aplicação. No espaço, os tecidos podem ser usados para proteger equipamentos sensíveis e para confecionar vestuário para astronautas, alertando-os sobre níveis perigosos de radiação. Na Terra, podem ser utilizados em uniformes de equipas de radioterapia ou em roupas do dia a dia que mudam de cor para indicar exposição solar excessiva, ajudando na prevenção do cancro da pele.
3. As bactérias usadas nos tecidos são perigosas para os humanos?
Não, as bactérias utilizadas neste projeto são inofensivas para os humanos. Apenas os pigmentos que elas produzem são incorporados nos tecidos. Após a aplicação, as bactérias são mortas, deixando apenas os seus pigmentos protetores que conferem a capacidade de reação à radiação.
4. Quando se prevê que estes tecidos sejam testados no espaço?
Uma amostra dos tecidos está programada para ser enviada a bordo de um satélite PocketQube em fevereiro de 2026, para ser testada em órbita terrestre baixa. Posteriormente, em 2028, planeia-se enviar uma amostra maior para a superfície lunar para estudos mais aprofundados sobre a reação à radiação prolongada.
Mantenha-se atento às próximas fases desta iniciativa pioneira que promete revolucionar a segurança espacial e a saúde no nosso planeta.
Fonte: https://www.tempo.pt