Kiribati: o único país nos quatro hemisférios da Terra.

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Kiribati, um nome que talvez evoque mistério para muitos, distingue-se de forma notável no mapa-mundo pela sua configuração geográfica sem paralelo. Este arquipélago remoto, disperso pelo Oceano Pacífico central, detém o estatuto singular de ser o único país cuja própria massa terrestre se estende simultaneamente pelos quatro hemisférios do nosso planeta: Norte, Sul, Leste e Oeste. Uma verdadeira anomalia geográfica, a sua existência desafia as percepções comuns sobre fronteiras e localização, convidando a uma exploração aprofundada das complexas linhas imaginárias que dividem a Terra. A sua posição única é o resultado da intersecção de dois eixos fundamentais que separam o globo terrestre, colocando Kiribati numa categoria própria entre as nações, demonstrando a fascinante diversidade do nosso mundo e as particularidades que moldam cada território.

A particularidade geográfica de Kiribati

A Terra, enquanto esfera, é convencionalmente dividida por linhas imaginárias que facilitam a navegação e a compreensão geográfica. Duas destas linhas são de especial relevância para o caso de Kiribati. A mais conhecida é a linha do Equador, que cinge o globo terrestre e o divide em duas metades horizontais: o Hemisfério Norte e o Hemisfério Sul. Complementarmente, o Meridiano de Greenwich, que passa por Londres, e o seu antimeridiano, o Meridiano de 180°, dividem a Terra verticalmente, criando o Hemisfério Ocidental (a oeste de Greenwich até ao meridiano de 180°) e o Hemisfério Oriental (a leste de Greenwich até ao meridiano de 180°).

A intersecção dos hemisférios

A intersecção destas duas divisões principais — Norte/Sul e Leste/Oeste — dá origem a quatro quadrantes distintos no globo: o quadrante Nordeste (NE), Noroeste (NW), Sudeste (SE) e Sudoeste (SW). A maioria dos países ocupa um ou, no máximo, dois destes quadrantes, dada a sua extensão geográfica e a sua localização. Contudo, Kiribati destaca-se precisamente por ter parcelas do seu território em todos os quatro quadrantes. Esta rara condição deve-se à forma como as suas ilhas estão dispersas e à sua localização estratégica, de forma a que tanto a linha do Equador como o Meridiano de 180° atravessam o arquipélago.

Para que um país se encontre nos quatro hemisférios, é imperativo que seja cortado tanto pelo Equador (para ter terras no Norte e no Sul) como pelo Meridiano de 180° (para ter terras no Leste e no Oeste). Kiribati é o único país soberano que cumpre esta exigência estritamente com o seu território contínuo e próprio. A linha do Equador passa por várias das suas ilhas, nomeadamente nas Ilhas Gilbert e Ilhas da Linha, enquanto o Meridiano de 180°, por sua vez, também atravessa o seu vasto território marítimo e algumas das suas ilhas mais a leste. Esta dupla transição coloca Kiribati numa categoria geográfica singular, tornando-o um estudo de caso fascinante para geógrafos e entusiastas da cartografia.

A vasta dispersão de um arquipélago

Kiribati não é um território compacto; pelo contrário, é um arquipélago formado por 33 atóis e ilhas coralinas, largamente dispersos pelo Oceano Pacífico central. Embora a sua massa terrestre somada seja relativamente pequena, cerca de 811 km², a área oceânica que abrange é gigantesca, estendendo-se por aproximadamente 3,5 milhões de quilómetros quadrados. Esta extensão marítima, que é maior do que muitos países continentais, é a chave para a sua distribuição hemisférica única.

Kiribati e as suas ilhas no Pacífico

O país está geograficamente dividido em três grupos principais de ilhas: as Ilhas Gilbert, as Ilhas Phoenix e as Ilhas da Linha. As Ilhas Gilbert, onde se localiza a capital, Tarawa, situam-se mais a oeste e são atravessadas pelo Equador. As Ilhas Phoenix, mais centrais, são conhecidas pela sua área marinha protegida, um Património Mundial da UNESCO. Por fim, as Ilhas da Linha, as mais a leste, são as que se aproximam e são atravessadas pelo Meridiano de 180°, incluindo o atol de Kiritimati, a maior ilha de coral do mundo. A combinação da localização destas ilhas em relação às linhas imaginárias é o que permite a Kiribati ter território no Hemisfério Norte, Sul, Oriental e Ocidental.

É crucial fazer uma distinção entre Kiribati e outros países que, através de territórios ultramarinos ou dependências, podem ter presença em todos os hemisférios. Nações como a França, o Reino Unido ou os Estados Unidos possuem uma vasta rede de territórios espalhados pelo globo, que se somados, cobririam os quatro quadrantes. No entanto, quando se considera apenas o território contínuo e soberano de um país, Kiribati é o único que atravessa literalmente os quatro hemisférios sem depender de autonomias ou dependências administrativas para o conseguir. Esta é uma particularidade que reforça a sua singularidade no panorama geográfico mundial.

Desafios e riqueza cultural de um povo insular

Para além da sua posição geográfica excecional, Kiribati apresenta outras características notáveis que moldam a vida dos seus habitantes. É um dos países mais isolados do mundo, com uma economia e uma vida cultural que estão intrinsecamente ligadas ao oceano. A pesca, a navegação e a exploração dos recursos marinhos são pilares fundamentais da subsistência e da identidade I-Kiribati.

Viver entre o mar e a ameaça climática

Os desafios ambientais são particularmente prementes para Kiribati. Sendo um país composto maioritariamente por atóis de baixa elevação, o aumento do nível do mar, impulsionado pelas alterações climáticas globais, representa uma ameaça existencial. Muitas ilhas correm o risco de serem submersas ou de se tornarem inabitáveis devido à intrusão de água salgada nos solos e lençóis freáticos, que contamina as escassas reservas de água doce. A necessidade de desenvolver estratégias de adaptação e, em alguns casos, considerar a eventual relocalização de comunidades, é uma realidade sombria e urgente para o povo I-Kiribati.

Culturalmente, os I-Kiribati mantêm tradições marítimas fortes e vibrantes. A construção e o uso de canoas tradicionais para a pesca e para as celebrações comunitárias, a transmissão oral de histórias e mitos ligados ao mar, e a resiliência face aos desafios do ambiente insular são aspetos centrais da sua identidade. A sua sabedoria ancestral sobre o oceano e a natureza é um testemunho da profunda ligação entre o povo e o seu território.

Um exemplo de resiliência e singularidade

A geografia do nosso planeta está repleta de factos surpreendentes e Kiribati é, sem dúvida, um dos mais notáveis. A sua vasta distribuição de ilhas, que se estende por todos os quatro hemisférios da Terra, não é apenas uma curiosidade cartográfica; é um lembrete da diversidade e da complexidade que moldam as nações. Este pequeno país insular, apesar da sua reduzida massa terrestre, demonstra uma “imensidão” geográfica que desafia as noções convencionais de localização e fronteiras.

Ao mesmo tempo que celebra a sua posição singular, Kiribati enfrenta desafios monumentais. A sua fragilidade perante as mudanças climáticas globais é uma realidade que apela à atenção internacional e à solidariedade. A história e o futuro de Kiribati são um testemunho da capacidade humana de adaptação e da importância de preservar a singularidade cultural e ambiental dos povos insulares. A sua existência sublinha a beleza da diversidade geográfica do nosso planeta e a necessidade urgente de proteger os seus ecossistemas mais vulneráveis.

Fonte: https://www.tempo.pt

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