O panorama económico mundial encontra-se num ponto de inflexão decisivo, com projeções que apontam para uma transformação profunda na arquitetura do crescimento global. Análises recentes indicam que a totalidade do aumento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, nas próximas décadas, será impulsionada exclusivamente pelas economias não pertencentes à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Este dado não só sublinha uma mudança sísmica no equilíbrio de poder económico, mas também destaca a emergência de novos polos de prosperidade e inovação. A relevância das economias não-OCDE na definição da trajetória económica global é cada vez mais evidente, exigindo uma reavaliação das estratégias comerciais, de investimento e de cooperação internacional por parte das nações mais desenvolvidas.
A ascensão incontornável das economias não-OCDE
As economias que não integram o grupo dos 38 países membros da OCDE estão a redefinir o mapa do desenvolvimento económico global. Este grupo heterogéneo, que engloba nações tão diversas como a China, Índia, Brasil, Indonésia e vários países africanos, apresenta características que propiciam um crescimento robusto e sustentado, contrastando com a maturação e, por vezes, estagnação, observada em muitas economias ocidentais. A combinação de vastos mercados internos, populações jovens e em crescimento, e uma crescente capacidade de inovação e adaptação tecnológica, coloca estes países na vanguarda da expansão económica. Este fenómeno não é apenas uma projeção teórica; é uma realidade já visível nas taxas de crescimento do PIB, nos fluxos de investimento e na evolução do poder de compra global.
Os pilares de um novo dinamismo económico
O ímpeto de crescimento das economias não-OCDE assenta em vários pilares fundamentais. Primeiramente, o dinamismo demográfico é crucial. Muitos destes países possuem populações jovens e em rápida expansão, o que se traduz numa força de trabalho abundante e num aumento do consumo interno. Este “dividendo demográfico” impulsiona a procura agregada e estimula a produção. Em segundo lugar, a urbanização acelerada e a expansão da classe média em muitas destas nações estão a criar mercados consumidores cada vez mais sofisticados e exigentes, atraindo investimento direto estrangeiro e fomentando o desenvolvimento de indústrias locais. Cidades como Xangai, Bombaim ou São Paulo são centros vibrantes de atividade económica, catalisando o crescimento regional e nacional.
Adicionalmente, a industrialização e a diversificação económica têm sido motores essenciais. Muitos países não-OCDE deixaram de ser meros exportadores de matérias-primas para se tornarem importantes players na produção manufatureira e, crescentemente, no setor de serviços e tecnologia. A aposta em infraestruturas, educação e inovação tecnológica tem sido uma prioridade para muitos governos, permitindo-lhes subir na cadeia de valor global. A digitalização, em particular, está a desempenhar um papel transformador, permitindo a estas economias “saltar” etapas de desenvolvimento, adotando tecnologias avançadas em áreas como o comércio eletrónico, a banca móvel e a inteligência artificial, impulsionando a produtividade e a competitividade a uma escala sem precedentes.
Desafios e oportunidades num panorama em mutação
Esta reconfiguração do crescimento económico global apresenta simultaneamente desafios significativos e vastas oportunidades. Para as economias da OCDE, a estagnação relativa ou o crescimento mais lento exigem uma reflexão profunda sobre a sua própria resiliência, inovação e capacidade de adaptação. Questões como o envelhecimento demográfico, os níveis de endividamento público e a necessidade de reformas estruturais urgentes são centrais. No entanto, esta dinâmica também abre portas para novas parcerias, mercados e fontes de investimento, desde que haja a proatividade de redefinir estratégias e modelos de cooperação. A capacidade de se integrar nestas novas cadeias de valor e de capitalizar o crescimento emergente será determinante para a prosperidade futura.
Implicações para o comércio e investimento globais
As implicações para o comércio e o investimento globais são profundas. As rotas comerciais tradicionais estão a ser complementadas e, em alguns casos, redefinidas, com um aumento notório do comércio Sul-Sul, ou seja, entre as próprias economias emergentes. A Ásia, em particular, emergiu como um centro nevrálgico, com países como a China a liderarem não só na produção, mas também no consumo. As empresas multinacionais, tradicionalmente focadas nos mercados ocidentais, estão a reposicionar-se, a investir em novas fábricas e centros de investigação e desenvolvimento em economias não-OCDE para estarem mais próximas dos seus novos clientes e fontes de inovação.
O investimento direto estrangeiro (IDE) também reflete esta mudança. Embora as economias da OCDE continuem a ser importantes destinos de IDE, a percentagem de investimento que se dirige para as economias não-OCDE tem vindo a aumentar. Este investimento não se limita apenas a setores industriais, expandindo-se para áreas como a energia renovável, a tecnologia, os serviços financeiros e as infraestruturas. Simultaneamente, as próprias economias não-OCDE estão a tornar-se fontes de IDE, com empresas de países como a China e a Índia a investirem massivamente noutras regiões emergentes e até em economias desenvolvidas, procurando acesso a tecnologia, mercados e recursos. Esta bilateralidade no investimento sublinha a crescente interdependência global e a necessidade de quadros regulamentares e acordos comerciais que reflitam esta nova realidade multipolar.
O futuro do crescimento global e as suas complexidades
O futuro do crescimento global, embora claramente direcionado pelas economias não-OCDE, não está isento de complexidades e desafios. A sustentabilidade ambiental, a desigualdade social crescente dentro e entre países, e as tensões geopolíticas representam riscos significativos que podem comprometer este progresso. A forma como estas economias gerem o seu desenvolvimento – adotando modelos mais verdes, promovendo a inclusão e garantindo a estabilidade política – será crucial para a durabilidade e qualidade do seu crescimento. A cooperação internacional, a partilha de conhecimento e a construção de instituições globais mais representativas e eficazes serão ferramentas indispensáveis para navegar neste novo e complexo panorama económico.
Em suma, a constatação de que o crescimento económico global futuro residirá integralmente fora das economias da OCDE não é apenas uma estatística, mas um catalisador para uma reflexão profunda sobre o futuro das relações internacionais, do comércio e do desenvolvimento. É um convite à adaptação e à inovação para todos os atores económicos e políticos do mundo. A compreensão e a capitalização desta megatendência serão essenciais para moldar um futuro próspero e equitativo.
Fonte: https://eco.sapo.pt