Irão: Catorze noites de protestos e crescente bloqueio de informação

UGC via AP

Os protestos anti-governamentais têm abalado o Irão por catorze noites consecutivas, marcando um dos períodos mais intensos de agitação civil que o país testemunhou nas últimas décadas. Esta onda de contestação, desencadeada pela morte de Mahsa Amini, uma jovem curda iraniana de 22 anos sob custódia da polícia de moralidade, transformou-se num desafio direto ao regime teocrático. No entanto, à medida que a resistência popular se intensifica, a quantidade de informação, imagens e vídeos que conseguem atravessar as fronteiras e chegar aos olhos do público global tem diminuído drasticamente. O controlo estatal sobre a internet e as redes sociais tem sido reforçado, dificultando a monitorização externa dos acontecimentos e a coordenação interna dos manifestantes. Este cenário de escuridão informativa aumenta a preocupação internacional sobre a escala da repressão e o destino dos cidadãos iranianos que clamam por mudanças fundamentais.

A persistência dos protestos e a sua origem

O catalisador: a morte de Mahsa Amini

A génese desta vaga de protestos radica no trágico falecimento de Mahsa Amini, uma mulher curda-iraniana detida em Teerão pela Gasht-e Ershad, a infame polícia de moralidade, a 13 de setembro. Amini foi detida por alegadamente não usar o hijab (véu islâmico) de acordo com as rígidas regras impostas pelo regime iraniano. Três dias depois, Mahsa morreria num hospital, com as autoridades a atribuírem a causa a um ataque cardíaco. Contudo, a sua família e muitos ativistas alegam que a jovem foi vítima de violência policial, tese sustentada por relatórios que indicam traumatismo craniano e evidências de agressão. A sua morte não foi apenas um incidente isolado, mas sim a faísca que acendeu a indignação latente de uma população cansada de décadas de opressão e controlo estatal sobre as liberdades individuais, em particular as das mulheres. A brutalidade percebida na sua detenção e morte simbolizou a injustiça e a arbitrariedade da polícia de moralidade, que há muito tempo é vista como um instrumento de repressão.

Escalada e abrangência dos movimentos

O funeral de Mahsa Amini, na sua cidade natal de Saqqez, na província do Curdistão, foi o ponto de ignição. As mulheres presentes removeram e queimaram os seus hijabs em desafio público, um ato de coragem que rapidamente se espalhou por todo o país. Em poucas horas, as manifestações irromperam em diversas cidades, incluindo a capital, Teerão, bem como Mashhad, Shiraz, Isfahan, Qom e Rasht. A natureza dos protestos transcendeu as barreiras demográficas e geográficas. Embora inicialmente liderados por mulheres e jovens, rapidamente se juntaram a eles estudantes universitários, trabalhadores, ativistas de direitos humanos e cidadãos de todas as esferas da vida, incluindo minorias étnicas e religiosas. Os cânticos de “Mulher, Vida, Liberdade” e “Morte ao Ditador” tornaram-se os gritos de guerra de um movimento que exige não apenas o fim da obrigatoriedade do hijab, mas também uma mudança política mais profunda. A amplitude geográfica e a participação diversificada dos protestos sublinham a profundidade do descontentamento social e a insatisfação generalizada com o atual sistema.

A resposta do regime e o controlo da narrativa

Repressão e violência estatal

A resposta do regime iraniano à escalada dos protestos tem sido implacável e brutal. As forças de segurança, incluindo a polícia anti-motim e a Guarda Revolucionária Islâmica, têm empregado uma violência significativa para dispersar os manifestantes. Relatos de organizações de direitos humanos e de testemunhas oculares indicam o uso de gás lacrimogéneo, canhões de água e, em muitos casos, munições reais contra a população. O número de mortos e feridos tem vindo a aumentar, com estimativas a variar, mas todas a apontar para dezenas de vítimas mortais e centenas de feridos. Paralelamente à violência física, tem-se assistido a uma vaga de detenções em massa. Milhares de pessoas, incluindo estudantes, jornalistas, advogados, ativistas e figuras públicas, foram detidas, muitas das quais em condições desconhecidas e sem acesso a representação legal. Esta estratégia visa intimidar a população, desmantelar a organização dos protestos e silenciar qualquer voz crítica que possa emergir.

O bloqueio da informação e a internet

Para além da repressão física, o regime iraniano tem investido fortemente no controlo da informação. A diminuição drástica de imagens e vídeos a chegarem ao exterior não é acidental, mas sim o resultado de uma estratégia deliberada de censura e bloqueio. As autoridades iranianas impuseram restrições severas ao acesso à internet, em particular a plataformas de redes sociais cruciais para a comunicação e organização dos protestos, como o Instagram e o WhatsApp. O acesso a outras redes como o TikTok e o YouTube já era limitado. Os cortes de internet generalizados, muitas vezes à noite, visam dificultar a partilha de informações sobre a repressão, impedir a coordenação entre os manifestantes e controlar a narrativa tanto a nível interno quanto externo. Embora muitos iranianos utilizem VPNs e outras ferramentas para contornar estas restrições, a sua eficácia é limitada e o acesso constante é um desafio. Esta “cortina digital” impede que o mundo veja a verdadeira extensão da violência estatal e a resiliência dos protestos, ao mesmo tempo que desmoraliza os manifestantes e dificulta a sua capacidade de se organizarem eficazmente.

