Coentros do Alentejo: a investigação que preserva o património genético português

Meteored Portugal

A cozinha portuguesa não seria a mesma sem o toque singular dos coentros, uma erva aromática que confere alma a inúmeros pratos, desde as açordas alentejanas às tradicionais sopas de cação. Contrariamente a muitos países onde se valorizam as sementes, Portugal distingue-se pelo consumo generalizado da planta fresca, enraizada nas suas tradições gastronómicas. No entanto, este pilar da nossa culinária e da biodiversidade enfrenta um desafio: a dependência de sementes importadas e o risco de perda das variedades autóctones. É neste contexto que o Instituto Politécnico de Portalegre se assume como bastião, com duas investigadoras dedicadas a um projeto crucial de melhoramento genético. O objetivo primordial é salvaguardar a autenticidade das sementes nativas, revitalizando os ecossistemas e assegurando o futuro desta planta emblemática.

O aroma incontornável da gastronomia portuguesa

Os coentros (Coriandrum sativum) representam mais do que um mero tempero na mesa portuguesa; são um elemento distintivo da identidade culinária nacional, especialmente na região do Alentejo. A sua presença é indelével em iguarias como a carne de porco à alentejana ou em pratos de peixe, conferindo-lhes um frescor e um aroma inconfundíveis. Esta erva aromática, utilizada na gastronomia dos povos ibéricos desde a Antiguidade, é uma fonte rica de vitaminas, minerais e antioxidantes, reconhecida pelas suas propriedades digestivas, anti-inflamatórias, antibacterianas e diuréticas. Em Portugal, a tradição de consumir a folha fresca destaca-nos globalmente, sublinhando a sua profunda integração nos hábitos alimentares e culturais.

Mais do que um tempero: propriedades e história

Além do seu valor gastronómico, os coentros possuem um legado histórico e medicinal vastíssimo. Desde os tempos mais remotos, esta planta tem sido apreciada não só pelo seu sabor característico, mas também pelas suas virtudes terapêuticas. A medicina popular e a etnobotânica reconhecem-lhe um papel relevante no bem-estar, sendo um aliado natural para diversas condições. A sua utilização continuada ao longo dos séculos atesta a percepção das suas qualidades, solidificando o seu estatuto como uma das ervas aromáticas mais versáteis e valorizadas, um verdadeiro tesouro verde presente nos nossos jardins e cozinhas.

Um património genético em risco

Apesar da sua centralidade na culinária e cultura portuguesas, um paradoxo preocupante paira sobre os coentros: a maioria da produção nacional depende de grãos importados. Esta dependência coloca em risco a riqueza genética das variedades locais, que se encontram restritas a pequenas explorações rurais do Alentejo. Nestas comunidades, são as gerações mais velhas que, com os seus conhecimentos ancestrais, têm preservado as sementes autóctones. No entanto, o envelhecimento da população e a migração para os centros urbanos ameaçam seriamente a continuidade deste património genético, um recurso valioso que corre o risco de desaparecer se não forem tomadas medidas urgentes.

A ameaça das sementes importadas e o declínio dos saberes ancestrais

A crescente globalização do mercado agrícola tem impulsionado a utilização de sementes de coentros provenientes do estrangeiro, muitas vezes escolhidas pela sua maior produtividade ou resistência a pragas. Contudo, estas variedades não possuem a mesma adaptação às condições climáticas e edáficas (do solo) do Alentejo, nem o perfil aromático e de sabor das plantas locais. A par disto, a transmissão oral dos saberes ligados ao cultivo, colheita e utilização dos coentros nativos está em declínio. Cada vez menos agricultores tradicionais detêm e partilham esta sabedoria milenar, o que acelera a erosão genética e cultural, comprometendo a singularidade dos coentros portugueses para as futuras gerações.

A investigação do Politécnico de Portalegre: Resgate e valorização

Perante este cenário de risco, duas investigadoras do Instituto Politécnico de Portalegre, Noémia Farinha e Orlanda Póvoa, assumiram a missão de salvaguardar os coentros portugueses. Há mais de duas décadas e meia, a sua equipa tem-se dedicado, com paixão e rigor científico, à conservação dos recursos genéticos e ao melhoramento desta planta tão emblemática. O trabalho, reconhecido internacionalmente – tendo sido destaque na série documental “O Mundo das Aromáticas” do canal franco-alemão ARTE.TV – é uma prova do empenho em manter viva uma parte essencial do património natural e cultural de Portugal.

