Inundações em Azambuja: Marcelo Rebelo de Sousa no terreno e o clamor

© PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP via Getty Images

Portugal tem sido palco de fenómenos meteorológicos extremos, com as recentes inundações a castigarem severamente várias regiões do país. A freguesia de Vila Nova da Rainha, no concelho da Azambuja, emergiu como um dos locais mais fustigados, onde 12 habitações foram subitamente engolidas pela subida das águas, levando ao realojamento de 17 pessoas. Neste cenário de emergência e desalento, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, deslocou-se ao terreno para testemunhar de perto a dimensão dos estragos e expressar solidariedade às comunidades afetadas. A sua presença visou não só o apoio moral, mas também a escuta ativa das preocupações e críticas dos moradores, que se debatem com perdas materiais significativas e a incerteza sobre o futuro, realçando a necessidade urgente de medidas preventivas eficazes.

A visita presidencial às zonas afetadas

Solidariedade e escuta em Vila Nova da Rainha

A chegada do Chefe de Estado a Vila Nova da Rainha, já sob a penumbra da noite, após uma paragem nos Paços do Concelho da Azambuja, foi recebida com uma notável demonstração de calor humano. Dezenas de pessoas aguardavam ansiosamente na rua, e Marcelo Rebelo de Sousa, no seu estilo caraterístico, dedicou-se a interagir com a população, distribuindo beijos e abraços e transmitindo uma mensagem de força e encorajamento para superarem a adversidade. Acompanhado pelo presidente da Câmara da Azambuja, o Presidente da República percorreu os vários pontos onde a fúria das águas invadiu as casas, ouvindo atentamente os relatos e os desabafos dos moradores.

Entre as muitas vozes, destacou-se a de um primeiro habitante que expressou a sua preocupação com a falta de limpeza do rio Ota. Contudo, as críticas mais veementes foram proferidas por Cláudio Silva, de 59 anos, cuja habitação foi severamente afetada, privando-o do seu lar. Num tom assertivo e visivelmente irritado, Cláudio Silva defendeu que “os rios deviam ser arranjados precocemente. Não é quando há um incêndio que vamos prevenir ou quando há uma cheia que vamos arranjar”, sublinhando a ausência de uma manutenção preventiva no rio Ota que pudesse minimizar os transbordos. Dirigindo-se diretamente ao autarca da Azambuja, o morador afirmou que o presidente da Câmara “sabe bem” o estado em que se encontram os rios Ota e Alenquer, que atravessam o concelho, e que “Vila Nova da Rainha merece muito mais atenção da autarquia”. Argumentou que, com a limpeza dos leitos, as inundações poderiam ocorrer, mas nunca com a dimensão catastrófica que agora se presenciava.

O impacto devastador nas habitações e na vida dos residentes

A intervenção do Exército foi célere na criação de barreiras de contenção, mas não foi suficiente para impedir que 12 habitações na freguesia fossem severamente afetadas pela subida repentina das águas, resultando no realojamento de 17 pessoas. O caso de Cláudio Silva é um exemplo pungente do impacto humano destas cheias. Morador há duas décadas em Vila Nova da Rainha, por gostar de ali viver, Cláudio jamais tinha presenciado um cenário semelhante. “Há pessoas que moram aqui há uma vida e nunca viram o rio desaguar para o rio Alenquer, era sempre o contrário”, frisou, enquanto elogiava o “trabalho incansável dos militares e dos bombeiros”.

A cheia, de natureza “repentina”, não deu tempo para os moradores salvarem os seus bens. Cláudio Silva manifestou particular preocupação com os estragos na sua habitação, requalificada há cerca de um ano, cujos prejuízos estima ascenderem a 40 mil euros. Para além do custo financeiro avultado, o morador confrontou o Presidente da República e o autarca com a questão premente de onde iria residir, ele e as outras famílias, “seguramente mais 30 dias com dignidade e privacidade”. Perante este apelo, o presidente da Câmara assegurou que seria encontrada uma solução para o realojamento temporário. Atento às queixas e demonstrando profunda solidariedade, Marcelo Rebelo de Sousa confessou ser testemunha da situação e, colocando-se no lugar do habitante, disse “imaginar o que está a sentir”, reconhecendo que “todos temos culpa, porque a prevenção é para se fazer. Temos de limpar e aprofundar os rios, porque o nosso cada vez está mais alto e mais água leva”.

O debate sobre a prevenção e a gestão dos rios

Queixas dos moradores e a responsabilidade da limpeza fluvial

A recorrência das inundações e a aparente falta de preparação levantaram questões sérias sobre a gestão dos recursos hídricos e as políticas de prevenção. As palavras de Cláudio Silva ressoaram com a frustração de muitos que observam a deterioração dos ecossistemas fluviais e as suas consequências. A insistência na limpeza “precocemente” e não apenas reativa, é um apelo claro à mudança de paradigma. A crítica ao autarca, de que este “sabe bem” a condição dos rios Ota e Alenquer, sugere uma perceção generalizada de inação ou insuficiência de medidas por parte das autoridades locais e centrais. A distinção que Cláudio Silva faz entre a ocorrência natural de inundações e a dimensão catastrófica das atuais, diretamente atribuída à falta de manutenção, sublinha a convicção de que grande parte dos danos poderia ter sido evitada. O testemunho de que, em vinte anos, o rio nunca tinha desaguar no Alenquer, mas sim o contrário, aponta para uma alteração significativa e preocupante no regime hídrico da região, possivelmente agravada pela sedimentação e pela ausência de dragagem. A solidariedade expressa por Marcelo Rebelo de Sousa, ao admitir uma “culpa” coletiva e a necessidade de “limpar e aprofundar os rios”, valida as preocupações dos moradores e coloca a questão da prevenção no topo da agenda pública.

