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Futuro da Gronelândia: EUA não precisam de a comprar, diz Rasmussen

Por Portugal 24 Horas

O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, proferiu uma declaração veemente após a sua saída da Casa Branca, afirmando que uma eventual aquisição da Gronelândia por parte dos Estados Unidos seria “absolutamente desnecessária”. Esta posição categórica reitera a postura inabalável de Copenhaga relativamente à soberania do território autónomo e sublinha a complexidade das relações geoestratégicas na região do Ártico. A Gronelândia, uma vasta ilha com recursos naturais significativos e uma localização estratégica ímpar, tem sido, ao longo de décadas, objeto de interesse recorrente por parte de Washington, especialmente em momentos de crescente competição global. A declaração de Rasmussen surge, assim, num contexto de discussões sobre a segurança e o futuro do Ártico, reafirmando que a ilha não está à venda e que o seu destino pertence primariamente aos seus habitantes e à sua relação intrínseca com o Reino da Dinamarca.

A persistência do interesse americano na Gronelândia

O interesse dos Estados Unidos na Gronelândia não é um fenómeno recente, mas sim uma constante geopolítica que remonta a séculos. A ilha, a maior do mundo, ocupa uma posição crítica no Atlântico Norte, entre a Europa e a América do Norte, e tem sido vista por várias administrações americanas como um ativo estratégico vital. Desde a Segunda Guerra Mundial, quando as forças americanas assumiram a proteção da ilha após a ocupação alemã da Dinamarca, a presença militar dos EUA tem sido uma realidade, consolidada pela Base Aérea de Thule, um pilar fundamental da defesa antimísseis e do sistema de alerta precoce da NATO. Este interesse subjacente explodiu em 2019, quando o então Presidente Donald Trump manifestou abertamente a sua intenção de comprar a Gronelândia, gerando surpresa e veementes recusas por parte de Copenhaga e Nuuk.

Raízes históricas e a proposta de Trump

A ideia de comprar a Gronelândia pelos Estados Unidos não é nova. Em 1867, o Secretário de Estado William H. Seward, responsável pela aquisição do Alasca à Rússia, considerou a compra da Gronelândia. Mais tarde, em 1946, após a Segunda Guerra Mundial, o Presidente Harry S. Truman ofereceu à Dinamarca 100 milhões de dólares em ouro pela ilha. Ambas as propostas foram recusadas. A recente manifestação de interesse do Presidente Trump, em 2019, reacendeu esta antiga ambição americana. A sua proposta, embora recebida com desdém e até incredulidade por parte da Dinamarca e da Gronelândia, revelou a persistência de uma visão estratégica em Washington que vê a aquisição do território como uma forma de consolidar a sua influência e segurança no Ártico. A justificação passava pela segurança nacional e pelo controlo de recursos estratégicos, mas foi firmemente rejeitada como uma “ideia absurda” pelo governo dinamarquês e pelas autoridades gronelandesas.

A importância geoestratégica do Ártico

A região do Ártico, onde a Gronelândia desempenha um papel central, tem vindo a ganhar uma importância geoestratégica crescente. As alterações climáticas estão a provocar o derretimento do gelo marinho a um ritmo alarmante, abrindo novas rotas marítimas, como a Passagem do Noroeste e a Rota do Mar do Norte, que podem revolucionar o comércio global e o transporte de mercadorias. Além disso, o Ártico é estimado como detentor de vastas reservas de petróleo, gás natural e minerais raros, cujas explorações se tornam mais acessíveis com a diminuição do gelo. Esta confluência de fatores tem levado a uma corrida por influência e recursos, envolvendo potências como os Estados Unidos, a Rússia e a China. A Gronelândia, com a sua localização privilegiada e recursos potenciais, é vista como uma peça-chave neste complexo tabuleiro de xadrez geopolítico, o que justifica o interesse contínuo dos EUA em garantir a sua segurança e acesso à região.

A posição inequívoca da Dinamarca e da Gronelândia

A declaração do Ministro Lars Løkke Rasmussen reflete uma posição unificada e inabalável entre Copenhaga e Nuuk no que diz respeito ao estatuto da Gronelândia. Embora a Gronelândia seja um território autónomo com um governo próprio (Naalakkersuisut), ela permanece parte do Reino da Dinamarca. Esta ligação histórica e constitucional significa que qualquer alteração fundamental ao seu estatuto, como uma venda ou aquisição por um país estrangeiro, teria de ser aprovada tanto pela Dinamarca como pela própria Gronelândia. Ambas as partes têm sido consistentes na sua recusa a tais propostas, sublinhando que a ilha não é uma mercadoria transacionável.

Soberania e autodeterminação gronelandesa

A Gronelândia desfruta de um elevado grau de autonomia desde 1979, com a introdução do “Home Rule”, e foi-lhe concedida a autogovernança alargada (Self-Rule) em 2009. Este estatuto permite que a Gronelândia assuma a responsabilidade por muitas áreas da governação, incluindo a educação, saúde, pesca, ambiente e recursos minerais. Os seus habitantes têm o direito à autodeterminação, o que significa que qualquer decisão sobre o futuro da ilha deve ser tomada pelos gronelandeses. A possibilidade de uma aquisição externa, como a sugerida pelos EUA, ignora completamente este princípio fundamental, sendo vista como uma afronta à sua soberania e ao seu direito de decidir o seu próprio caminho. A população gronelandesa, que é culturalmente distinta da dinamarquesa e tem uma forte identidade inuíte, valoriza a sua autonomia e aspira a um controlo ainda maior sobre o seu destino, incluindo a possibilidade futura de independência plena, se assim o desejarem.

