Portugal tem vindo a destacar-se como um país de notável longevidade, com um número crescente de centenários a celebrar marcos de vida que inspiram e emocionam. Recentemente, dois destes momentos singulares captaram a atenção nacional, sublinhando a importância de honrar a sabedoria e a perseverança dos mais velhos. Em Barcelos, António Felgueiras, um homem de Lijó, assinalou os seus 104 anos com uma festa vibrante e a presença de um conhecido cantor. Simultaneamente, em Coimbra, Maria Helena alcançou os 103 anos, num cenário de adversidade, mas com uma homenagem digna de nota, que contou com a participação das mais altas figuras do Estado. Estas histórias de vida longa e rica são um testemunho da capacidade humana de adaptação e da beleza de celebrar cada etapa.
Uma vida longa e dedicada em Barcelos
Os 104 anos de António Felgueiras
A localidade de Alheira, em Barcelos, foi palco de uma celebração calorosa e memorável na passada sexta-feira, dia 13 de fevereiro, assinalando o 104.º aniversário de António Felgueiras. Natural de Lijó, este centenário foi o protagonista de uma festa de aniversário organizada com carinho no Lar da ACRA – Associação Social, Cultural e Recreativa de Alheira, a instituição que o acolhe nos últimos anos. A alegria e o espírito festivo foram amplificados pela presença do popular cantor Zé Amaro, que não só marcou presença, como também ofereceu uma atuação que encantou todos os presentes. “Nesta data querida, agradecemos a gentileza, o carinho, a simpatia do Sr. Zé Amaro para com os nossos utentes, em especial o Sr. António Felgueiras”, expressou a direção do Lar da ACRA nas suas plataformas sociais, realçando o gesto do artista de Guimarães. Para além do concerto, a celebração foi enriquecida por uma solene Eucaristia e por uma animada atuação do Grupo Tá Barato, garantindo um dia pleno de emoção e partilha para António e todos os seus convidados.
Percurso de vida e segredos da longevidade
A vida de António Felgueiras é um livro aberto de experiências e superações. Nascido em Lijó, este homem de espírito vibrante construiu uma família sólida, tendo casado por volta dos 25 anos. Desta união nasceram sete filhos, aos quais se seguiram dez netos e oito bisnetos, um legado familiar que reflete a riqueza da sua existência. Após ter enviuvado, António viveu sozinho durante um período considerável, optando por mudar-se para o Lar da ACRA há cerca de dois anos, onde tem encontrado um ambiente de apoio e camaradagem. O seu percurso profissional é tão diversificado quanto a sua família numerosa. António trabalhou em “vários serviços”, demonstrando uma notável capacidade de adaptação e resiliência. Iniciou a sua carreira na indústria têxtil, uma atividade comum na região, e dedicou-se também ao trabalho no campo. Mais tarde, abraçou a profissão de camionista, uma ocupação que o levou a percorrer “o país inteiro”, proporcionando-lhe certamente uma vasta perspetiva sobre Portugal e os seus habitantes. Ao longo da sua vida, António cultivou paixões como a caça, que pratica “desde rapazito”, e assume-se como um “bom garfo”, apreciando a boa comida. Quando questionado sobre o segredo da sua longevidade, António Felgueiras oferece uma resposta de notável simplicidade e profundidade: “Como , como. É o que vier. Não tenho segredos. Não fazer mal a ninguém, ser amigo, e mais nada”, revelando uma filosofia de vida assente na bondade, na amizade e na aceitação serena do que a vida oferece. Esta perspetiva, desprovida de complicações, poderá ser, de facto, um dos pilares da sua notável longevidade.
Celebrar a vida em Coimbra, apesar da adversidade
A festa de 103 anos de Maria Helena
Numa viragem para outra região do país, mas com o mesmo espírito de celebração da longevidade, a cidade de Coimbra foi palco de um evento igualmente comovente. No meio da calamidade que se vivia na cidade, com as inundações a provocar perturbações significativas e a exigir a evacuação de lares de idosos, Maria Helena, utente de um destes lares, celebrou o seu 103.º aniversário. A autarquia de Coimbra, ciente da importância de não deixar que este dia especial passasse em branco, mesmo perante as dificuldades, preparou uma surpresa inesquecível para a idosa. O ponto alto da celebração foi a presença e a voz das mais altas figuras do Estado português. Maria Helena teve a honra de ver o primeiro-ministro e o presidente da República a cantar-lhe os parabéns, num gesto que transcendeu a celebração de um aniversário e se tornou um símbolo de solidariedade e de atenção aos mais vulneráveis em tempos de crise. Este momento, registado em vídeo e partilhado, ilustra a capacidade de encontrar luz e esperança mesmo nas circunstâncias mais desafiadoras, e a importância de reconhecer a dignidade e a alegria de viver em todas as idades.
A mensagem da longevidade e solidariedade
As histórias de António Felgueiras e Maria Helena, embora distintas nas suas circunstâncias, convergem na poderosa mensagem que transmitem: a celebração da vida e a resiliência do espírito humano. Estes eventos não são apenas sobre o assinalar de mais um ano; são tributos à força e à sabedoria acumuladas ao longo de mais de um século. Em Barcelos, a comunidade do lar e o artista Zé Amaro demonstraram o valor do carinho e da atenção para com os idosos, proporcionando momentos de pura alegria. Em Coimbra, o gesto da autarquia e, em particular, a presença dos mais altos dignatários da nação, realçaram a importância de valorizar e proteger os nossos idosos, especialmente em momentos de fragilidade social ou ambiental. Ambas as narrativas sublinham o papel fundamental das instituições e das comunidades na promoção do bem-estar e da dignidade dos centenários. A longevidade, como a vida de António e Maria Helena exemplificam, é muitas vezes acompanhada de uma perspetiva singular sobre a existência, caracterizada pela simplicidade, pela amizade e pela capacidade de aceitar os desafios com serenidade. Estes centenários são, para a sociedade portuguesa, faróis de experiência e exemplos vivos de que a idade avançada pode ser sinónimo de plenitude e de contributos valiosos.
Reflexões sobre a vida e o tempo
As comemorações dos 104 anos de António Felgueiras em Barcelos e dos 103 anos de Maria Helena em Coimbra oferecem um vislumbre inspirador da longevidade em Portugal. Mais do que meros números, estes aniversários representam histórias ricas em vivências, desafios superados e sabedoria acumulada. Desde a vida de trabalho árduo e viagens de António, à resiliência de Maria Helena em face de uma calamidade, ambos os centenários personificam a força do espírito humano. As suas celebrações, enriquecidas pelo carinho de comunidades, familiares e até mesmo de figuras políticas de topo, reforçam a importância de valorizar cada vida e de reconhecer o legado deixado pelos nossos mais velhos. Em suma, estas narrativas são um lembrete eloquente de que a vida, em todas as suas fases, merece ser celebrada com alegria, amizade e dignidade, provando que a longevidade é um presente que continua a brindar-nos com lições preciosas sobre a arte de bem viver.