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Irão: dezenas de manifestantes mortos em ondas de protesto

Por Portugal 24 Horas

Desde o final do mês passado, o Irão tem sido palco de uma onda de protestos que se espalhou por várias cidades do país, agitando a nação com uma intensidade e persistência notáveis. A crise, que começou como uma resposta à morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade, rapidamente evoluiu para um movimento mais amplo contra o regime e as suas políticas. Estes protestos no Irão têm sido marcados por confrontos violentos entre manifestantes e forças de segurança, resultando num balanço trágico de vítimas mortais. Relatos recentes indicam que pelo menos 45 manifestantes perderam a vida, um número que sublinha a gravidade da situação e a repressão exercida pelas autoridades. A comunidade internacional observa com crescente preocupação a escalada da violência e a deterioração da situação dos direitos humanos no país.

A origem e a escalada da revolta

O catalisador: a morte de Mahsa Amini

A centelha para os atuais protestos no Irão foi a trágica morte de Mahsa Amini, uma jovem curda de 22 anos, no dia 16 de setembro. Amini foi detida pela polícia da moralidade em Teerão por alegadamente não usar o hijab (véu islâmico) de forma “adequada”. Três dias após a sua detenção, a jovem entrou em coma e morreu num hospital, com a sua família a alegar que tinha sido espancada enquanto estava sob custódia, uma acusação que as autoridades iranianas negam, atribuindo a morte a problemas de saúde preexistentes. No entanto, este incidente acendeu um rastilho de indignação generalizada, desencadeando manifestações inicialmente focadas nos direitos das mulheres e na obrigatoriedade do uso do hijab, mas que rapidamente se transformaram num clamor por mudanças mais profundas. A raiva latente contra o sistema e a falta de liberdades intensificou-se, transformando a morte de Amini num símbolo da repressão estatal.

Reivindicações e amplitude dos protestos

O que começou como um movimento de luto e revolta pela morte de Mahsa Amini expandiu-se rapidamente, abrangendo uma vasta gama de queixas sociais, económicas e políticas. Os manifestantes, que incluem estudantes, mulheres, jovens e diversas faixas da sociedade, exigem o fim da polícia da moralidade, o direito à liberdade de expressão e de vestuário, e até mesmo a queda do líder supremo, Ali Khamenei. Os slogans “Mulher, Vida, Liberdade” tornaram-se o hino dos manifestantes, ecoando por cidades como Teerão, Mashhad, Isfahan, Tabriz e as regiões curdas, onde a revolta tem sido particularmente intensa. As manifestações, inicialmente pacíficas, evoluíram para confrontos com as forças de segurança, que têm respondido com violência, gás lacrimogéneo e balas, elevando significativamente o número de manifestantes mortos no Irão. Esta escalada demonstra a determinação dos manifestantes em enfrentar a repressão e a recusa do regime em ceder às exigências populares.

A resposta do regime iraniano

Repressão, detenções e censura

A resposta do regime iraniano aos protestos tem sido implacável e multifacetada, combinando repressão física com controlo da informação. As forças de segurança, incluindo a polícia, os Bassidjis (milícia paramilitar) e a Guarda Revolucionária, foram destacadas para reprimir as manifestações com extrema brutalidade. Milhares de pessoas foram detidas em todo o país, incluindo jornalistas, ativistas e estudantes, numa tentativa de silenciar a dissidência. Muitos relatos dão conta de detenções arbitrárias e alegadas torturas nas prisões, alimentando as preocupações com os direitos humanos. Paralelamente à repressão nas ruas, o regime impôs restrições severas na internet e nas redes sociais, cortando o acesso a plataformas como o Instagram e o WhatsApp, numa clara tentativa de impedir a organização dos manifestantes e a divulgação de imagens e informações sobre a violência. Esta censura visa controlar a narrativa e minimizar a perceção da dimensão e da gravidade da crise no Irão.

