Declínio do lobo ibérico exige cooperação urgente entre Portugal e Espanha

Meteored Portugal

A viabilidade do lobo ibérico na Península Ibérica encontra-se crescentemente ameaçada, motivando um forte apelo à ação unificada por parte de especialistas. Um recente manifesto, subscrito por ambientalistas, investigadores e gestores de ambos os países, alerta para o preocupante declínio da população de lobo ibérico (Canis lupus signatus), que enfrenta desafios significativos tanto em Portugal como em Espanha. Este documento sublinha a urgência de uma cooperação transfronteiriça robusta e de medidas de proteção harmonizadas para assegurar a sobrevivência a longo prazo desta subespécie icónica. A concentração populacional, maioritariamente a norte do rio Douro, em Portugal, e no noroeste de Espanha, acentua a necessidade de uma gestão concertada que transcenda as fronteiras administrativas, promovendo uma abordagem integrada à sua conservação.

O preocupante recuo populacional do lobo ibérico

Indicadores de declínio em Portugal e Espanha
Os dados mais recentes revelam uma situação alarmante para a população de lobo ibérico. Em Portugal, o censo nacional de 2019-2021 apontou para uma redução de cerca de 20% na área de presença da espécie ao longo das últimas duas décadas. Este declínio é corroborado pela diminuição do número de alcateias registadas, que passaram de 63, no período de 2002-2003, para 58 no levantamento mais recente. A distribuição geográfica da espécie mantém-se predominantemente a norte do Rio Douro, sendo que a sul do país a sua presença é quase residual, com apenas cinco a seis indivíduos identificados. Esta fragmentação e a redução numérica sublinham a vulnerabilidade da espécie em território português, onde a sua sobrevivência a longo prazo está fortemente condicionada pela conectividade e vitalidade das populações remanescentes.

Do lado espanhol, o cenário não é menos preocupante. A espécie foi recentemente classificada como “vulnerável” na lista vermelha nacional, um estatuto que reflete a gravidade da sua situação. Estima-se que a população lupina adulta em Espanha seja atualmente inferior a mil indivíduos, distribuídos essencialmente no noroeste do país. Este número, por si só, é um indicador claro da pressão a que o lobo ibérico está sujeito, exigindo uma reavaliação das políticas de conservação e gestão. A vulnerabilidade não se prende apenas com o número absoluto de animais, mas também com a fragmentação dos habitats e as ameaças persistentes que comprometem a capacidade de recuperação e dispersão da espécie em ambos os lados da fronteira. A saúde de uma população selvagem depende intrinsecamente da sua diversidade genética e da capacidade de ocupação de territórios adequados, fatores que parecem estar em declínio.

Desafios na proteção legal e o impacto na conservação

Recuos legislativos em Espanha e as suas consequências
A proteção legal do lobo ibérico tem sido alvo de controvérsia e de alterações significativas, especialmente em Espanha. Em 2021, a espécie foi incluída na Lista de Espécies Silvestres em Regime de Proteção Especial, resultando na proibição da caça em todo o território espanhol. Esta medida foi amplamente saudada pelos defensores da conservação, representando um passo importante para a recuperação da espécie. No entanto, a sustentabilidade desta proteção foi questionada, e a proibição da caça, infelizmente, deverá ser revertida em 2025. Esta decisão, motivada em grande parte por preocupações relativas aos impactos económicos no setor da pecuária, tem sido duramente criticada pelos especialistas.

O manifesto dos peritos sublinha que esta reversão não teve em consideração o real estado de conservação da espécie nem as potenciais consequências negativas que uma redução do seu estatuto de proteção poderá acarretar. A remoção da proteção integral, sem uma análise aprofundada dos dados científicos e das tendências populacionais, pode minar anos de esforços de conservação e agravar o declínio já verificado. Atualmente, a única salvaguarda legal significativa para o lobo em Espanha reside na legislação regional aplicada em algumas comunidades autónomas, como a Galiza, Astúrias ou Cantábria. Esta abordagem fragmentada da proteção legal dificulta uma gestão coerente e eficaz ao nível peninsular, criando “ilhas” de segurança num contexto de vulnerabilidade geral. A falta de uniformidade nas políticas de proteção é, por conseguinte, um entrave significativo para a recuperação da espécie.

