Carla da Silva: luso-venezuelana libertada após condenação na Venezuela

© Luis Boza/NurPhoto via Getty Images

A luso-venezuelana Carla da Silva, cujo caso de detenção e condenação gerou grande preocupação internacional, foi finalmente libertada este domingo, marcando o desfecho de um período conturbado de mais de quatro anos na Venezuela. Condenada a 21 anos de prisão por alegada conspiração contra o governo, a sua libertação foi confirmada, trazendo um alívio há muito aguardado pela sua família. Detida em 2020 sob acusações graves como traição, rebelião e financiamento de terrorismo, relacionadas com a falhada Operação Gedeón, Carla da Silva tornou-se um símbolo das tensões políticas e dos desafios judiciais no país sul-americano. A sua mãe, Miriam Marrero, sempre defendeu que a filha era uma presa política, uma visão partilhada por várias organizações não-governamentais que monitorizam a situação dos direitos humanos na Venezuela e que apelavam à sua libertação há muito tempo.

O longo caminho para a liberdade

A saga de Carla da Silva, que culminou na sua libertação este domingo, teve início de forma inesperada e dramática em maio de 2020. A luso-venezuelana, até então desconhecida do grande público, viu a sua vida virada do avesso após ser detida durante uma festa infantil. Os pormenores da sua captura foram particularmente alarmantes, uma vez que os seus familiares só conseguiram apurar o seu paradeiro dias, e posteriormente semanas, após a sua detenção. Este silêncio inicial por parte das autoridades gerou angústia e incerteza, com a sua mãe, Miriam Marrero, a expressar publicamente a sua convicção de que a filha era “uma presa política, uma sequestrada pelo regime” venezuelano. A detenção ocorreu após Carla ter alegadamente conhecido uma mulher que, dois dias antes, teria participado na controversa Operação Gedeón. Levada por funcionários do Serviço Bolivariano de Inteligência (SEBIN), Carla foi inicialmente para La Quebradita, a oeste de Caracas, onde foi interrogada e impedida de regressar a casa, com a família a descobrir o seu paradeiro apenas 20 dias depois.

A detenção e as acusações

Carla da Silva foi uma das 29 pessoas, entre militares e civis, que foram condenadas por um tribunal de Caracas em 23 de maio de 2024. A audiência que levou à sentença prolongou-se por mais de 15 horas, um período extenuante que resultou em duras penalizações para os acusados. As acusações eram de natureza grave e abrangiam crimes como traição à pátria, conspiração, rebelião, tráfico de armas de guerra, associação para cometer crimes e financiamento de terrorismo. Estas imputações refletem a seriedade com que o governo venezuelano tratou o alegado envolvimento dos indivíduos na tentativa de derrubar o poder estabelecido. Vinte dos acusados foram condenados à pena máxima de 30 anos de prisão, enquanto outros nove, entre os quais Carla da Silva, receberam uma pena de 21 anos.

A condenação e a Operação Gedeón

A principal base para as condenações foi a alegada participação dos acusados, em 3 de maio de 2020, na Operação Gedeón, também conhecida popularmente como “Macutazo”. Esta operação revelou-se uma incursão marítima falhada, orquestrada por ex-militares venezuelanos no exílio. O objetivo ambicioso era infiltrar-se no país e treinar venezuelanos para destituir o governo do presidente Nicolás Maduro. Contou ainda com o apoio de um antigo membro das forças especiais dos Estados Unidos. A Operação Gedeón terminou em fracasso e tragédia, resultando na morte de seis dissidentes e na captura de muitos outros envolvidos ou alegadamente relacionados. O caso de Carla da Silva tornou-se emblemático, não só pela duração da sua pena, mas também pelas circunstâncias da sua detenção e pela veemente defesa da sua inocência por parte da família e de organizações de direitos humanos, que a consideravam uma vítima de perseguição política.

A luta por justiça e o contexto político

O caso de Carla da Silva não é isolado e insere-se num contexto mais amplo de tensão política e de preocupações com os direitos humanos na Venezuela. A luta pela sua libertação mobilizou organizações não-governamentais (ONG) e chamou a atenção para a situação de outros detidos que, segundo ativistas, são considerados presos políticos. A intervenção de entidades externas e a pressão internacional foram cruciais para manter a visibilidade do seu caso e para advogar pela sua causa, destacando as deficiências no sistema judicial e a natureza arbitrária de algumas detenções no país.

