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Fenómeno submarino raro filmado em águas portuguesas intriga cientistas

Por Portugal 24 Horas

A recente divulgação de um fenómeno submarino raro, captado em vídeo nas profundezas do oceano Atlântico ao largo da costa portuguesa, está a gerar um intenso debate e fascínio na comunidade científica internacional. As imagens, de uma clareza surpreendente, revelam uma atividade biológica ou geológica até então desconhecida, desafiando conceções pré-existentes sobre os ecossistemas abissais. Este registo visual não só proporciona um vislumbre inédito de um mundo oculto, como também levanta questões cruciais sobre a biodiversidade marinha e os processos geológicos subaquáticos. O vídeo, que rapidamente se tornou viral entre investigadores, sublinha a vastidão do que ainda desconhecemos sobre os nossos oceanos, impulsionando um renovado interesse na exploração das suas profundezas misteriosas. A sua importância reside na capacidade de abrir novas avenidas para a investigação e conservação marinha.

A Descoberta Visual nas Profundezas Atlânticas

A expedição e o momento da gravação
A extraordinária filmagem foi realizada durante uma missão de rotina da embarcação de pesquisa “Atlântida”, uma colaboração entre o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e a Fundação Oceano Azul. A expedição, que tinha como objetivo principal monitorizar a saúde dos ecossistemas de águas profundas na região do Banco Gorringe, a sudoeste de Portugal continental, estava a utilizar um veículo operado remotamente (ROV) de última geração, o “DeepExplorer II”. A cerca de 1.800 metros de profundidade, num setor de relevo submarino particularmente complexo e pouco explorado, os técnicos e cientistas a bordo foram surpreendidos por uma manifestação visual sem precedentes.

Eram 03:47 da manhã, hora local, quando o ROV, equipado com câmaras de alta definição e sistemas de iluminação avançados, detetou uma série de pulsos luminosos vibrantes e coordenados. Inicialmente, a equipa pensou tratar-se de uma falha nos sensores, mas a persistência e o padrão regular dos flashes bioluminescentes descartaram rapidamente essa hipótese. O piloto do ROV, João Almeida, um veterano com mais de duas décadas de experiência em exploração submarina, manobrou o veículo para uma observação mais próxima, permitindo o registo detalhado do que viria a ser classificado como um “fenómeno bioluminescente complexo e organizado”, em direto e sem interrupções.

A qualidade inédita das imagens
A verdadeira revelação desta descoberta reside não apenas na raridade do fenómeno, mas também na qualidade excecional das imagens captadas. O “DeepExplorer II” está equipado com tecnologia ótica de ponta, capaz de registar vídeo em 8K, mesmo em condições de escuridão total, através de iluminação LED de espectro completo e estabilização de imagem avançada. Esta capacidade técnica permitiu aos cientistas obter um nível de detalhe nunca antes alcançado para um evento desta natureza em águas tão profundas.

Ao contrário de registos anteriores de bioluminescência marinha, que muitas vezes se limitavam a pontos luminosos difusos ou flashes isolados, o vídeo mostra um padrão complexo de emissão de luz, com cores que variam do azul-esverdeado ao amarelo dourado, e que parecem seguir um ritmo específico. A estabilidade da plataforma do ROV permitiu uma observação prolongada, revelando interações subtis entre os organismos envolvidos e o ambiente rochoso circundante. Os especialistas sublinham que esta nitidez é crucial para a análise morfológica e comportamental, abrindo portas para a identificação de novas espécies e a compreensão de novos processos ecológicos que, até agora, eram impossíveis de discernir.

Análise Científica e Implicações Iniciais

O que o vídeo revela em detalhe
O vídeo de mais de 45 minutos oferece um vislumbre detalhado de uma comunidade de organismos marinhos que coexistem num intrincado ecossistema. As imagens mostram extensões de corais de águas frias, onde um tipo de anémona gigante, com tentáculos que brilham intermitentemente, parece orquestrar um espetáculo de luz. Curiosamente, pequenos crustáceos e peixes abissais parecem ser atraídos por esta exibição, movimentando-se em padrões que sugerem uma forma de comunicação ou caça coordenada, que também envolvem emissões de luz próprias. Alguns cientistas especulam que o fenómeno pode ser uma manifestação de quimiossíntese intensificada, onde as comunidades microbianas nos fluidos hidrotermais reagem de forma única à presença de certos metais pesados ou compostos orgânicos, libertando energia sob a forma de luz. Outros sugerem uma forma de defesa ou atração de parceiros para acasalamento em larga escala, algo inédito em profundidades tão extremas.