A imperiosa necessidade de uma estratégia ibérica conjunta

Cooperação transfronteiriça como pilar da conservação
Um dos maiores obstáculos à conservação do lobo ibérico é a notória falta de articulação entre Portugal e Espanha. Esta lacuna é, segundo os especialistas, um fator que pode comprometer seriamente a viabilidade futura da espécie. A realidade ecológica do lobo não conhece fronteiras administrativas; as alcateias movimentam-se livremente entre os dois países, tornando imperativa uma gestão harmonizada e coordenada. A cooperação transfronteiriça emerge, assim, como um pilar fundamental para qualquer estratégia de conservação bem-sucedida.

É vital que os dois países estabeleçam uma estratégia ibérica conjunta, que permita gerir a população de lobos como uma única unidade ecológica, e não como entidades fragmentadas. Esta abordagem integrada é essencial para garantir a conectividade genética entre as diferentes populações, facilitar a dispersão de indivíduos e otimizar os esforços de monitorização e proteção. Adicionalmente, o manifesto realça a importância de Portugal manter o seu atual regime de proteção legal para o lobo ibérico, assegurando a coerência com o estado de conservação da população lupina da Península Ibérica e servindo como um exemplo de compromisso para com a espécie. A estabilidade das políticas de conservação em Portugal é crucial para não desestabilizar ainda mais a situação ibérica.

Harmonização de critérios e recolha de dados
Para que a gestão do lobo ibérico seja verdadeiramente eficaz, é urgente que Portugal e Espanha se guiem pelos mesmos critérios científicos em toda a área de distribuição da espécie. A uniformização das normas e metodologias científicas é uma condição essencial para facilitar o estudo da evolução da subespécie do lobo-cinzento na Península Ibérica. Tal uniformização permitirá uma compreensão mais precisa das dinâmicas populacionais, das ameaças e das necessidades de habitat, melhorando consequentemente as decisões de conservação e gestão.

Os especialistas defendem, ainda, a padronização da recolha de informação sobre os danos causados pelo lobo ao gado. Propõem a implementação de protocolos científicos homogéneos e a nível peninsular, garantindo que os dados recolhidos sejam não só consistentes, mas também acessíveis para a investigação. A existência de dados fiáveis e comparáveis sobre estes conflitos é fundamental para desenvolver estratégias de mitigação mais eficazes e para fundamentar políticas de compensação justas e céleres. A transparência e acessibilidade dos dados são cruciais para a monitorização da eficácia das medidas de prevenção e para a validação dos impactos reais da presença do lobo na pecuária.

Prevenção de conflitos e sistemas de compensação
A coexistência entre o lobo ibérico e as atividades humanas, nomeadamente a pecuária, é um desafio complexo que exige uma atenção particular. De um lado e do outro da fronteira, os especialistas consideram fundamental promover e apoiar medidas de prevenção proativas para proteger o gado de potenciais ataques de lobos. Estas medidas podem incluir a utilização de cães de gado, a instalação de vedações eletrificadas ou a implementação de sistemas de pastoreio mais seguros.

Paralelamente, é imperativo agilizar os sistemas de compensação aos criadores de gado quando as medidas de prevenção aplicadas se mostram insuficientes e ocorrem danos. Um processo de compensação eficiente e justo é crucial para reduzir o conflito entre humanos e lobos, fomentando uma maior tolerância em relação à espécie. A demora e a burocracia nos pagamentos de indemnizações podem exacerbar o ressentimento e a oposição à presença do lobo, comprometendo os esforços de conservação. A promoção de uma cultura de coexistência sustentável requer não apenas a proteção da vida selvagem, mas também o apoio e reconhecimento das dificuldades enfrentadas pelas comunidades locais que partilham o território com estes grandes carnívoros. A eficácia destas políticas pode determinar o sucesso ou o fracasso da conservação do lobo a longo prazo.

Conclusão
A situação do lobo ibérico na Península Ibérica atingiu um ponto crítico, exigindo uma resposta coordenada e urgente de Portugal e Espanha. O manifesto dos especialistas não deixa dúvidas quanto à necessidade de reforçar as medidas de proteção, harmonizar as políticas de conservação e estabelecer uma estratégia transfronteiriça unificada. Somente através de uma colaboração estreita, da uniformização de critérios científicos e da implementação de programas eficazes de prevenção e compensação, será possível reverter o declínio populacional e garantir a viabilidade a longo prazo desta espécie emblemática. A proteção do lobo ibérico é um desafio partilhado que transcende fronteiras, apelando a um compromisso conjunto para com a biodiversidade e o património natural da península. O futuro do lobo ibérico depende, em última instância, da capacidade de Portugal e Espanha em agirem de forma coesa e determinada.

Fonte: https://www.tempo.pt

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