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Descubra como se atribuem os nomes às tempestades em Portugal

Por Portugal 24 Horas

Se pensava que a atribuição de nomes às tempestades era uma tarefa aleatória ou ditada pelo capricho de um funcionário num centro de meteorologia, desengane-se. Longe de ser um processo fortuito, existe uma complexa e bem coordenada estratégia internacional que visa facilitar a comunicação e, acima de tudo, salvaguardar a segurança pública. Quando o tempo se agrava e os fenómenos meteorológicos atingem níveis de alerta, a capacidade de identificar rapidamente cada evento é crucial. Entender a origem dos nomes às tempestades e a metodologia por trás da sua atribuição é fundamental para perceber como o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), em conjunto com os seus parceiros europeus, decide se a próxima depressão se chamará Afonso ou Zélia. Esta abordagem sistemática é projetada para garantir que todos os intervenientes – desde as autoridades até ao cidadão comum – compreendam a dimensão e o perigo potencial de cada evento.

A estratégia europeia por detrás da nomenclatura

A atribuição de nomes a fenómenos meteorológicos severos não é uma iniciativa isolada de cada país, mas sim o resultado de uma coordenação meticulosa à escala europeia. Para otimizar a comunicação e a gestão de riscos, a Europa está estrategicamente dividida em grupos. Portugal integra o chamado Grupo Sudoeste, uma aliança meteorológica que inclui também Espanha, França, Bélgica e Luxemburgo. Esta colaboração transnacional é a espinha dorsal do sistema de nomeação, permitindo uma abordagem harmonizada e eficaz no monitorização e alerta de condições meteorológicas adversas.

A divisão por grupos e o papel de Portugal

No seio do Grupo Sudoeste, a responsabilidade pela definição da lista anual de nomes recai sobre os institutos meteorológicos de cada um dos cinco países-membros, incluindo o proeminente IPMA em Portugal. Esta colaboração interinstitucional é crucial para a criação de um rol de designações que, embora seguindo um padrão europeu, reflete também a diversidade cultural e linguística da região.

A lógica subjacente à nomeação de uma tempestade é simultaneamente simples e rigorosa: o primeiro país do grupo a emitir um aviso de nível laranja ou vermelho — os mais elevados na escala de alerta — devido a ventos fortes, assume o direito e a responsabilidade de batizar a tempestade. Esta designação é feita em estrita conformidade com a ordem alfabética da lista predefinida para a temporada em curso. Por exemplo, se a primeira tempestade a justificar um alerta de nível elevado surgir sobre a Península Ibérica e for Espanha a emitir o aviso inicial, esta terá a prerrogativa de usar a primeira letra da lista de nomes para essa temporada, sendo Portugal a seguir na ordem se outra tempestade com alerta se desenvolver. Este mecanismo assegura não só a unicidade de cada nome, mas também uma distribuição equitativa da responsabilidade entre os países do grupo, fomentando a cooperação e a agilidade na resposta a eventos climáticos extremos. É um sistema que prova a eficácia da diplomacia meteorológica na proteção dos cidadãos.

A importância de batizar fenómenos meteorológicos

A prática de atribuir nomes a tempestades e outros fenómenos meteorológicos não é uma questão de estilo ou de mera conveniência. Pelo contrário, tem bases sólidas em estudos de comunicação e psicologia social, que demonstram o impacto significativo desta estratégia na consciencialização e na segurança pública. A humanização do perigo através de um nome facilita a compreensão e a adesão aos avisos meteorológicos, um aspeto vital em situações de potencial risco.

Impacto na segurança pública e comunicação

Diversos estudos na área da comunicação de risco sublinham que as pessoas tendem a prestar muito mais atenção e a reagir com maior prontidão aos avisos de segurança quando a tempestade possui um nome próprio e facilmente identificável. A diferença entre referir a “Tempestade Kirk” e descrever uma “depressão pós-tropical que se desloca a 40 graus norte com ventos sustentados de 100 km/h” é abissal. O nome próprio confere à tempestade uma identidade, tornando-a uma entidade mais tangível e, consequentemente, mais fácil de discutir, recordar e, acima de tudo, de respeitar enquanto ameaça.