O papel das organizações humanitárias

Desde os primeiros momentos da detenção de Carla da Silva, várias organizações humanitárias venezuelanas assumiram um papel ativo na defesa da luso-venezuelana. Em outubro de 2023, a ONG Foro Penal (FP) foi uma das vozes mais proeminentes a pedir publicamente às autoridades venezuelanas a libertação de Carla, que na altura se encontrava em prisão preventiva há mais de três anos. Alfredo Romero, diretor do Foro Penal, sublinhou que Carla da Silva era “uma das presas políticas na Venezuela” e que a sua detenção era arbitrária, tendo ocorrido a 5 de maio de 2020. Explicou que, de acordo com a legislação venezuelana, ninguém deveria estar privado de liberdade preventivamente por mais de três anos. Carla esteve detida em El Helicoide, uma prisão em Caracas com notoriedade por alojar vários presos políticos. Romero chegou a divulgar um vídeo na internet, informando que a luso-venezuelana estava sob a custódia do Serviço Bolivariano de Inteligência (SEBIN), os serviços de informações do regime de Caracas, reforçando a natureza política da sua situação.

O cenário das libertações na Venezuela

A libertação de Carla da Silva insere-se num movimento mais abrangente de solturas de detidos políticos na Venezuela. Horas antes do anúncio oficial da libertação da luso-venezuelana, o Foro Penal revelou, através da rede X, que pelo menos 80 presos políticos tinham sido libertados no país. Este número contrasta com os dados apresentados pelo governo venezuelano. A vice-presidente Delcy Rodríguez havia afirmado que 626 pessoas foram libertadas desde dezembro, prometendo um “número significativo” de libertações. No entanto, o balanço governamental não corresponde integralmente aos relatórios das ONG, que, como o Foro Penal, contabilizam aproximadamente metade desse número para o mesmo período. A Plataforma Democrática Unitária (PUD), que representa a maioria da oposição venezuelana, instou o governo a publicar uma “lista detalhada” dos presos políticos libertados nas últimas semanas, exigindo transparência e verificabilidade das informações. A discrepância nos números e a falta de uma lista oficial detalhada mantêm a incerteza e a necessidade de uma monitorização contínua da situação dos direitos humanos no país.

A libertação de Carla da Silva e os desafios da Venezuela

A libertação de Carla da Silva representa um raio de esperança para as famílias de outros detidos na Venezuela e um reconhecimento, ainda que implícito, das preocupações internacionais sobre os direitos humanos no país. Contudo, o seu caso sublinha a complexidade e a delicadeza do sistema judicial venezuelano, especialmente quando entrelaçado com questões políticas. Enquanto o governo fala em centenas de libertações, as organizações não-governamentais continuam a monitorizar de perto a situação, apelando à transparência e à libertação de todos aqueles que consideram injustamente detidos. A jornada de Carla da Silva, de uma festa infantil a uma prisão de alta segurança e, finalmente, à liberdade, permanece um testemunho da volátil realidade política na Venezuela e da incessante luta pelos direitos humanos e pela justiça.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Quem é Carla da Silva?
Carla da Silva é uma cidadã luso-venezuelana que foi detida em maio de 2020 na Venezuela e condenada a 21 anos de prisão sob acusações de traição e conspiração, alegadamente relacionadas com a Operação Gedeón. Foi libertada em maio de 2024.

2. Qual foi o motivo da sua condenação?
Carla da Silva foi condenada, juntamente com outras 28 pessoas, por acusações como traição, conspiração, rebelião, tráfico de armas de guerra, associação para cometer crimes e financiamento de terrorismo. Estas acusações estavam ligadas à sua alegada participação na Operação Gedeón, uma tentativa falhada de incursão marítima para derrubar o governo venezuelano.

3. O que foi a Operação Gedeón?
A Operação Gedeón, também conhecida como “Macutazo”, foi uma incursão marítima falhada que ocorreu em 3 de maio de 2020. Envolveu ex-militares venezuelanos no exílio, com apoio de um antigo membro das forças especiais dos EUA, com o objetivo de infiltrar-se na Venezuela e treinar cidadãos para derrubar o governo de Nicolás Maduro. A operação resultou em mortes e detenções.

4. Quanto tempo esteve Carla da Silva detida?
Carla da Silva esteve detida durante mais de quatro anos, desde maio de 2020 até à sua libertação em maio de 2024. Grande parte desse período foi cumprido em prisão preventiva, o que levou a apelos por parte de organizações humanitárias que defendiam a sua libertação com base na legislação venezuelana.

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Fonte: https://www.noticiasaominuto.com

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