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Banhos geotérmicos islandeses: uma tradição enraizada reconhecida pela UNESCO

Por Portugal 24 Horas

Na Islândia, a cultura dos banhos geotérmicos transcende o mero lazer, representando uma profunda fusão entre natureza, bem-estar e convívio social. Esta prática milenar, enraizada na identidade nacional, oferece um refúgio sereno num mundo cada vez mais agitado, demonstrando como hábitos simples podem enriquecer significativamente a qualidade de vida. Envolta em paisagens vulcânicas e vapor natural, a imersão nas águas quentes islandesas não é apenas um ritual diário, mas uma expressão cultural vibrante. Recentemente, a UNESCO reconheceu o seu valor inestimável, elevando a cultura das piscinas e banhos geotérmicos a Património Cultural Imaterial da Humanidade, um testemunho da sua relevância histórica, social e intrínseca para a comunidade.

A energia geotérmica e o quotidiano islandês

Uma dádiva da natureza vulcânica
A Islândia, estrategicamente posicionada sobre a dorsal meso-atlântica e um ponto quente vulcânico, é uma terra intrinsecamente ligada à energia geotérmica. Esta riqueza natural manifesta-se em inúmeras fontes termais que borbulham do solo, uma dádiva geológica que moldou profundamente o quotidiano e a cultura do país. A energia extraída destas profundezas não só aquece grande parte das habitações islandesas e gera eletricidade sustentável, mas é, crucialmente, a alma de centenas de piscinas e lagoas de água quente espalhadas por todo o território. Ao longo do tempo, estas águas tornaram-se parte integrante do estilo de vida islandês, oferecendo benefícios físicos e mentais inegáveis e funcionando, simultaneamente, como espaços vitais para o convívio social. Uma experiência típica de banho geotérmico envolve o notável contraste entre o clima frequentemente rigoroso do exterior e a água quente e reconfortante das piscinas, criando uma sensação única de relaxamento e introspeção. Em regiões montanhosas, como Kerlingarfjöll, por exemplo, os banhos são alimentados por águas naturalmente ricas em minerais, incluindo ferro, que lhes confere uma tonalidade característica e propriedades notavelmente calmantes para a pele, sendo valorizados tanto pelo relaxamento que proporcionam como pelos seus potenciais efeitos terapêuticos, tais como o alívio de irritações cutâneas e a melhoria da circulação sanguínea.

Da natureza selvagem às emblemáticas lagoas

As fontes naturais e os seus benefícios
Para além dos complexos mais conhecidos, a Islândia alberga uma miríade de fontes termais naturais em zonas remotas, muitas vezes integradas em paisagens de cortar a respiração. Estes locais, menos acessíveis, oferecem uma experiência mais autêntica e primordial, onde a interação com a natureza é total. As águas, enriquecidas por minerais vulcânicos, são procuradas não apenas pelo calor, mas pelas suas reconhecidas propriedades terapêuticas. Desde o alívio de dores musculares e articulares até à melhoria de certas condições dermatológicas, a sabedoria popular e, em muitos casos, a evidência científica, confirmam os benefícios destas imersões. A quietude destes locais, longe do bulício urbano, convida à meditação e à revitalização do corpo e da mente, cimentando a ideia de que a saúde e o bem-estar estão intrinsecamente ligados à harmonia com o ambiente natural.

A ascensão da Lagoa Azul e outros complexos
Entre as joias da coroa do termalismo islandês destaca-se a mundialmente famosa Lagoa Azul (Blue Lagoon). Este complexo, de águas azuis-leitosas ricas em sílica, surgiu de forma inesperada na paisagem. A sua origem deve-se à água excedente de uma central geotérmica próxima que, ao acumular-se num campo de lava, começou a formar a lagoa. Com o tempo, trabalhadores locais começaram a banhar-se ali, e alguns relataram notáveis melhorias em doenças de pele persistentes. Este fenómeno despertou o interesse científico e levou à criação de uma clínica especializada na década de 1990, consolidando a reputação da Lagoa Azul como um destino de eleição para a saúde e o bem-estar. Contudo, a Lagoa Azul não é a única formação deste género; existem outras “piscinas naturais” de águas com lama de sílica e tonalidades similares espalhadas pelo país, todas aquecidas por centrais geotérmicas, cada uma oferecendo uma variação única desta experiência terapêutica e visualmente impressionante.

