A investigação da consciência humana representa um dos maiores desafios da neurociência, exigindo métodos que permitam explorar as profundezas do cérebro de forma segura e eficaz. Tradicionalmente, os estudos têm-se focado em observar correlações entre a atividade cerebral e as experiências conscientes, sem, contudo, conseguir estabelecer relações de causa e efeito diretas. Agora, uma equipa de investigadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) acredita ter encontrado uma abordagem revolucionária. Através da aplicação de ultrassom focado transcraniano, estes cientistas propõem uma nova forma de explorar como o tecido físico cerebral se transforma em pensamentos, sentimentos e, finalmente, na própria consciência. Esta ferramenta promete ser mais profunda e menos invasiva, abrindo caminho para testes que antes eram considerados impossíveis, marcando um avanço significativo no entendimento deste fenómeno complexo.
Uma ferramenta inovadora para a neurociência
A busca por compreender os recônditos da mente humana tem sido historicamente limitada pelas restrições de segurança e pela dificuldade em aceder a certas estruturas cerebrais. Contudo, a equipa do MIT apresenta o ultrassom focado transcraniano (tFUS) como uma ponte para superar estas barreiras. Esta tecnologia, embora não seja inteiramente nova no campo da medicina, está agora a ser reavaliada e otimizada para a investigação neurocientífica, prometendo um nível de penetração e precisão que a distingue das metodologias existentes.
Alcance e precisão sem precedentes
Ao contrário de outras técnicas de estimulação cerebral não invasivas, como a estimulação magnética transcraniana (TMS) ou a estimulação elétrica transcraniana (TES), o ultrassom focado destaca-se pela sua capacidade de atingir áreas mais profundas do cérebro com uma exatidão notável, e tudo isso sem a necessidade de intervenção cirúrgica. Daniel Freeman, um dos principais investigadores envolvidos no estudo, sublinhou em declarações recentes que o tFUS “permitirá estimular diferentes partes do cérebro em indivíduos saudáveis, de formas que antes eram impossíveis”. Esta capacidade é crucial para aprofundar o entendimento sobre as funções das regiões subcorticais, muitas vezes implicadas em processos cognitivos e emocionais complexos, mas de difícil acesso para manipulação experimental. A precisão do tFUS significa que os cientistas podem direcionar ondas ultrassónicas para pontos específicos, ativando ou inibindo temporariamente a atividade neuronal nessa área e observando as consequências diretas na perceção ou comportamento. Este controlo granular abre um leque de possibilidades para mapear com maior rigor as intrincadas redes neurais que sustentam a nossa experiência consciente do mundo.
Desvendando os mecanismos da consciência
Até agora, grande parte da investigação sobre a consciência tem-se apoiado em estudos correlacionais, onde se observa a atividade cerebral durante determinadas tarefas e se procuram padrões que coincidam com a experiência consciente reportada pelos participantes. Embora estes métodos tenham sido valiosos para identificar regiões envolvidas em diversas funções, eles falham em estabelecer uma relação de causa e efeito clara. A grande questão permanece: como é que o simples tecido biológico do cérebro gera a riqueza de pensamentos, sentimentos e a subjetividade da experiência consciente?
Além das correlações: causa e efeito
A abordagem proposta pelos cientistas do MIT, com o ultrassom focado transcraniano, representa uma mudança de paradigma. Em vez de apenas observar, o tFUS permite manipular ativamente a atividade cerebral em regiões específicas, oferecendo uma ferramenta para testar diretamente a relação de causa e efeito nos circuitos neurais. Matthias Michel, filósofo e coautor da investigação, enfatiza a raridade de métodos fiáveis para manipular a atividade cerebral de forma segura e eficaz. “Esta é uma ferramenta que não é útil apenas para a medicina ou mesmo para a ciência básica, mas também pode ajudar a abordar o difícil problema da consciência”, afirmou. Ele sugere que a tecnologia poderá investigar “onde, no cérebro, estão os circuitos neurais que geram a sensação de dor, a visão ou até mesmo algo tão complexo quanto o pensamento humano”.
A maioria dos estudos anteriores da consciência baseava-se, por exemplo, em tarefas visuais onde os participantes reportavam se tinham visto um estímulo ou não, enquanto a sua atividade cerebral era registada. O desafio residia em determinar se um determinado sinal cerebral era a causa da perceção consciente ou apenas um epifenómeno, um acompanhamento dessa experiência. Ao alterar proativamente a atividade em zonas específicas, o ultrassom focado pode, por exemplo, ajudar a responder questões fundamentais: a consciência depende principalmente do córtex frontal e de processos cognitivos de alto nível, ou estruturas mais localizadas, incluindo as mais profundas e subcorticais, podem gerar experiências específicas diretamente? Esta capacidade de intervenção direta oferece uma perspetiva sem precedentes para dissecar os componentes da consciência.
O potencial transformador da tecnologia
Embora a promessa do ultrassom focado seja imensa, os próprios investigadores sublinham que a tecnologia ainda se encontra nos seus estágios iniciais. Contudo, os próximos passos já estão a ser delineados com clareza, visando transpor a ponte entre a modulação da atividade neuronal e a experiência subjetiva.
Perspetivas futuras na investigação cerebral
A equipa de Daniel Freeman planeia iniciar os seus próximos experimentos com o córtex visual, uma área bem compreendida em termos de processamento de informação. Posteriormente, pretendem avançar para regiões de nível superior, procurando estabelecer uma ligação direta entre a manipulação cerebral e a perceção real do indivíduo. Freeman clarifica esta distinção crucial: “Uma coisa é dizer se esses neurónios responderam eletricamente. Outra coisa é dizer se uma pessoa viu luz.” Esta diferenciação é fundamental para ir além da mera observação de sinais elétricos e para realmente compreender o impacto na experiência consciente.
Os investigadores não encaram o ultrassom focado como uma “chave mágica” para desvendar todos os mistérios da consciência de uma só vez, mas sim como uma ferramenta poderosa que irá catalisar a investigação. Matthias Michel reforça esta visão pragmática, afirmando: “É uma ferramenta nova, então não sabemos ao certo até que ponto ela irá funcionar. Mas acredito que o risco é baixo e o benefício é alto – porque não seguir este caminho?”. Se a tecnologia cumprir o seu potencial, poderá direcionar a área de estudo para experiências muito mais específicas e menos invasivas. Talvez o mais significativo seja a potencial redução da dependência de grandes e dispendiosos estudos de imagem cerebral, que consomem muitos recursos para cada questão de investigação. Ao oferecer uma abordagem mais direcionada e eficiente, o ultrassom focado transcraniano poderá acelerar significativamente o ritmo da descoberta no campo da neurociência da consciência, abrindo portas para uma compreensão mais profunda da mente humana.
Fonte: https://www.tempo.pt