Esta personalização do perigo não só facilita a memorização dos avisos por parte do público, como também agiliza drasticamente a comunicação entre as autoridades, os meios de comunicação social e os cidadãos. Nas redes sociais e nos noticiários, é infinitamente mais prático e impactante partilhar informações sobre “Afonso” ou “Zélia” do que recorrer a complexas descrições técnicas. Um nome permite que a mensagem seja transmitida de forma clara e concisa, reduzindo a ambiguidade e o tempo de reação, o que é crítico em cenários de emergência. A atribuição de nomes contribui para uma cultura de maior preparação e resiliência face aos desafios impostos por fenómenos meteorológicos cada vez mais intensos e frequentes, permitindo que as comunidades se mobilizem de forma mais eficaz para proteger vidas e bens materiais.

Nomes além-fronteiras e a antecipação futura

Nem todas as tempestades que afetam o espaço europeu são nomeadas pelos institutos meteorológicos do Velho Continente. Existe um protocolo bem estabelecido para eventos que têm a sua génese noutras regiões do globo, em particular as que atravessam o Atlântico. Esta coordenação global é essencial para evitar duplicações e confusões, garantindo a clareza na comunicação internacional.

Respeito pela nomenclatura global e a lista anual

Por vezes, os noticiários em Portugal e noutros países europeus dão conta de tempestades com nomes que parecem não se enquadrar nas listas alfabéticas regionais. Esta situação ocorre quando uma tempestade, como um furacão ou uma tempestade tropical, cruza o Oceano Atlântico vinda de regiões como os Estados Unidos da América ou as Caraíbas. Nestes cenários, a tempestade mantém o nome original que lhe foi atribuído pelo Centro Nacional de Furacões (NHC) de Miami, nos EUA, ou por outro centro regional de nomeação. O IPMA e os seus parceiros europeus respeitam este batismo original para evitar qualquer tipo de confusão global, assegurando que o nome de um determinado fenómeno meteorológico é universalmente reconhecido, independentemente da sua trajetória.

Anualmente, por volta do mês de setembro, é publicada uma nova lista de nomes que abrange todas as letras do alfabeto, de A a Z. Esta lista é cuidadosamente elaborada e serve para a temporada seguinte, garantindo que há nomes disponíveis para os fenómenos que possam surgir. A sequência alfabética é rigorosamente seguida, o que confere previsibilidade ao sistema. Embora seja raro na zona de influência do Grupo Sudoeste que a lista completa seja esgotada, existem protocolos definidos para continuar a nomeação caso a temporada se revele excecionalmente ativa. O objetivo primordial é que cada evento meteorológico significativo seja único e facilmente identificável, permitindo uma monitorização precisa e uma comunicação eficaz. Esta antecipação e planeamento são cruciais para que as autoridades e o público estejam preparados para os desafios que o clima pode apresentar, reforçando a segurança e a capacidade de resposta face à imprevisibilidade da natureza.

Consciencialização e o futuro da gestão de tempestades

A estratégia por detrás da atribuição de nomes às tempestades representa um pilar fundamental na gestão de riscos e na comunicação de segurança em Portugal e na Europa. Este sistema, meticulosamente planeado por entidades como o IPMA em colaboração com os seus parceiros, transcende a mera formalidade, configurando-se como uma ferramenta vital para a proteção da vida humana e do património. A sua eficácia reside na capacidade de transformar complexos dados meteorológicos em informações acessíveis e memoráveis, incentivando a população a tomar as devidas precauções perante o perigo iminente. Ao garantir que cada evento é único e claramente identificável, o sistema de nomeação promove uma cultura de maior consciencialização e resiliência, preparando-nos melhor para os desafios impostos pelas condições meteorológicas adversas num futuro cada vez mais incerto.

Fonte: https://www.leak.pt

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