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José: o reformado de 75 anos que regressou ao trabalho por paixão

Por Portugal 24 Horas

Num contexto em que o regresso ao trabalho na reforma se tornou uma realidade comum para muitos portugueses e espanhóis, impulsionado maioritariamente por imperativos económicos, a história de José surge como um notável contraste. Este homem, com 75 anos, residente em Pontevedra, na Galiza, Espanha, decidiu regressar à sua cafetaria após apenas quatro meses de inatividade, não por necessidade financeira, mas por um profundo mal-estar emocional e pela incapacidade de se adaptar à vida longe do balcão. A sua vivência lança luz sobre uma dimensão frequentemente negligenciada da reforma: a importância do propósito, da rotina e do contacto social para o bem-estar mental e físico, desafiando a percepção tradicional de que a reforma é, por definição, um período de descanso ansiado e libertador. A história de José sublinha que, para alguns, o trabalho é uma fonte vital de identidade e realização.

A experiência de uma reforma inesperadamente penosa

José, um empresário com décadas de experiência na gestão da sua própria cafetaria em Pontevedra, tinha uma vida pautada pela rotina e pela interação constante com os seus clientes. Ao atingir a idade da reforma, decidiu afastar-se do negócio, esperando desfrutar de um merecido descanso. Contudo, o que se seguiu foram apenas quatro meses de profunda insatisfação e depressão. A ausência do ritmo diário, do burburinho da cafetaria e do convívio com os habituais frequentadores transformaram o seu dia a dia numa experiência desoladora.

O impacto do ócio forçado no bem-estar

Para José, o ócio não se revelou uma bênção, mas sim um fardo. Sentiu-se subitamente desprovido de propósito, uma sensação que se agravou com a falta de uma rotina estruturada. “Estive apenas quatro meses reformado e sentia-me deprimido e aborrecido”, partilhou. Este sentimento de desânimo foi tão profundo que o levou a passar dias inteiros deitado, mergulhado num estado de letargia que afetou o seu bem-estar físico e mental. A mudança drástica de um estilo de vida ativo para uma inatividade quase total foi demasiado brusca, expondo a sua vulnerabilidade a um cenário para o qual não estava preparado. A identidade de José estava intrinsecamente ligada à sua profissão e ao seu papel na comunidade, e a reforma retirou-lhe essa componente essencial. Este período de afastamento do trabalho revelou-se, paradoxalmente, mais exaustivo e prejudicial do que os anos de labuta.

O regresso à atividade e o resgate da vitalidade

A percepção de que a reforma estava a minar a sua saúde e alegria de viver levou José a uma decisão drástica e inspiradora. Consciente de que o problema não era financeiro, mas existencial, optou por suspender o recebimento da sua pensão e reativar a sua inscrição como trabalhador independente. Esta ação permitiu-lhe reabrir a sua cafetaria e reassumir o seu lugar atrás do balcão, servindo cafés e pequenos-almoços, tal como fizera durante décadas. A decisão foi, para ele, um verdadeiro regresso à normalidade e à vitalidade.

O trabalho como fonte de propósito e ligação social

O retorno ao trabalho não representou apenas uma recuperação de rotina, mas uma redescoberta de propósito e uma reafirmação da sua identidade. O contacto diário com os clientes, muitos dos quais se tornaram amigos ao longo dos anos, preenche um vazio que o isolamento da reforma havia criado. As conversas, as tarefas diárias e a responsabilidade de gerir o seu negócio devolveram a José a energia e a motivação que sentia ter perdido. “Vou trabalhar até não conseguir mais”, afirmou com determinação, sublinhando que apenas uma grave questão de saúde o afastaria novamente do seu balcão. A sua história é um poderoso testemunho de como a atividade profissional, para além da vertente económica, pode ser um pilar fundamental para a saúde mental, a autonomia e o sentido de utilidade, especialmente numa fase avançada da vida.

