IA e o cérebro: o impacto na cognição e no pensamento crítico

Meteored Portugal

A proliferação da inteligência artificial tem transformado inúmeros aspetos do nosso quotidiano, desde a forma como trabalhamos até à maneira como aprendemos. Com ferramentas como o ChatGPT a tornarem-se cada vez mais acessíveis e poderosas, surge um debate crucial sobre as suas implicações no desenvolvimento e na manutenção das nossas capacidades cognitivas. Estudos recentes têm vindo a lançar luz sobre esta questão complexa, sugerindo que a conveniência oferecida pela inteligência artificial pode ter um custo inesperado para o nosso cérebro. A preocupação central reside na possibilidade de uma externalização excessiva de tarefas mentais, o que, por sua vez, poderá diminuir a atividade cerebral associada ao processamento cognitivo, ao pensamento crítico e à resolução de problemas. Este cenário levanta questões urgentes sobre o futuro das competências humanas numa era dominada pela automatização inteligente, onde a eficiência nem sempre se alinha com o aprofundamento da aprendizagem.

O impacto da IA na atividade cerebral

Investigações recentes têm explorado como a interação com ferramentas de inteligência artificial afeta diretamente a atividade cerebral humana. Um estudo, cujos participantes foram recrutados em instituições de ensino de prestígio, revelou descobertas notáveis sobre o impacto da IA no processamento cognitivo. Os resultados sublinham uma preocupante diminuição na atividade associada a redes cerebrais cruciais para o pensamento e a aprendizagem quando os indivíduos recorrem a assistentes de IA para certas tarefas.

Menos esforço cognitivo e a questão das citações

A investigação, que envolveu a monitorização da atividade cerebral de 54 participantes através de eletroencefalografia (EEG) – uma técnica que regista a atividade elétrica do cérebro através de elétrodos colocados no couro cabeludo –, demonstrou que aqueles que utilizavam um chatbot de IA para redigir ensaios exibiam uma menor atividade nas redes cerebrais ligadas ao processamento cognitivo. Além disso, estes participantes revelaram maior dificuldade em gerar citações para os seus trabalhos, em comparação com os que não usaram a ferramenta de IA. Esta observação levou os investigadores a enfatizar a “necessidade urgente de explorar uma possível diminuição das capacidades de aprendizagem”. As tarefas atribuídas à IA incluíam resumos de questões de ensaio, pesquisa de fontes, aperfeiçoamento gramatical e estilístico, e até a geração de ideias, embora neste último ponto a satisfação dos utilizadores fosse mista. A conclusão aponta para um cenário onde a IA torna “demasiado fácil encontrar respostas”, potencialmente contornando o esforço cognitivo necessário para a aquisição profunda de conhecimento.

O risco da dependência e a diminuição de capacidades

A conveniência da inteligência artificial pode levar a uma dependência excessiva, com potenciais consequências negativas para as nossas capacidades de resolução de problemas e pensamento crítico. A questão não é se a IA melhora a eficiência, mas sim a que custo para as competências humanas essenciais.

Pensamento crítico e resolução de problemas sob escrutínio

Num estudo independente, realizado em parceria por uma prestigiada universidade norte-americana e uma gigante tecnológica que opera uma conhecida ferramenta de IA, foram inquiridos 319 profissionais de escritório que utilizavam ferramentas de IA semanalmente. A análise de 900 exemplos de tarefas atribuídas à IA – desde a análise de dados à verificação de conformidade – revelou que uma maior confiança na capacidade da ferramenta para executar uma tarefa estava diretamente relacionada com “um menor esforço de pensamento crítico e diminuição da capacidade de resolução independente de problemas”. Esta tendência verificou-se mesmo perante uma “melhoria da eficiência do trabalhador”. Os resultados sugerem que, embora a IA possa otimizar a produtividade, ela pode, paradoxalmente, minar a capacidade intrínseca do indivíduo de abordar desafios de forma autónoma e crítica. A explosão massiva da utilização de IA levanta, assim, a questão premente: estarão as nossas capacidades cognitivas em risco de declínio?

A atrofia cognitiva e o exemplo dos radiologistas

A Dr.ª Alexandra Tomescu, especialista em IA generativa, propõe uma visão mais matizada, referindo que a questão é complexa. Um inquérito conduzido pela Oxford University Press (OUP) no Reino Unido revelou que, embora 6 em cada 10 crianças em idade escolar sentissem que a IA tinha tido um impacto negativo nos seus trabalhos escolares, 9 em cada 10 estudantes afirmavam que a IA os ajudou a desenvolver pelo menos uma competência, seja na resolução de problemas, criatividade ou revisão. Contudo, cerca de um quarto admitiu que a IA tornou “demasiado fácil” fazer o trabalho, evidenciando um quadro “bastante matizado” e a necessidade de mais orientação.

O Professor Doutor Wayne Holmes, especialista em inteligência artificial e educação numa reconhecida universidade londrina, alerta para o conceito de atrofia cognitiva. Esta refere-se à deterioração das capacidades e competências humanas após um uso prolongado da IA. O professor Holmes cita o exemplo dos radiologistas, que, ao dependerem de ferramentas de IA para pré-analisar radiografias, podem ver as suas próprias capacidades de diagnóstico diminuir ao longo do tempo. Para o contexto educacional, ele receia que os estudantes possam tornar-se excessivamente dependentes da IA, perdendo oportunidades cruciais de desenvolvimento que a educação tradicional proporciona.

