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Fechos de inverno na pesca: sucessos e desafios para a frota.

Por Portugal 24 Horas

A implementação dos fechos de inverno na pesca, uma medida de gestão amplamente discutida, tem vindo a demonstrar resultados inegavelmente positivos nos últimos anos, especialmente no que concerne à recuperação e sustentabilidade dos recursos marinhos. Esta abordagem estratégica, desenhada para permitir a regeneração dos stocks de peixe durante períodos críticos de reprodução, tem sido saudada por cientistas e ambientalistas como um passo crucial para a saúde dos ecossistemas aquáticos. Contudo, a sua aplicação não está isenta de desafios, uma vez que se estima que esta medida de interdição sazonal afete diretamente cerca de trezentas embarcações e as comunidades piscatórias a elas ligadas, gerando preocupações legítimas sobre o seu impacto socioeconómico. Encontrar o equilíbrio entre a imperativa conservação marinha e a sustentabilidade dos meios de subsistência dos pescadores é, por isso, um dos grandes desígnios atuais.

A implementação dos fechos de inverno e os seus resultados ambientais

A decisão de instituir períodos de interdição da pesca durante os meses de inverno, ou noutras épocas estratégicas, surge da crescente compreensão da necessidade de proteger os ecossistemas marinhos da sobre-exploração. Este tipo de medida, frequentemente baseada em pareceres científicos detalhados, visa principalmente a recuperação e manutenção de stocks de peixe saudáveis, garantindo a sua viabilidade a longo prazo.

O imperativo da conservação e a recuperação de stocks

Os fechos de inverno são implementados com o objetivo primordial de proteger as espécies durante os seus períodos de maior vulnerabilidade, como a época de desova e a fase inicial de desenvolvimento das suas crias. Ao proibir a pesca em áreas específicas ou para determinadas espécies durante estes meses, permite-se que os peixes se reproduzam sem interrupção e que os juvenis cresçam até um tamanho que lhes confira maiores hipóteses de sobrevivência. Esta pausa na atividade piscatória é vital para romper o ciclo da sobre-exploração, que tem levado a uma diminuição preocupante de muitas populações de peixe em todo o mundo.

Em Portugal e noutros países europeus, a aplicação destas medidas tem como base estudos científicos que identificam os períodos reprodutivos das espécies-alvo e as áreas geográficas mais importantes para a sua desova. O objetivo é criar “santuários temporários” onde a vida marinha possa prosperar, resultando, a médio e longo prazo, num aumento da biomassa dos stocks, numa melhoria da estrutura etária das populações e na recuperação da biodiversidade marinha. Esta abordagem não só beneficia as espécies diretamente visadas, mas também todo o ecossistema, ao restaurar o equilíbrio natural da cadeia alimentar.

Medição do sucesso: dados e evidências

A eficácia dos fechos de inverno é sistematicamente monitorizada através de uma série de indicadores científicos e operacionais. Instituições de investigação marinha recolhem dados sobre a abundância de juvenis, o tamanho médio dos peixes capturados fora dos períodos de interdição e a densidade populacional das espécies em áreas protegidas versus não protegidas. Estes estudos têm revelado, de forma consistente, que as zonas sujeitas a fecho registam uma recuperação significativa dos stocks.

Por exemplo, observou-se um aumento da captura por unidade de esforço (CPUE) nas épocas de reabertura, o que indica que os pescadores encontram mais peixe e de melhor qualidade após o período de interdição. Além disso, análises genéticas e estudos de idade e crescimento confirmam que as populações estão a tornar-se mais resilientes e a recuperar a sua estrutura demográfica natural. A presença de espécies que antes eram raras ou inexistentes em certas áreas também tem sido um sinal encorajador do sucesso destas políticas. Estes dados são cruciais para justificar a continuidade e, se necessário, a adaptação destas medidas, demonstrando que, embora causem transtornos temporários, os benefícios a longo prazo para o setor e para o ambiente são substanciais.

O impacto socioeconómico na frota pesqueira

Apesar dos claros benefícios ambientais, a implementação dos fechos de inverno na pesca acarreta um impacto socioeconómico considerável, particularmente sentido nas comunidades piscatórias que dependem diretamente da atividade para a sua subsistência. A medida, que afetará cerca de trezentas embarcações, levanta questões sobre como conciliar a conservação com a necessidade de garantir o sustento dos pescadores.