A visão do autarca e a ação da Agência Portuguesa do Ambiente

Em resposta às críticas e à urgência de medidas, o presidente da Câmara da Azambuja defendeu que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) deveria adotar uma postura mais proativa e, até, “repressiva” em relação aos proprietários de terrenos que confinam com os rios. Segundo o autarca, a responsabilidade pela limpeza destas áreas, fora dos aglomerados urbanos, recai sobre os proprietários ribeirinhos. Esta posição levanta um debate complexo sobre a partilha de responsabilidades entre as entidades públicas – que gerem o domínio público hídrico e licenciam intervenções – e os privados, cujas propriedades se estendem até às margens. A sugestão de uma atitude mais “repressiva” por parte da APA indica a dificuldade em fazer cumprir as obrigações legais de manutenção por parte dos proprietários e a necessidade de mecanismos de fiscalização e sanção mais eficazes para garantir a desobstrução e a boa saúde dos leitos fluviais. A complexidade do quadro legal e a multiplicidade de intervenientes são frequentemente apontadas como entraves a uma gestão integrada e eficaz que previna cenários como os vividos na Azambuja.

Abrantes e o isolamento na freguesia de Valada

O Tejo inunda Abrantes e a difícil situação em Valada

A ronda presidencial por Santarém começou ao almoço em Abrantes, onde o rio Tejo transbordou e submergeu o parque de lazer na margem sul da cidade, um cenário que se repetiu em várias localidades ribeirinhas. De seguida, Marcelo Rebelo de Sousa dirigiu-se para o Cartaxo, no mesmo distrito, de onde prosseguiu de barco até à freguesia de Valada. Aqui, a situação revelava-se ainda mais crítica e complexa: cerca de seis centenas de pessoas, distribuídas por quatro aldeias – Valada, Reguengo de Valada, Porto de Muge e Palhota – encontravam-se isoladas desde quarta-feira, com as vias de acesso terrestre completamente submersas. A navegação tornou-se o único meio de ligação destas comunidades ao exterior, evidenciando a vulnerabilidade destas populações face a fenómenos extremos.

Esforços de apoio e ligação para comunidades isoladas

Perante o isolamento imposto pelas cheias, foram articulados esforços para garantir o apoio essencial às comunidades de Valada. Dois botes dos Bombeiros do Cartaxo foram mobilizados para assegurar, diariamente, o abastecimento de alimentos e medicamentos, uma tarefa crucial para a sobrevivência e bem-estar dos habitantes. Adicionalmente, e a partir de quinta-feira, a CP disponibilizou uma automotora, que passou a fazer a ligação entre Setil e Porto de Muge uma vez por dia, oferecendo uma via de acesso e saída vital para estas aldeias. Devido à limitação de lugares nas embarcações, o Chefe de Estado foi acompanhado apenas por repórteres de imagem, testemunhando em primeira mão o isolamento e as dificuldades enfrentadas pela população. Após o contacto com os moradores, Marcelo Rebelo de Sousa descreveu o estado de espírito da população como de “resistência e ânimo espetaculares”, uma prova da resiliência destas comunidades face à adversidade.

Perspetivas futuras e a resiliência das comunidades

As inundações que fustigaram o concelho da Azambuja e outras regiões do Ribatejo, com particular destaque para as freguesias de Vila Nova da Rainha e Valada, deixaram um rasto de destruição material e um profundo impacto na vida das populações. A visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ao terreno não só trouxe visibilidade à dimensão da catástrofe, mas também colocou em foco a urgência de uma discussão nacional sobre a prevenção de cheias e a gestão sustentável dos rios. As queixas dos moradores, validas e carregadas de experiência local, apontam para a necessidade premente de intervenções de limpeza e dragagem dos leitos fluviais, medidas que, segundo a comunidade, poderiam mitigar significativamente os efeitos devastadores de futuras cheias. A complexidade da responsabilidade partilhada entre entidades públicas e proprietários privados exige uma coordenação mais eficaz e, quiçá, uma reavaliação das políticas existentes para garantir que a manutenção dos rios seja uma prioridade contínua e não apenas uma reação a emergências. A resiliência demonstrada pelas comunidades afetadas, que, apesar das perdas e do isolamento, mantêm um “espírito de resistência e ânimo espetaculares”, serve de inspiração e reforça a convicção de que, com a devida atenção e investimento em prevenção, é possível construir um futuro mais seguro e adaptado aos desafios climáticos.

Fonte: https://www.noticiasaominuto.com

Related posts

Tumores malignos tornam-se principal causa de morte na Madeira

Parlamento rejeita proposta do IL sobre concentração de casos AIMA no TACL

Irão aceita não armazenar urânio enriquecido em avanço diplomático