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Branca Edmée Marques: a pioneira portuguesa da radioatividade e do ensino científico

Por Portugal 24 Horas

Branca Edmée Marques emerge como uma das figuras mais notáveis e visionárias no panorama da ciência portuguesa do século XX. Nascida em Lisboa, a 14 de abril de 1899, o seu percurso profissional e pessoal desafiou as convenções da época, abrindo caminho para o reconhecimento internacional em áreas científicas vanguardistas, nomeadamente na química nuclear e na radioatividade. Numa era em que a presença feminina em campos de investigação era uma exceção, Branca Edmée Marques não só se impôs pelo seu intelecto e dedicação, mas também pela sua capacidade de inovar e de influenciar gerações de cientistas. A sua trajetória, marcada pela colaboração com Marie Curie em Paris e pelo subsequente regresso a Portugal, onde modernizou o ensino e a investigação, consagra-a como um pilar incontornável na história da ciência nacional, cujo legado perdura até aos dias de hoje. Este artigo explora a profundidade do seu contributo e a relevância intemporal da sua obra.

O percurso inicial e a influência europeia

Os primeiros passos académicos e a vocação científica
A história de Branca Edmée Marques começa na capital portuguesa, num período de profundas transformações sociais e científicas. A sua decisão de enveredar pela engenharia química no Instituto Superior Técnico revelou, desde cedo, uma mente brilhante e uma inclinação invulgar para as ciências exatas, num meio predominantemente masculino. A sua curiosidade inata e o rigor analítico que demonstrava seriam os alicerces de uma carreira destinada a ultrapassar fronteiras. Naquele tempo, o acesso e a permanência de mulheres no ensino superior, especialmente em áreas científicas e tecnológicas, eram uma raridade, exigindo uma determinação e uma capacidade de superação notáveis. Branca Edmée Marques personificava esta resiliência, destacando-se entre os seus pares pela sua inteligência aguda e pela sua fome de conhecimento. Contudo, o verdadeiro ponto de inflexão na sua formação e na sua visão do futuro da ciência dar-se-ia fora de Portugal, em Paris, a efervescente capital da inovação científica do início do século XX. Esta mudança representou não apenas uma oportunidade académica, mas um salto qualitativo que a colocaria no epicentro das descobertas mais revolucionárias da sua era. O ambiente de vanguarda que se vivia nos laboratórios parisienses prometia moldar não só o seu percurso individual, mas também a sua capacidade de impactar o desenvolvimento científico no seu país natal.

A colaboração seminal com Marie Curie e a imersão na radioatividade
Foi em Paris, no prestigiado Instituto do Rádio, que Branca Edmée Marques teve a oportunidade ímpar de trabalhar diretamente com a lendária Marie Curie, uma das maiores cientistas de todos os tempos e a única pessoa a ser distinguida com dois Prémios Nobel em diferentes campos científicos. Esta colaboração não foi apenas uma aprendizagem; foi uma imersão profunda no estudo da radioatividade, um campo então emergente e de fronteira, que prometia revolucionar a compreensão da matéria e da energia. O Instituto do Rádio era um epicentro de inovação, atraindo os mais brilhantes talentos do mundo, e a presença de Branca Marques nesse ambiente demonstrava o seu potencial e a sua excelência. Sob a orientação direta de Marie Curie, e ao lado de outros nomes proeminentes da ciência da época, Branca Marques aprofundou os seus conhecimentos sobre os elementos radioativos e as suas propriedades, dedicando-se à investigação que a levou à sua tese de doutoramento. Concluiu o seu doutoramento em 1935, na Faculdade da Sorbonne, um marco que não só solidificou a sua posição como investigadora qualificada, mas também a colocou na vanguarda da investigação científica europeia. A experiência parisiense conferiu-lhe uma perspetiva e um domínio técnico que poucos cientistas portugueses possuíam à data, tornando-a uma especialista reconhecida num dos domínios mais desafiantes e promissores da ciência moderna. A influência de Marie Curie foi determinante, não apenas pelo saber transmitido, mas também pela inspiração e pelo modelo de perseverança num mundo científico dominado por homens, onde ambas se destacaram.