A perspetiva dos especialistas e o equilíbrio necessário

Diante dos desafios e oportunidades apresentados pela inteligência artificial, é fundamental ponderar as diversas perspetivas de especialistas e procurar um equilíbrio que maximize os benefícios enquanto mitiga os riscos.

Resultados melhores, mas aprendizagem pior?

A questão central levantada pelo Professor Holmes é perturbadora: a IA pode levar a que os estudantes obtenham notas melhores nos seus trabalhos, mas, em contrapartida, a sua aprendizagem real pode ser prejudicada. “Os seus resultados são melhores, mas na realidade a sua aprendizagem é pior”, afirma o professor. Esta dicotomia realça a necessidade de se investigar muito mais sobre os efeitos das ferramentas de IA na aprendizagem antes de se encorajar a sua utilização generalizada em contextos educativos. Holmes sublinha que, atualmente, “não existem provas independentes à escala da eficácia destas ferramentas na educação, nem da sua segurança, nem mesmo da ideia de que têm um impacto positivo”. A empresa que detém o ChatGPT, por exemplo, publicou um conjunto de sugestões para os estudantes, visando otimizar o uso da tecnologia, mas o Professor Holmes argumenta que isso não é suficiente sem uma base robusta de investigação académica.

IA como tutor, não como substituto

A equipa de educação internacional da OpenAI, a empresa por trás do ChatGPT, reconhece a importância deste debate. Em declarações, um porta-voz da empresa defendeu que os estudantes não devem usar o ChatGPT para “fazer trabalhos externos”. A visão da OpenAI é que a ferramenta deve ser empregue mais como um tutor interativo do que como um mero fornecedor de respostas prontas. Por outro lado, o Professor Holmes insiste que qualquer estudante que utilize ferramentas de IA deve compreender profundamente como funciona o seu raciocínio e como as empresas que as desenvolvem tratam os dados. É crucial, segundo ele, que os resultados gerados pela IA sejam sempre verificados. “Nunca digo aos meus alunos que não devem utilizar a IA…”, explica, “…mas o que tento dizer é que temos de compreender todas estas coisas diferentes para podermos tomar decisões informadas.” A chave, portanto, reside na literacia digital avançada e na capacidade de discernimento crítico sobre a informação e as soluções geradas pela inteligência artificial.

Conclusão

A crescente integração da inteligência artificial nas nossas vidas profissionais e académicas apresenta um cenário de dupla face. Se, por um lado, oferece ganhos inegáveis em eficiência e acesso à informação, por outro, levanta preocupações legítimas sobre o futuro das nossas capacidades cognitivas, do pensamento crítico e da resolução independente de problemas. Os estudos indicam uma possível diminuição da atividade cerebral e um risco de atrofia cognitiva em caso de dependência excessiva. Contudo, a visão dos especialistas sugere que o problema não reside na tecnologia em si, mas na forma como a utilizamos. A chave para navegar nesta nova era tecnológica reside na adoção de uma abordagem consciente e informada, onde a IA é vista como uma ferramenta de apoio e um tutor, e não como um substituto para o esforço intelectual e a aprendizagem profunda. É imperativo que tanto as instituições de ensino como os utilizadores individuais desenvolvam estratégias para fomentar o pensamento crítico e a literacia de IA, garantindo que esta tecnologia serve para potenciar as nossas mentes, e não para as atrofiar. O desafio é moldar uma coexistência onde a inteligência humana e artificial se complementam mutuamente, em vez de uma se sobrepor à outra.

FAQ

1. A utilização de ferramentas de IA prejudica sempre as nossas capacidades cognitivas?
Não necessariamente. Enquanto alguns estudos indicam uma diminuição da atividade cerebral em tarefas específicas e um risco de dependência que pode prejudicar o pensamento crítico, a IA também pode ajudar a desenvolver competências como a resolução de problemas, a criatividade e a revisão. O impacto depende muito de como a IA é utilizada.

2. Como posso utilizar a IA de forma a proteger e até melhorar o meu pensamento crítico?
É fundamental usar a IA como uma ferramenta de apoio ou um “tutor”, em vez de um substituto para o trabalho intelectual. Deve sempre verificar os factos, compreender o raciocínio por trás das respostas da IA e usá-la para gerar ideias ou refinar o seu trabalho, mas não para o realizar na totalidade. O esforço cognitivo independente continua a ser crucial.

3. Que tipo de investigações são necessárias sobre o impacto da IA na educação?
Os especialistas defendem a necessidade urgente de investigações académicas independentes e em larga escala sobre a eficácia e segurança das ferramentas de IA na educação. É preciso compreender melhor como estas ferramentas afetam a aprendizagem a longo prazo, se promovem um impacto positivo genuíno e como podem ser integradas de forma responsável para maximizar os benefícios educacionais sem comprometer o desenvolvimento cognitivo dos estudantes.

Mantenha-se informado sobre as últimas descobertas e melhores práticas no uso da inteligência artificial. Capacite-se com conhecimento para tomar decisões conscientes e garanta que a tecnologia serve o seu desenvolvimento pessoal e profissional.

Fonte: https://www.tempo.pt

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