O papel das forças de segurança

As forças de segurança iranianas desempenham um papel central na manutenção da ordem e na supressão de qualquer forma de oposição ao regime. Desde o início dos protestos, a sua presença nas ruas tem sido maciça e a sua atuação, frequentemente criticada por organizações de direitos humanos, caracterizada por métodos violentos. Relatos e vídeos divulgados, apesar da censura, mostram agentes a usar bastões, gás lacrimogéneo e, em alguns casos, armamento letal contra a população desarmada. A impunidade de que gozam estas forças, aliada a um histórico de repressão violenta de manifestações anteriores, contribui para a escalada de mortes e feridos. A liderança iraniana tem justificado estas ações como necessárias para manter a segurança nacional e combater o que descreve como “motins” orquestrados por forças estrangeiras, uma narrativa que é rejeitada pelos manifestantes e pela maioria da comunidade internacional.

O impacto humanitário e a condenação internacional

O balanço de vítimas e os direitos humanos

O impacto humanitário dos protestos no Irão é alarmante. Para além dos pelo menos 45 manifestantes mortos, conforme dados recolhidos por várias fontes fidedignas, centenas ficaram feridos e milhares foram detidos. Entre as vítimas mortais e os feridos encontram-se também membros das forças de segurança, o que demonstra a natureza volátil dos confrontos. A repressão tem sido particularmente severa nas regiões curdas e noutras áreas onde as minorias étnicas residem, exacerbando as tensões existentes. As organizações de direitos humanos têm alertado para o uso desproporcionado da força contra civis, a negação de assistência médica aos feridos e as condições desumanas nas prisões. A escala das violações dos direitos humanos levanta sérias preocupações e exige uma investigação independente e transparente, algo que o regime iraniano tem consistentemente recusado.

Reações da comunidade internacional

A comunidade internacional tem reagido aos eventos no Irão com uma mistura de condenação e apelos à contenção. Governos de países ocidentais, a União Europeia e as Nações Unidas expressaram profunda preocupação com a morte de Mahsa Amini e a violência contra os manifestantes. Várias sanções foram impostas a indivíduos e entidades iranianas responsáveis pela repressão, visando pressionar o regime a respeitar os direitos humanos. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, apelou a uma investigação imparcial e independente sobre as mortes em custódia e a repressão dos protestos. No entanto, a eficácia destas condenações e sanções é questionada, dada a intransigência do regime iraniano em relação à sua política interna e a sua resistência a pressões externas. A atenção global permanece focada na evolução da crise no Irão, com a esperança de que a situação não se deteriore ainda mais.

Consequências e o futuro

A onda de protestos no Irão representa um dos maiores desafios internos para o regime nos últimos anos. A persistência das manifestações, apesar da repressão violenta e do elevado número de manifestantes mortos no Irão, sugere uma profunda insatisfação social que vai além das questões pontuais. O futuro do Irão é incerto, mas a atual crise poderá ter consequências significativas a longo prazo para a estabilidade política e social do país. A intransigência do regime em lidar com as exigências dos manifestantes e a sua contínua aposta na repressão arriscam aprofundar o fosso entre o governo e a população. A escalada da violência, as detenções em massa e a censura criam um ambiente de tensão que dificilmente será revertido sem mudanças substanciais. A comunidade internacional continuará a monitorizar de perto a situação, enquanto o povo iraniano procura a sua voz e os seus direitos num cenário de grande instabilidade.

FAQ

O que desencadeou os recentes protestos no Irão?
Os protestos foram desencadeados pela morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos, sob custódia da polícia da moralidade, após ser detida por alegadamente usar o hijab de forma inadequada.

Quantos manifestantes terão morrido desde o início das manifestações?
Dados recentes indicam que pelo menos 45 manifestantes perderam a vida em confrontos com as forças de segurança desde o início dos protestos, no final do mês passado.

Qual tem sido a resposta do governo iraniano aos protestos?
O governo iraniano tem respondido com uma repressão violenta, que inclui o uso de força letal, detenções em massa de manifestantes e ativistas, e severas restrições ao acesso à internet e às redes sociais para controlar a informação.

Para mais informações sobre a situação dos direitos humanos no Irão e para apoiar os esforços de monitorização, consulte as principais organizações internacionais de defesa dos direitos humanos.

Fonte: https://sapo.pt

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