Relações entre Copenhaga e Nuuk

A relação entre Copenhaga e Nuuk é complexa, mas geralmente baseia-se no respeito mútuo e numa parceria estratégica. A Dinamarca continua a fornecer um substancial subsídio anual à Gronelândia, que é crucial para a sua economia e serviços públicos. Em troca, a Dinamarca mantém o controlo sobre a defesa, a política externa e a política monetária. Esta dinâmica tem sido objeto de debates internos na Gronelândia, onde há uma crescente discussão sobre a independência económica e política. No entanto, em matérias de soberania face a interesses externos, a Dinamarca e a Gronelândia apresentam uma frente unida. A declaração de Rasmussen reforça esta solidariedade, deixando claro que, independentemente das diferenças internas ou das aspirações a longo prazo de Nuuk, a venda da Gronelândia não é uma opção negociável e não se alinha com os valores de autodeterminação e integridade territorial defendidos por ambas as partes.

Implicações geopolíticas e económicas

A recusa de uma aquisição da Gronelândia pelos Estados Unidos tem implicações significativas, não só para as relações bilaterais entre Washington e Copenhaga/Nuuk, mas também para a dinâmica geopolítica e económica mais ampla do Ártico. A ilha não é apenas um território, mas um ator-chave numa região cada vez mais disputada, onde a segurança, a economia e o ambiente se entrelaçam. A declaração de Rasmussen sublinha a importância de uma abordagem multilateral e cooperativa para a governação do Ártico, em vez de tentativas de aquisição unilateral que poderiam desestabilizar a região.

Recursos naturais e rotas marítimas emergentes

A Gronelândia é rica em recursos naturais inexplorados. Estima-se que possua vastas reservas de minerais como terras raras (essenciais para a tecnologia moderna), urânio, níquel, zinco, chumbo e ferro. Além disso, há um potencial significativo para a exploração de petróleo e gás ao largo da sua costa. O derretimento do gelo ártico torna a exploração destes recursos mais viável e a abertura de novas rotas marítimas encurtará significativamente as distâncias de transporte entre a Ásia, a Europa e a América. Para os Estados Unidos e outras potências, o acesso a estes recursos e o controlo destas rotas representam vantagens económicas e estratégicas consideráveis. A posição dinamarquesa e gronelandesa de manter a soberania assegura que qualquer desenvolvimento destes recursos e rotas será feito sob o seu controlo e com os seus interesses em mente, potencialmente através de parcerias estratégicas que beneficiem a população local.

O papel da Gronelândia na segurança regional

Para além dos recursos e rotas, a Gronelândia desempenha um papel insubstituível na segurança regional e global. A Base Aérea de Thule, operada pelos EUA no norte da Gronelândia, é a instalação mais setentrional das Forças Armadas dos Estados Unidos e serve como um elemento crítico no sistema de defesa de mísseis e no sistema de vigilância espacial do Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte (NORAD). A sua localização estratégica permite a monitorização do espaço aéreo ártico e o rastreamento de mísseis intercontinentais. A integridade territorial da Gronelândia, sob a alçada da Dinamarca, um aliado da NATO, é fundamental para a estabilidade desta presença militar vital. Qualquer tentativa de alteração do seu estatuto sem o consentimento dos atores soberanos poderia minar a confiança e a cooperação, complicando a segurança de uma região já sensível devido à crescente atividade militar da Rússia e à ambição da China em tornar-se uma “potência quase-ártica”. A declaração de Rasmussen, ao defender a soberania, reforça a ordem internacional e a importância das alianças existentes.

Conclusão

A firme declaração do Ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, após a sua visita à Casa Branca, reitera a posição inabalável da Dinamarca e da Gronelândia: a ilha não está à venda. Esta postura reflete não apenas o respeito pela autodeterminação do povo gronelandês, mas também a consciência da complexidade geopolítica do Ártico. Num cenário global onde a competição por recursos e influência se intensifica, a integridade territorial e a soberania da Gronelândia tornam-se elementos cruciais para a estabilidade regional e global. A mensagem é clara: o futuro da Gronelândia será decidido pelos seus habitantes, em parceria com a Dinamarca, e não através de aquisições unilaterais.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que significa a autonomia da Gronelândia em relação à Dinamarca?
A Gronelândia tem um estatuto de autogoverno (Self-Rule) desde 2009, o que lhe confere controlo sobre muitas áreas da governação, como educação, saúde, pescas e gestão de recursos minerais. No entanto, a Dinamarca mantém a responsabilidade pela defesa, política externa e política monetária.

Por que os Estados Unidos estão interessados na Gronelândia?
O interesse dos EUA na Gronelândia é principalmente geoestratégico. A ilha tem uma localização crucial no Ártico, com importantes implicações para a segurança militar (Base Aérea de Thule), controlo de futuras rotas marítimas e acesso a vastos recursos naturais, como terras raras, petróleo e gás.

Qual é a posição da população gronelandesa sobre uma possível venda da ilha?
A população gronelandesa, que valoriza a sua identidade e autodeterminação, rejeitou firmemente qualquer ideia de venda da ilha. Consideram que o seu futuro deve ser decidido por eles próprios, seja mantendo a relação com a Dinamarca ou, eventualmente, através da independência plena.

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Fonte: https://www.euronews.com

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