Há mais de um século e meio, o curso peculiar do rio Green, nos Estados Unidos da América, tem intrigado geólogos e cientistas. Este corpo de água serpenteia de forma contraintuitiva através das imponentes montanhas Uinta, uma cadeia montanhosa com quase quatro mil metros de altitude, desafiando as leis fundamentais da geomorfologia. Como poderia um rio cortar uma barreira tão monumental em vez de a contornar, e porque o seu trajeto parecia, em certas secções, ir “contra a corrente”, subindo? Este enigma secular, que questionava a própria dinâmica da paisagem do oeste norte-americano, parece agora ter sido desvendado. Uma investigação inovadora, cujos resultados foram recentemente publicados, aponta para um fenómeno profundo e inesperado no interior da Terra: o gotejamento litosférico. Esta descoberta não só oferece uma explicação sólida para a trajetória anómala do rio Green, como também redefine a nossa compreensão da geografia regional, da história fluvial e até mesmo da evolução biológica desta vasta área.
O enigma do rio Green: um desafio à geomorfologia
O rio Green, um dos principais afluentes do rio Colorado, apresenta um percurso que, durante gerações, se revelou uma verdadeira anomalia geográfica. Enquanto a lógica dita que os rios procurem o caminho de menor resistência, contornando elevações montanhosas, o Green River opta por uma rota frontal, abrindo um profundo desfiladeiro através das robustas montanhas Uinta. Esta cadeia montanhosa, formada há aproximadamente 50 milhões de anos, contrasta temporalmente com o curso atual do rio, que se estabeleceu há menos de 8 milhões de anos. A discrepância temporal e a audácia geológica do rio em esculpir um cânion de 700 metros de profundidade no coração de uma cordilheira levantaram questões complexas.
A cronologia inversa e as teorias falhadas
A principal dificuldade em explicar o percurso do rio Green residia na cronologia dos eventos. Era amplamente aceite que as montanhas Uinta eram significativamente mais antigas do que o curso do rio que as atravessa. Em condições normais, seria de esperar que o rio tivesse percorrido o seu caminho antes da ascensão das montanhas, mantendo-o enquanto estas se elevavam (um fenómeno conhecido como rio antecedente), ou que as contornasse completamente. Nenhuma das teorias prevalecentes – desde uma suposta idade muito mais avançada do rio até complexos processos de captura fluvial, onde um rio “rouba” o curso de outro – conseguia conciliar-se plenamente com os dados geológicos e geomorfológicos disponíveis na região. A falta de provas consistentes para qualquer uma destas hipóteses manteve o mistério em aberto, alimentando décadas de debate científico e especulação.
A solução nas profundezas da Terra: gotejamento litosférico
A chave para desvendar este enigma centenário, conforme revelado por uma equipa de investigadores das Universidades de Glasgow e do Utah, não reside na superfície terrestre, mas sim nas suas profundezas. A nova teoria foca-se num processo geológico pouco compreendido, mas de impacto significativo: o gotejamento litosférico. Este fenómeno ocorre quando uma acumulação de materiais minerais densos na base da crosta terrestre perde a sua estabilidade. Sob a influência da gravidade, esta massa pesada separa-se da crosta e afunda-se lentamente no manto subjacente, arrastando consigo o terreno à superfície. Este movimento descendente temporário foi o catalisador que permitiu a ligação e a subsequente integração do rio Green.
Como o interior da Terra alterou a paisagem
O gotejamento litosférico terá provocado um afundamento temporário das montanhas Uinta durante um período crucial. Segundo Adam Smith, o principal autor do estudo, “acreditamos ter reunido provas suficientes para mostrar que este processo foi capaz de baixar o terreno o suficiente para que os rios se ligassem e se fundissem”. A estimativa é que a superfície do terreno terá oscilado em mais de 400 metros, uma alteração substancial. Esta diminuição temporária da elevação das montanhas criou uma janela de oportunidade para o rio Green. Ao encontrar uma rota mais acessível, o rio começou a erodir a rocha, estabelecendo um canal permanente. Mesmo após o gotejamento litosférico ter cessado e o terreno ter recuperado parte da sua altura original através de um processo de ressalto elástico, o canal do rio já estava firmemente estabelecido, permitindo que o Green River mantivesse o seu curso anómalo.
A evidência sísmica do fenómeno
Para validar a hipótese do gotejamento litosférico, a equipa de investigadores utilizou técnicas avançadas de imagem sísmica, comparáveis a uma tomografia computadorizada (TAC) aplicada à estrutura interna do planeta. Este “scanner” geológico permitiu-lhes detetar uma anomalia fria e circular a cerca de 200 quilómetros de profundidade, diretamente sob as montanhas Uinta. Esta estrutura, com um diâmetro que varia entre 50 e 100 quilómetros, é interpretada como o fragmento da crosta que se rompeu e afundou no manto, num evento que terá ocorrido entre dois e cinco milhões de anos atrás. A ausência deste material explica por que a crosta nesta região é vários quilómetros mais fina do que o que seria expectável para uma cadeia montanhosa desta altitude. A presença desta anomalia sísmica fornece uma prova robusta e direta do mecanismo proposto, solidificando a teoria do gotejamento litosférico como a explicação mais plausível para o percurso do rio Green.
Impacto abrangente e novos horizontes na geologia
A integração do rio Green no sistema do rio Colorado, desencadeada pelo gotejamento litosférico, transcendeu a mera alteração da paisagem. As suas ramificações foram profundas, remodelando as divisões geográficas e ecológicas de uma vasta porção do continente norte-americano.
Redefinindo fronteiras e a evolução biológica
A união dos dois rios não só redefiniu a topografia local, mas também teve um impacto direto na divisão continental da América do Norte. Alterou significativamente a fronteira entre as bacias hidrográficas que drenam para o Oceano Pacífico e aquelas que desaguam no Oceano Atlântico. Este realinhamento hidrológico teve consequências ecológicas notáveis, criando novas barreiras naturais para algumas espécies e, simultaneamente, abrindo novos corredores para outras. Tais mudanças influenciaram diretamente a distribuição da fauna e flora regionais e moldaram processos de evolução biológica que continuam a ser objeto de estudo nos dias de hoje, oferecendo um vislumbre da intrincada relação entre geologia e vida.
Uma peça-chave para desvendar outros mistérios
A pesquisa sobre o rio Green não só resolve um antigo enigma, como também rejeita categoricamente teorias anteriores que sugeriam que o rio existia antes das montanhas. A descoberta do papel crucial do gotejamento litosférico demonstra que, por vezes, as respostas para mistérios superficiais jazem a centenas de quilómetros abaixo dos nossos pés. Adam Smith e a sua equipa acreditam que uma compreensão mais aprofundada deste fenómeno geológico pode ser instrumental na resolução de outros debates tectónicos persistentes em várias regiões do planeta. Este estudo abre, assim, novos horizontes para a geologia, sublinhando a importância de olhar para o interior profundo da Terra para compreender as dinâmicas da sua superfície e a sua influência na história natural do nosso planeta.
Fonte: https://www.tempo.pt