Cabos da Apple amarelos: causas, riscos e o que fazer

Nuno Miguel Oliveira

O amarelecimento progressivo dos cabos de carregamento da Apple é um fenómeno tão comum quanto intrigante, longe de ser um mero acaso ou sinal de falta de cuidado. Utilizadores de produtos da marca há vários anos, especialmente aqueles que dependem de cabos Lightning ou de modelos USB mais antigos, já se depararam com esta alteração cromática. Esta descoloração, que se manifesta frequentemente num tom amarelado ou acastanhado, não é apenas uma questão estética, mas pode ser um indicador de desgaste e potenciais riscos. Compreender os fatores por trás deste envelhecimento prematuro é crucial para salvaguardar a funcionalidade dos dispositivos e a segurança do utilizador. Este guia explora as causas, os perigos e as melhores práticas para lidar com cabos que começam a exibir sinais de amarelecimento.

O enigmático amarelecimento dos cabos Apple

Uma constatação comum entre os utilizadores

O problema dos cabos da Apple que adquirem uma tonalidade amarelada é amplamente documentado e discutido em fóruns de tecnologia e comunidades de utilizadores. Não se trata de incidentes isolados, mas sim de uma experiência partilhada por uma vasta percentagem de proprietários de iPhone, iPad e outros dispositivos da Apple. Esta descoloração é particularmente notória em cabos Lightning, que acompanham os iPhones há várias gerações, mas também pode ser observada em cabos USB-A mais antigos ou mesmo nos novos cabos USB-C que vieram substituir os modelos anteriores. A sua prevalência sugere que há fatores intrínsecos ao design ou aos materiais que contribuem para este fenómeno. É uma questão que vai além do manuseamento individual, refletindo uma vulnerabilidade que a própria empresa reconhece implicitamente através da sua documentação de suporte.

O calor como catalisador principal da degradação

O principal culpado por trás do amarelecimento dos cabos da Apple é, inegavelmente, o calor. Durante o processo de carregamento, especialmente em sessões prolongadas ou ao utilizar carregamento rápido, o cabo, e mais especificamente o seu revestimento isolante, aquece. Este aquecimento contínuo e repetitivo provoca a degradação dos materiais poliméricos que compõem o isolamento exterior do cabo. Os polímeros, como a borracha termoplástica utilizada pela Apple, são suscetíveis à oxidação e a alterações químicas quando expostos a temperaturas elevadas de forma recorrente.

Essa degradação manifesta-se visualmente na forma de um tom amarelado ou acastanhado, concentrando-se frequentemente nas zonas mais críticas: as extremidades, junto aos conectores. Estas áreas são as mais vulneráveis devido à maior concentração de tensão mecânica e, por vezes, a uma dissipação de calor menos eficiente. A própria Apple tem documentação de suporte que aborda a questão do aquecimento dos cabos, indicando que este é um fenómeno reconhecido e esperado até certo ponto, mas que, em excesso, pode acelerar o desgaste. A exposição prolongada a ambientes quentes, como deixar o telefone a carregar sob luz solar direta ou em veículos fechados no verão, apenas exacerba este processo, acelerando a deterioração dos materiais.

Mais do que uma questão estética: Os riscos associados

Sinais de desgaste interno e compromisso estrutural

Um cabo amarelado não é apenas um problema visual; é, frequentemente, um sinal de um problema mais profundo. A descoloração é a manifestação externa de uma degradação interna dos materiais isolantes. Quando o revestimento exterior começa a amarelar e a ficar quebradiço, indica que a integridade estrutural do cabo está comprometida. Este desgaste interno é a razão pela qual muitos cabos da Apple, especialmente os mais antigos, começavam a desfazer-se na ligação entre o cabo e a ficha. O isolamento, que é vital para proteger os fios condutores internos e para a segurança elétrica, perde a sua elasticidade e resistência.

Com o tempo, esta degradação pode levar a microfissuras e à exposição dos condutores, o que aumenta o risco de mau contacto ou de interrupções no fluxo de energia. A capacidade do cabo para isolar a corrente elétrica diminui, tornando-o menos eficiente e potencialmente perigoso. Ignorar estes sinais de desgaste pode resultar não só em carregamentos lentos ou falhas intermitentes, mas também em cenários mais graves.

Implicações na segurança e desempenho do dispositivo

As consequências de usar um cabo degradado vão muito além de um carregamento mais lento. Um isolamento comprometido pode levar a sobreaquecimento do cabo e, em casos extremos, à possibilidade de curtos-circuitos. Embora raras, as situações de risco de segurança, como incêndio ou choque elétrico, não podem ser totalmente descartadas quando a integridade do cabo está seriamente comprometida. A exposição dos fios internos, além de perigosa, pode levar à corrosão ou a danos nos próprios dispositivos conectados, quer seja o telemóvel, o tablet ou o computador.

Adicionalmente, um cabo que apresenta degradação interna pode não conseguir fornecer a potência de carregamento adequada, resultando em tempos de carga significativamente mais longos ou na impossibilidade de carregar completamente o dispositivo. A transmissão de dados também pode ser afetada, com interrupções ou velocidades reduzidas. Por todas estas razões, a substituição de um cabo que já exibe sinais claros e avançados de amarelecimento ou desgaste não é uma mera recomendação, mas uma medida prudente para garantir a segurança do utilizador e a longevidade dos seus equipamentos. O custo de um cabo novo é ínfimo comparado aos potenciais danos ou riscos de segurança associados a um cabo defeituoso.