O desafio para as trezentas embarcações e as suas comunidades

A interrupção temporária da atividade piscatória para trezentas embarcações representa uma paragem na entrada de rendimentos para os seus proprietários e tripulações. Cada embarcação, dependendo do seu porte e tipo de pesca, emprega um determinado número de pescadores, o que significa que o impacto se estende a centenas de famílias. Para muitos, a pesca não é apenas uma profissão, mas um modo de vida profundamente enraizado na cultura e economia local. A paragem da faina significa não só a perda de rendimentos diretos, mas também uma diminuição na atividade de indústrias correlacionadas, como fornecedores de gelo, combustíveis, redes, estaleiros de reparação e o setor de transformação e venda de pescado.

As comunidades costeiras, muitas vezes pequenas e isoladas, ressentem-se particularmente. A ausência de alternativas de emprego viáveis durante o período de fecho pode levar a dificuldades financeiras e, em alguns casos, ao abandono da profissão ou à emigração. É um período de incerteza e planeamento cuidadoso para os pescadores, que são obrigados a ajustar as suas economias e a procurar outras fontes de rendimento ou a recorrer a apoios sociais. A preocupação é que, sem um suporte adequado, a medida, por mais bem-intencionada que seja, possa minar a resiliência destas comunidades.

Estratégias de mitigação e perspetivas dos pescadores

Para atenuar o impacto negativo dos fechos de inverno, têm sido desenvolvidas diversas estratégias de mitigação. Uma das mais comuns é a atribuição de compensações financeiras aos pescadores e armadores afetados, sob a forma de apoios diretos ou subsídios para a cessação temporária da atividade. Estes programas visam cobrir parte das perdas de rendimento e permitir que as famílias mantenham a sua estabilidade económica durante o período de interdição. Além disso, algumas medidas incluem programas de requalificação profissional ou formação para atividades alternativas, como o turismo de natureza ou a aquacultura.

A perspetiva dos pescadores face a estas medidas é, naturalmente, mista. Muitos reconhecem a importância da conservação e a necessidade de proteger os recursos para as futuras gerações, mas sentem-se frustrados pela falta de alternativas ou pela insuficiência dos apoios. A transparência na tomada de decisão, o diálogo contínuo entre as autoridades e os representantes do setor, e a flexibilidade na aplicação das medidas são cruciais para ganhar a sua confiança e colaboração. É fundamental que os pescadores se sintam parte da solução e que as suas preocupações sejam ouvidas e integradas nas políticas de gestão, garantindo que a sustentabilidade ambiental não comprometa a sustentabilidade socioeconómica das suas vidas.

Um futuro sustentável: conciliar economia e ecologia

Os fechos de inverno na pesca representam um paradigma complexo de gestão de recursos, onde os imperativos ecológicos de conservação e recuperação de stocks se cruzam com as realidades socioeconómicas de comunidades piscatórias. A evidência dos resultados positivos para a saúde dos oceanos é inegável, com o aumento da biomassa e a melhoria da biodiversidade a testemunharem a eficácia destas medidas de interdição. Contudo, o impacto significativo em trezentas embarcações e nas suas tripulações exige uma abordagem multifacetada e humanizada. O futuro da pesca sustentável dependerá da nossa capacidade de encontrar soluções inovadoras que protejam os nossos ecossistemas marinhos, ao mesmo tempo que garantem a dignidade e o sustento daqueles que vivem do mar. Este equilíbrio delicado é a chave para um setor pesqueiro próspero e um oceano saudável.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que são os fechos de inverno na pesca?
São períodos de interdição temporária da atividade piscatória em determinadas áreas ou para certas espécies, geralmente durante os meses de inverno ou épocas de reprodução, com o objetivo de permitir a recuperação dos stocks de peixe e a regeneração dos ecossistemas marinhos.

Quais os principais benefícios destas medidas?
Os principais benefícios incluem a recuperação e aumento dos stocks de peixe, a melhoria da saúde e biodiversidade dos ecossistemas marinhos, e a garantia de uma pesca mais sustentável a longo prazo, contribuindo para a viabilidade futura do setor.

Como são apoiados os pescadores afetados pelos fechos?
Os pescadores e armadores afetados podem ser apoiados através de compensações financeiras diretas, subsídios para a cessação temporária da atividade, programas de requalificação profissional ou incentivos para diversificação das suas atividades para setores menos impactados.

Que tipo de embarcações são geralmente mais afetadas?
As embarcações mais afetadas tendem a ser aquelas que dependem significativamente das espécies ou áreas sujeitas a interdição. Geralmente são embarcações de pesca costeira e artesanal, que têm menos flexibilidade para mudar de zonas de pesca ou de tipo de captura.

Para mais informações sobre as medidas de conservação e as suas implicações, contacte as autoridades de pesca ou os representantes do setor.

Fonte: https://www.euronews.com

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