O regresso a Portugal e o legado na formação científica

A modernização do ensino e da investigação em Portugal
Após a sua formação de excelência em Paris, Branca Edmée Marques regressou a Portugal com uma missão clara: transpor o conhecimento e as metodologias de ponta adquiridas para o contexto nacional. Num período em que a investigação científica avançada em Portugal ainda carecia de desenvolvimento e reconhecimento internacional, o seu regresso foi um catalisador fundamental. Assumindo funções como professora no Instituto Superior Técnico, e mais tarde como a primeira professora catedrática de Química na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Branca Edmée Marques tornou-se uma figura central na formação de inúmeras gerações de engenheiros e cientistas. A sua visão ia além da mera transmissão de conhecimentos; ela foi responsável pela criação e desenvolvimento de laboratórios modernos e pela introdução de novas metodologias experimentais e didáticas no ensino da química e da radioquímica em Portugal. O seu empenho em modernizar a infraestrutura científica do país é um testemunho da sua dedicação e da sua capacidade de liderança, impulsionando Portugal para o panorama da ciência europeia. A sua investigação ativa, por sua vez, contribuiu significativamente para uma melhor compreensão dos processos radioativos, culminando na publicação de diversos trabalhos científicos em prestigiadas revistas internacionais, elevando o perfil da ciência portuguesa a nível global. A sua atuação foi decisiva para que as novas gerações de cientistas portugueses tivessem acesso a uma formação de qualidade comparável à europeia.

Desafios e o papel pioneiro no reconhecimento feminino na ciência
Apesar do seu brilhante percurso, Branca Edmée Marques não esteve isenta de desafios. Numa sociedade e numa academia dominadas por homens, a sua presença e ascensão foram excecionais e, por vezes, confrontadas com obstáculos inerentes às limitações impostas às mulheres na esfera pública e profissional. A sub-representação feminina na ciência no século XX era uma realidade global, e Portugal não era exceção. As dificuldades estruturais da ciência portuguesa da época, caracterizadas por recursos limitados e por uma menor projeção internacional, também dificultaram o reconhecimento pleno do seu trabalho e a implementação de algumas das suas visões mais ambiciosas para a investigação. Contudo, a sua determinação, rigor e paixão pela ciência permitiram-lhe superar estas barreiras. Mais do que uma investigadora, Branca Edmée Marques foi uma pedagoga empenhada, cuja atuação abriu caminho para outras mulheres no mundo científico, servindo como um modelo inspirador. A sua resiliência e a sua capacidade de se afirmar num contexto adverso serviram de exemplo, mostrando que o talento e o mérito não conhecem género. Em 1970, em coautoria com Maria Regina Sales Grade, publicou o trabalho “Poluição radioactiva nas águas naturais” na Revista da Sociedade Portuguesa de Química, demonstrando a sua preocupação com temáticas ambientais e a continuidade da sua produção científica até mais tarde na carreira, salientando a pertinência dos seus estudos.

Legado duradouro e a inspiração para o futuro

Branca Edmée Marques faleceu a 19 de julho de 1986, mas o seu legado transcende as suas descobertas científicas e a sua notável carreira académica. Ela representa um símbolo indelével de perseverança, excelência e inovação, especialmente num contexto que oferecia poucos incentivos para mulheres na ciência. A sua vida é um testemunho de como a dedicação ao conhecimento pode superar barreiras sociais e transformar realidades, pavimentando o caminho para uma maior inclusão e reconhecimento. Hoje, o seu nome está intrinsecamente ligado à afirmação da ciência portuguesa no cenário mundial e à luta pela igualdade de género no meio académico. As instituições que ajudou a fundar e a desenvolver, bem como as gerações de cientistas que formou e inspirou, são o reflexo vivo da sua influência. O seu contributo foi progressivamente valorizado ao longo das décadas, e o seu reconhecimento como uma das figuras mais importantes da ciência portuguesa no século XX é inquestionável. A sua figura não só nos recorda a importância de investir na educação e na investigação, mas também serve de farol para as novas gerações de mulheres e homens que aspiram a fazer a diferença no mundo da ciência, em Portugal e além-fronteiras. A memória de Branca Edmée Marques persiste como um exemplo de que o espírito humano, impulsionado pela curiosidade e pela dedicação, pode verdadeiramente moldar o futuro.

Fonte: https://www.tempo.pt

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