O enquadramento legal e a realidade do trabalho na reforma

A decisão de José de suspender a sua pensão para regressar à atividade profissional é permitida pela legislação espanhola, que oferece diversas modalidades para conciliar trabalho e reforma.

A flexibilidade legal em Espanha e a tendência em Portugal

Em Espanha, a idade legal da reforma está atualmente fixada nos 66 anos e oito meses para quem não reúne pelo menos 38 anos e três meses de descontos. Contudo, o sistema prevê flexibilidade. Uma das opções é a reforma parcial, que permite a combinação de um emprego a tempo parcial com o recebimento de uma parte proporcional da pensão. Neste regime, um trabalhador pode reduzir o seu horário entre 25% e 75%, recebendo a percentagem correspondente da prestação da segurança social. Durante este período, continua a efetuar descontos como se estivesse a trabalhar a tempo completo, assegurando a totalidade da pensão no final. Esta flexibilidade legal é crucial para situações como a de José, mas também para aqueles que, por necessidade económica ou desejo de manter um nível de atividade, procuram formas de prolongar a sua vida profissional.

Em Portugal, o cenário é semelhante, embora com particularidades. O regresso de reformados ao mercado de trabalho tem sido uma tendência crescente, impulsionada quer por dificuldades financeiras perante o aumento do custo de vida, quer pela procura de manutenção de uma rotina ativa e de um sentido de propósito. Tal como no caso de José, há cada vez mais exemplos de reformados que, mesmo com pensões razoáveis, optam por continuar a trabalhar para evitar o isolamento, combater o tédio e preservar a sua autonomia e saúde mental, demonstrando uma mudança na percepção do que significa “reformar-se” nos tempos modernos. A sociedade portuguesa, tal como a espanhola, enfrenta o desafio de otimizar a integração dos seniores no mercado de trabalho, reconhecendo o seu valor e experiência.

Conclusão

A história de José, o homem de 75 anos de Pontevedra que trocou a reforma pelo balcão da sua cafetaria, oferece uma perspetiva valiosa e refrescante sobre o envelhecimento ativo e o significado do trabalho. Longe das motivações financeiras que levam muitos a regressar ao mercado laboral, o seu caso sublinha a profunda ligação entre a atividade profissional, o bem-estar emocional e a manutenção de um sentido de propósito. José é um exemplo claro de que a reforma, para alguns, pode ser mais uma fonte de melancolia do que de felicidade, e que a continuidade de uma rotina ativa e de interações sociais é um antídoto poderoso contra o isolamento e a depressão. A sua determinação em trabalhar “até não conseguir mais” é um convite à reflexão sobre como as sociedades podem e devem valorizar a experiência e a vitalidade dos seus seniores, promovendo ambientes que permitam a cada indivíduo encontrar o seu próprio caminho para um envelhecimento pleno e ativo, seja no trabalho ou noutras atividades significativas.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Qual foi o principal motivo de José para regressar ao trabalho?
José regressou ao trabalho não por necessidade financeira, mas por um profundo mal-estar emocional, tédio e depressão que sentiu durante os quatro meses de reforma. A falta de rotina, propósito e contacto social afetou gravemente o seu bem-estar.

2. A reforma parcial é uma opção em Espanha?
Sim, a legislação espanhola permite a reforma parcial, um regime que possibilita combinar um emprego a tempo parcial (redução entre 25% e 75% do horário) com o recebimento de uma parte proporcional da pensão. O trabalhador continua a efetuar descontos.

3. É comum ver reformados a regressar ao trabalho em Portugal?
Sim, tem-se tornado cada vez mais comum em Portugal, tanto por razões económicas, dadas as dificuldades em face do custo de vida, como por motivos não financeiros, como a necessidade de manter uma rotina ativa, evitar o isolamento e preservar a autonomia e saúde mental.

Descubra mais sobre como o envelhecimento ativo e a continuidade da vida profissional podem transformar a sua perspetiva sobre a reforma. Partilhe a sua opinião nos comentários abaixo.

Fonte: https://postal.pt

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