O desafio às teorias existentes
Esta descoberta tem o potencial de redefinir várias teorias fundamentais sobre a vida nas profundezas oceânicas. Até agora, pensava-se que a bioluminescência em águas abissais era maioritariamente utilizada para atração de presas, defesa contra predadores ou camuflagem. Contudo, o padrão complexo e a aparente coordenação observados no vídeo sugerem uma função mais sofisticada, talvez uma forma de linguagem complexa ou de interação social entre diferentes espécies. A intensidade e a persistência da luz também levantam questões sobre a eficiência energética dos organismos envolvidos e a disponibilidade de recursos em ambientes tão extremos. Poderá esta forma de bioluminescência ser um indicador de fontes de energia desconhecidas ou de processos metabólicos inovadores que poderiam ter implicações para a biotecnologia e medicina.

Reações da comunidade científica global
A repercussão na comunidade científica global tem sido imediata e entusiasmada. O Doutor Luís Rocha, oceanógrafo da Universidade de Lisboa e um dos líderes da missão, expressou o seu espanto: “Nunca vi nada assim em todos os meus anos de exploração marinha. É um mundo novo que se abre perante os nossos olhos.” Cientistas da Scripps Institution of Oceanography, nos Estados Unidos, e do Instituto Alfred Wegener, na Alemanha, já contactaram a equipa portuguesa para iniciar colaborações na análise das imagens e na conceção de futuras expedições. A Doutora Anya Sharma, especialista em ecossistemas de águas profundas da Universidade de São Paulo, no Brasil, comentou: “Este vídeo é um testemunho da vastidão do desconhecido que os nossos oceanos ainda guardam. É uma chamada de atenção para a necessidade urgente de mais investimento em investigação oceânica.”

Perspetivas Futuras e o Chamado à Exploração Oceânica

A urgência de novas investigações
A descoberta do fenómeno bioluminescente sublinha a urgência de novas investigações. A equipa do IPMA já está a planear uma nova expedição ao local, com equipamento ainda mais sofisticado, incluindo sistemas de recolha de amostras em tempo real e sensores ambientais de alta precisão. O objetivo é obter amostras de água, sedimento e, se possível, dos próprios organismos envolvidos, para análise genética, química e fisiológica. A recolha destas amostras permitirá identificar as espécies, compreender os mecanismos moleculares da bioluminescência e determinar as condições ambientais que favorecem este espetáculo de luz. No entanto, o financiamento para missões de águas profundas é um desafio constante, e a equipa apela a apoios nacionais e internacionais para dar continuidade a esta pesquisa vital.

O papel de Portugal na investigação marinha
Portugal, com a sua extensa zona económica exclusiva e uma história milenar de ligação ao mar, está em uma posição privilegiada para liderar e contribuir significativamente para a investigação marinha profunda. A localização geográfica do país, na confluência de importantes correntes oceânicas e com acesso a diversas formações geológicas submarinas, como o Banco Gorringe e o Canhão da Nazaré, oferece um laboratório natural único para a exploração. Este fenómeno, captado em águas portuguesas, reforça a responsabilidade do país na proteção e estudo do seu património marinho, incentivando a criação de programas de investigação mais robustos e a formação de novas gerações de oceanógrafos e biólogos marinhos.

Consciencialização e conservação
Além do valor científico, a divulgação deste vídeo tem um impacto inegável na consciencialização pública sobre a importância dos oceanos. Ao revelar a beleza e a complexidade dos ecossistemas de águas profundas, o vídeo serve como um poderoso lembrete da biodiversidade que ainda aguarda ser descoberta e da fragilidade desses ambientes face às alterações climáticas e à poluição. A proteção dos oceanos é crucial, não só para a manutenção da vida marinha, mas também para o equilíbrio ecológico global. Este fenómeno recém-descoberto deve inspirar um renovado compromisso com a conservação e a gestão sustentável dos nossos oceanos, garantindo que as futuras gerações também possam testemunhar e estudar as maravilhas que as profundezas ainda guardam. A exploração contínua e a compreensão dos mistérios oceânicos são essenciais para o futuro do nosso planeta.

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