O Governo português tomou a decisão de reclassificar o bagaço de azeitona, elevando-o de resíduo a recurso. Esta alteração surge como um impulso à economia circular, permitindo que os olivicultores valorizem um subproduto anteriormente encarado como um problema ambiental.
O bagaço de azeitona resulta do processo de extração do azeite. Após a colheita, as azeitonas são lavadas e moídas até se obter uma pasta constituída por azeite, água, caroço e polpa. A decantação mecânica do azeite deixa como resíduo o bagaço, uma substância pastosa que, até agora, exigia um descarte cuidadoso para evitar a contaminação dos solos e aquíferos.
A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) aplaudiu a decisão, considerando-a fundamental para a promoção da economia circular no setor.
As aplicações potenciais do bagaço de azeitona são vastas. Já se conhecem utilizações que vão desde a produção de óleo alimentar e fertilizantes orgânicos até à sua integração em cosméticos, papel, embalagens e materiais de construção.
O projeto EtnoGreen, da Ingredient Odyssey, exemplifica esta nova abordagem, utilizando insetos para transformar o bagaço em adubo orgânico para os solos, óleos e proteínas destinados à alimentação animal. Segundo a empresa sediada em Santarém, o biofertilizante resultante melhora a retenção de água, aumentando a resistência à seca e combatendo pragas e doenças.
Em Ferreira do Alentejo, a Casa Alta aproveita o bagaço para produzir óleo para a indústria alimentar e biomassa para aquecimento e produção de energia elétrica. Estima-se que cerca de 80% da azeitona processada se transforme em bagaço, o que significa que a produção de um quilograma de azeite gera cinco quilogramas de bagaço.
Outro exemplo é o projeto EvoFIBER, desenvolvido por investigadores da Universidade do Algarve, que visa transformar o bagaço numa fibra alimentar, semelhante às farinhas de alfarroba e aveia.
Esta decisão governamental complementa a medida tomada em maio, quando o caroço da azeitona foi também classificado como subproduto. Tal como o bagaço, o caroço pode ser utilizado como biocombustível, substituto de plástico, recheio de almofadas, argamassas porosas e ração animal.
O Centro de Tecnologia e Inovação Português (PIEP), em Guimarães, desenvolve o projeto Olive Pit, que valoriza o caroço na produção de formas para sapatos. Os caroços, ricos em compostos bioativos, podem também ser processados em farinhas ou utilizados na produção de carvão ativado para a remoção de produtos farmacêuticos das águas residuais.
O Alentejo, responsável por cerca de 80% da produção nacional de azeite, poderá desempenhar um papel crucial na recuperação do bagaço de azeitona, transformando-o numa nova fonte de receita para a região. Portugal possui 360 mil hectares de olival, com capacidade de produção de até 200 mil toneladas de azeite, resultantes de 1,4 milhões de toneladas de azeitona, que geram 1,15 milhões de toneladas de bagaço.
Fonte: www.tempo.pt