O impacto e as reações internacionais

Consequências internas e desafios para o regime

A onda de protestos representa um dos maiores desafios à legitimidade e estabilidade do regime iraniano desde a Revolução Islâmica de 1979. A economia do país já se encontra sob pressão devido a sanções internacionais e má gestão interna, e a agitação social agrava esta situação. A repressão violenta e o bloqueio da internet arriscam alienar ainda mais a população e aprofundar as divisões internas. A persistência dos protestos, apesar da brutalidade da resposta estatal, sugere uma determinação popular que o regime não pode ignorar indefinidamente. As reivindicações vão além de reformas superficiais, apontando para uma exigência de mudança sistémica, o que coloca o governo numa encruzilhada: ceder a algumas exigências e arriscar perder controlo, ou intensificar a repressão e enfrentar a condenação internacional e uma possível escalada de violência interna.

A condenação global e a solidariedade

A comunidade internacional tem reagido aos acontecimentos no Irão com crescente preocupação e condenação. Organizações como as Nações Unidas, a União Europeia e governos de vários países expressaram a sua condenação à repressão violenta e às violações dos direitos humanos. Foram emitidos apelos para que o Irão respeite o direito de reunião pacífica e a liberdade de expressão, e para que seja realizada uma investigação independente sobre a morte de Mahsa Amini. Vários países também impuseram sanções adicionais a indivíduos e entidades iranianas ligadas à repressão. A nível popular, manifestações de solidariedade com o povo iraniano, especialmente com as mulheres, têm ocorrido em cidades por todo o mundo, sublinhando a natureza universal da luta por direitos e liberdades. Esta pressão internacional, embora nem sempre resulte em mudanças imediatas, desempenha um papel crucial ao manter os holofotes sobre a situação e ao dificultar que o regime opere na impunidade.

Perspetivas futuras e o apelo à ação

A situação no Irão permanece tensa e volátil. Por catorze noites consecutivas, os cidadãos iranianos têm demonstrado uma coragem notável ao desafiar um regime autoritário, apesar do risco iminente de violência e detenção. A persistência destes protestos, juntamente com a crescente dificuldade em obter informações independentes, realça a urgência de manter a atenção internacional sobre o Irão. A capacidade do regime de controlar a informação através de cortes de internet é um lembrete sombrio da importância da liberdade de imprensa e do acesso desimpedido à comunicação. O desfecho desta onda de contestação é incerto, mas é inegável que marca um ponto de viragem na história recente do Irão, com as suas consequências a serem sentidas por muito tempo.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que despoletou os protestos anti-governamentais no Irão?
Os protestos foram desencadeados pela morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos que faleceu sob custódia da polícia de moralidade iraniana, após ter sido detida por alegadamente não usar o hijab de forma adequada. A sua morte gerou uma onda de indignação generalizada sobre a repressão das mulheres e as liberdades civis.

Quais são as principais exigências dos manifestantes iranianos?
As exigências dos manifestantes são multifacetadas, mas centram-se na busca por maior liberdade individual, no fim da obrigatoriedade do hijab, e na responsabilização da polícia de moralidade. Muitos protestos também incluem cânticos que apelam a mudanças políticas mais profundas, incluindo o fim do atual regime teocrático.

Como está o governo iraniano a responder aos protestos?
O governo iraniano tem respondido com uma forte repressão, utilizando força policial, gás lacrimogéneo e munições reais para dispersar os manifestantes. Centenas de pessoas foram detidas e há registo de dezenas de mortos. Além disso, as autoridades têm implementado cortes generalizados de internet e restrições a redes sociais para controlar a informação e dificultar a organização dos protestos.

Qual tem sido a reação da comunidade internacional?
A comunidade internacional tem condenado amplamente a repressão violenta dos protestos e as violações dos direitos humanos no Irão. Organizações como a ONU e a UE, juntamente com governos de vários países, apelaram ao respeito pelos direitos fundamentais e à abertura de investigações independentes. Alguns países também impuseram novas sanções contra o regime iraniano.

Para uma compreensão mais aprofundada dos desenvolvimentos em curso e para apoiar os esforços de defesa dos direitos humanos no Irão, é fundamental manter-se informado através de fontes de notícias independentes e apoiar organizações que monitorizam a situação no terreno.

Fonte: https://www.euronews.com

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