Instabilidade Política e Pobreza Atingem a Região do Sahel

Cristina Mendonça

O Sahel, uma faixa territorial com uma largura que varia entre 500 e 700 quilómetros e uma extensão de 5.400 quilómetros, constitui uma zona de transição entre o deserto do Saara, a norte, e a savana sudanesa, a sul. Estendendo-se do Oceano Atlântico, a oeste, até ao Mar Vermelho, a leste, esta região atravessa diversos países africanos.

De oeste para leste, o Sahel abrange a Gâmbia, o Senegal, a porção meridional da Mauritânia, a zona central do Mali, o norte do Burquina Fasso, a parte sul da Argélia, o Níger, a zona setentrional da Nigéria e dos Camarões, a área central do Chade, o centro e o sul do Sudão, o norte do Sudão do Sul e a Eritreia. Por vezes, a Etiópia, o Djibuti e a Somália são também incluídos nesta definição.

Esta região representa uma transição entre as ecozonas paleoártica e afro-tropical, marcando a fronteira entre a aridez do Saara e a fertilidade da savana sudanesa. A paisagem fitogeográfica do Sahel é dominada por vegetação de estepes, com uma precipitação anual que varia entre 150 e 300 milímetros. Apesar destas condições, um “cinturão verde” composto por uma flora diversificada protege a região dos ventos do Saara.

O Sahel tem sofrido longos períodos de seca, nomeadamente entre 1968 e 1974, o que resultou numa grave crise de fome e motivou a criação do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, uma agência das Nações Unidas.

Historicamente, o Sahel foi palco de vários reinos africanos prósperos, que beneficiavam do comércio trans-saariano. No entanto, desde 2020, a região tem sido marcada por instabilidade política, com mais de oito golpes de Estado ou tentativas de golpe, principalmente no Mali, Burquina Fasso, Níger, Chade, Sudão e Guiné.

Apesar de abrigar mais de 150 milhões de pessoas, o Sahel contribui com menos de 3% para o Produto Interno Bruto (PIB) de África. Apesar das vastas reservas de recursos naturais, como o ouro no Mali, o urânio no Níger e o petróleo no Chade, muitos dos países da região figuram entre os piores no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. Mais de metade da população vive abaixo da linha da pobreza, e o desemprego juvenil oscila entre 30% e 40% em muitas áreas.

A presença de tropas estrangeiras, principalmente ocidentais, não conseguiu conter a crescente insegurança. A retirada de forças militares internacionais, como a Operação Barkhane da França e a missão de paz da ONU (Minusma), foi motivada por tensões políticas e desconfiança. Esta situação levou os países do Sahel a procurar novas parcerias, incluindo com a Rússia (através de grupos como o Africa Corps) e a China.

Cada golpe de Estado na região reflete uma revolta contra sistemas que falharam no desenvolvimento económico, no crescimento e na democracia. Novos regimes militares, adotando discursos de “soberania” e “anti-imperialismo”, rejeitam a influência estrangeira, mas enfrentam o risco de isolamento económico e sanções. Uma população jovem e inquieta questiona os modelos pós-coloniais e décadas de promessas não cumpridas.

O futuro do Sahel poderá envolver uma redefinição das alianças africanas, com mudanças na lealdade de potências tradicionais para novos atores globais, e uma transição da dependência para uma postura de maior autonomia.

Fonte: postal.pt

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