Fatores externos e a evolução dos materiais

O impacto invisível das mãos e do ambiente

Para além do calor gerado durante o carregamento, existem outros fatores externos que contribuem significativamente para o amarelecimento e desgaste dos cabos. Os óleos naturais presentes na pele humana são um dos principais. O uso diário e o manuseamento constante dos cabos para conectar e desconectar dispositivos, especialmente quando se manipula o telefone enquanto carrega, transferem gordura, suor e sujidade para a superfície do material exterior. Com o tempo, estas substâncias interagem quimicamente com o revestimento do cabo, alterando a sua composição e, consequentemente, a sua cor original. Mesmo que o cabo continue a funcionar, a acumulação de resíduos pode acelerar a degradação estética e material.

A exposição a agentes ambientais também desempenha um papel crucial. A luz solar direta e a radiação ultravioleta (UV) são particularmente prejudiciais. Deixar cabos perto de janelas, em parapeitos, ou dentro do carro, onde são expostos continuamente aos raios UV, acelera o processo de oxidação e amarelamento. Os raios UV quebram as ligações químicas nos polímeros, causando descoloração e tornando o material mais frágil. Produtos de limpeza agressivos, cosméticos, loções ou até mesmo a humidade podem também contribuir para a deterioração do material exterior, corroendo o revestimento e expondo-o ainda mais aos elementos degradantes.

A escolha de materiais: Flexibilidade versus durabilidade

A Apple tem uma história de escolhas de materiais que visam otimizar a estética e a experiência do utilizador. Desde 2007, a empresa afastou-se do uso de PVC (policloreto de vinila) nos revestimentos dos seus cabos, optando por materiais como a borracha termoplástica (TPE) ou outros polímeros mais flexíveis e com um toque mais suave. Embora esta mudança tenha melhorado significativamente a sensação e a maleabilidade dos cabos, tornando-os mais agradáveis ao toque e menos propensos a enrolar-se, também os tornou, em alguns aspetos, mais suscetíveis ao desgaste com o tempo e à degradação por calor e elementos externos.

O PVC, embora menos flexível, é geralmente mais resistente à abrasão e à degradação UV. Os materiais mais maleáveis, por outro lado, são concebidos para serem mais flexíveis e leves, mas podem ter uma menor resistência a ciclos de aquecimento e arrefecimento, bem como à exposição química e à luz UV. As gerações mais recentes de cabos, especialmente com a transição para o USB-C, têm vindo a beneficiar de melhorias nos materiais e no design, visando uma maior durabilidade. Contudo, os cabos mais antigos, projetados com a tecnologia e os materiais da época, dificilmente escapam a este problema generalizado de amarelecimento e desgaste, evidenciando um compromisso entre a estética, a flexibilidade e a durabilidade a longo prazo.

Quando e como proceder à substituição

Avaliar a garantia e as opções de suporte

Perante um cabo da Apple que começa a amarelar ou a mostrar sinais de desgaste, a primeira questão que surge é se vale a pena substituí-lo e como. Se o cabo ainda estiver dentro do período de garantia, que normalmente é de dois anos na Europa para defeitos de fabrico, existem relatos de utilizadores que conseguiram a substituição gratuita por parte da Apple. No entanto, é importante notar que a garantia cobre defeitos de material ou de fabrico, e a degradação natural resultante do uso e do tempo pode não ser sempre considerada um defeito coberto. A decisão de substituir ao abrigo da garantia é, muitas vezes, avaliada caso a caso, e é menos provável que se aplique a cabos muito antigos ou que apresentem danos físicos óbvios resultantes de mau uso.

Para acionar a garantia, o ideal é contactar o suporte técnico da Apple ou dirigir-se a uma Apple Store ou a um centro de assistência autorizado. Será realizada uma avaliação do cabo para determinar se o problema se enquadra nos termos da garantia. Fora do período de garantia, a opção passa pela compra de um novo cabo.

A procura por alternativas fiáveis no mercado

Quando a substituição ao abrigo da garantia não é uma opção, os utilizadores têm essencialmente duas vias: adquirir um cabo oficial da Apple ou procurar alternativas no mercado. Infelizmente, os cabos oficiais da Apple, embora de elevada qualidade e compatibilidade garantida, são frequentemente mais caros do que as opções de terceiros.

A chave para escolher uma alternativa fiável é a certificação. Para cabos Lightning, procure a certificação MFi (Made For iPhone/iPad/iPod), que garante que o cabo foi testado e aprovado pela Apple para cumprir os seus padrões de desempenho e segurança. Para cabos USB-C, procure marcas reputadas que cumpram as especificações USB-IF (USB Implementers Forum). Evitar cabos genéricos sem certificação ou de origem desconhecida é crucial, pois podem não só ter uma durabilidade questionável, como também podem danificar o seu dispositivo ou representar riscos de segurança. Marcas como Anker, Belkin, Ugreen, entre outras, oferecem cabos de qualidade comprovada que podem ser mais resistentes e, por vezes, mais acessíveis do que os cabos oficiais da Apple. Ao investir num cabo de qualidade, mesmo que não seja o original, está a proteger o seu dispositivo e a sua segurança a longo prazo.

O amarelecimento dos cabos da Apple é um fenómeno generalizado, impulsionado por uma combinação de fatores como o calor do carregamento, a exposição ambiental e as características dos materiais. Mais do que um mero problema estético, esta descoloração pode ser um indicador de desgaste interno e de potenciais riscos para a segurança e o desempenho dos dispositivos. A vigilância e a substituição atempada são essenciais. Optar por cabos certificados, sejam eles oficiais ou de terceiros de confiança, é a melhor forma de garantir a durabilidade e a segurança dos seus equipamentos Apple.

Fonte: https://www.leak.pt

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