Duas décadas e meia dedicadas aos coentros do Alentejo

A jornada de Noémia Farinha e Orlanda Póvoa, conduzida na Escola Superior de Biociências de Elvas, iniciou-se há cerca de 25 anos. Durante este período, a equipa tem vindo a aprofundar o estudo das variedades tradicionais de coentros recolhidas junto de agricultores por toda a região do Alentejo. Este longo período de dedicação permitiu uma análise exaustiva e uma compreensão profunda das características genéticas e agronómicas destas plantas, constituindo uma base sólida para as etapas subsequentes de melhoramento e conservação.

Do campo ao laboratório: Melhoramento genético e conservação

O projeto envolveu um programa rigoroso de melhoramento, devidamente aprovado pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária. O foco não se limitou a potenciar a utilização culinária dos coentros, mas também a investigar as suas propriedades para promover a biodiversidade e a recuperação dos ecossistemas. Através de um meticuloso processo de aperfeiçoamento genético, foram selecionados e aprovados quatro tipos de sementes, inscritos no Catálogo Nacional de Variedades: Alcácer, Assunção, Campo Maior e Amareleja. Estas variedades representam o culminar de anos de trabalho, assegurando a preservação das características desejáveis e a sua adaptação às condições locais.

O Banco Português de Germoplasma Vegetal: Uma arca de Noé para as plantas

Após a seleção das variedades melhoradas, diversas amostras destas sementes foram enviadas para o Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV), localizado em Braga. Esta instituição, gerida pelo Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), funciona como uma verdadeira “Arca de Noé” botânica, abrigando mais de 40 mil plantas e sementes consideradas cruciais para a biodiversidade e a segurança alimentar do país. A inclusão das variedades de coentros alentejanos neste banco garante a sua conservação a longo prazo, protegendo-as de eventuais riscos de extinção e disponibilizando-as para futuras pesquisas ou para a sua reintrodução no cultivo.

Preservar o saber popular: Etnobotânica e o e-book “Coentros do Alentejo”

A primeira fase da investigação não se centrou apenas na genética; teve um forte pilar na etnobotânica. O contacto direto com os produtores tradicionais do Alentejo foi fundamental para a recolha de um vasto acervo de informação sobre os saberes associados ao cultivo e à utilização dos coentros na gastronomia, em usos medicinais e em outras aplicações etnobotânicas. Através de entrevistas informais com as populações mais idosas, realizadas ao final das tardes ou ao início das manhãs, foi possível documentar um valioso corpo de conhecimento. Este esforço culminou na publicação do e-book “Coentros do Alentejo”, uma obra que se tornou um testemunho escrito para a posteridade, consolidando receitas e tradições que de outra forma poderiam ter-se perdido.

Coentros: Aliados na ecologia e biodiversidade

Atualmente, o trabalho das investigadoras não pára. Embora a conservação e o melhoramento genético continuem a ser eixos importantes, os objetivos da pesquisa expandiram-se para a ecologia. A equipa do Politécnico de Portalegre está agora focada em desenvolver plantas com ciclos de vida mais curtos, capazes de produzir um maior número de sementes e flores. Esta linha de investigação procura otimizar a planta não apenas para o consumo humano, mas também para desempenhar um papel crucial na sustentabilidade ambiental.

Novos horizontes: Da culinária à atração de polinizadores

Os estudos mais recentes, que combinam trabalho laboratorial e de campo, visam identificar a combinação genética ideal dos coentros para a sua utilização em cobertos vegetais. O principal objetivo é torná-los mais eficazes na atração de polinizadores, como as abelhas, para as zonas de cultivo. Esta estratégia contribui diretamente para a recuperação e manutenção da biodiversidade local, fundamental para a saúde dos ecossistemas e para a própria agricultura. Ao expandir o papel dos coentros para além da mesa, de um saboroso tempero a um indispensável aliado ecológico, o Politécnico de Portalegre reafirma o seu compromisso com a inovação e a preservação do património natural português. Os coentros, desde sempre essenciais para a identidade gastronómica do Alentejo, revelam-se agora igualmente vitais na restauração da biodiversidade, um desígnio que beneficia toda a sociedade.

Fonte: https://www.tempo.pt

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