Pilar da comunidade e da igualdade social

O papel das piscinas públicas como ágoras modernas
O verdadeiro significado da cultura do banho islandês transcende em muito os benefícios físicos. As piscinas públicas são consideradas autênticos espaços democráticos e inclusivos, onde as barreiras sociais se desvanecem. Nestes locais, pessoas de diferentes idades, origens e profissões encontram-se em pé de igualdade, partilhando o mesmo espaço e as mesmas águas. É comum observar famílias inteiras, grupos de amigos e até desconhecidos a conversar animadamente enquanto relaxam nas águas quentes, criando um ambiente de genuína camaradagem. Muitas vezes, os “hot tubs”, pequenas piscinas de água muito quente, funcionam quase como salas de debate informais, onde se discutem temas do dia-a-dia, notícias locais ou até questões políticas, revelando-se um microcosmo da sociedade islandesa. Estima-se que cerca de 79% dos adultos islandeses frequentem regularmente piscinas públicas, um dado que sublinha o papel central que estes espaços desempenham na vida social e na coesão comunitária do país.

Uma rede de convívio acessível e inclusiva
A vasta rede de piscinas e banhos geotérmicos é um testemunho do compromisso islandês com o bem-estar e a inclusão social. Existem mais de uma centena de piscinas espalhadas por todo o território nacional, desde as áreas urbanas até às vilas mais remotas. Muitas destas infraestruturas são mantidas pelas comunidades locais, garantindo a sua acessibilidade a preços relativamente baixos. Esta abordagem permite que o hábito de nadar e de frequentar banhos quentes seja uma prática universalmente acessível, reforçando os laços comunitários e promovendo um sentido de pertença. A facilidade de acesso e a atmosfera acolhedora transformam estas piscinas em verdadeiros pontos de encontro, onde as relações sociais são cultivadas e fortalecidas, contribuindo para uma sociedade mais unida e solidária.

Um legado cultural para gerações vindouras

Transmissão de valores e hábitos aquáticos
Esta rica rede de infraestruturas e a sua profunda integração na vida quotidiana asseguram que o hábito de nadar e de frequentar banhos quentes seja uma tradição transmitida de geração em geração. A relação dos islandeses com a água e com estes espaços térmicos começa desde cedo. As crianças são frequentemente levadas às piscinas ainda bebés, e aprender a nadar é uma parte integrante da educação escolar desde o início do século XX. Com o passar dos anos, estas experiências precoces ajudam a consolidar a piscina como um espaço familiar e social por excelência, onde diferentes gerações se encontram regularmente, partilhando momentos e fortalecendo laços. A cultura aquática islandesa é, portanto, um legado vivo, um conjunto de práticas e valores que são continuamente renovados e retransmitidos.

A união entre bem-estar, natureza e património
Outro aspeto crucial desta tradição é o contacto direto e ininterrupto com a natureza exuberante da Islândia. Muitos banhos geotérmicos encontram-se em paisagens impressionantes, rodeadas por campos de lava vulcânica, montanhas imponentes ou fumarolas a expelir vapor. Assim, o simples ato de mergulhar numa piscina quente pode transformar-se numa experiência quase meditativa, onde o silêncio e o vapor que se eleva da água contribuem para uma sensação profunda de tranquilidade e bem-estar. O recente reconhecimento pela UNESCO sublinha precisamente esta combinação única de natureza, saúde e comunidade. A organização considera que a cultura das piscinas islandesas promove não só o bem-estar físico e mental dos seus praticantes, mas também fortalece os laços sociais e o sentido de pertença entre os habitantes. Ao celebrar e proteger esta tradição ancestral, pretende-se igualmente incentivar a sua preservação e valorização para as gerações futuras, garantindo que este aspeto fundamental da identidade islandesa perdure.

Fonte: https://www.tempo.pt

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