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LaLiga oferece 50 euros por denúncias mas alerta Para riscos de privacidade

Por Portugal 24 Horas

A LaLiga, a principal liga de futebol profissional espanhola, lançou uma controversa iniciativa para combater a pirataria audiovisual no setor da restauração e hotelaria. A medida, anunciada no final de janeiro, propõe uma recompensa de 50 euros por cada denúncia validada sobre bares e restaurantes que transmitam jogos de futebol sem a devida licença. Contudo, esta campanha de “colaboração responsável” suscita acalorados debates e preocupações significativas. Especialistas em direito digital alertam para um “ponto crítico”: o método de prova exigido pode inadvertidamente levar à recolha de dados pessoais, como rostos de clientes ou funcionários, o que pode originar sérias infrações à legislação de proteção de dados e transformar um incentivo financeiro num problema legal complexo.

A estratégia da LaLiga contra a pirataria

O combate à pirataria audiovisual no desporto tem sido uma prioridade para a LaLiga, que argumenta que as transmissões ilegais prejudicam o ecossistema do futebol na sua totalidade, desde os clubes e jogadores até aos estabelecimentos que cumprem as regras e pagam as licenças de transmissão. Consciente da dimensão do problema e da dificuldade em fiscalizar todos os pontos de venda, a liga espanhola optou por envolver ativamente os consumidores, incentivando-os a reportar infrações em troca de uma compensação financeira. Esta abordagem visa criar uma rede de vigilância que, esperam os responsáveis, contribuirá para a diminuição da prática ilegal e para a proteção dos direitos de transmissão.

O incentivo e o processo de denúncia

A iniciativa da LaLiga baseia-se num sistema de denúncia online, concebido para ser acessível e direto. Para que uma denúncia seja considerada “bonificada”, ou seja, elegível para a recompensa de 50 euros, o denunciante deve submeter um conjunto específico de provas. Este conjunto inclui três fotografias: uma que capte o ecrã com o jogo em transmissão, evidenciando a infração; outra da fachada do estabelecimento, para identificação do local; e uma terceira do interior, onde a televisão a emitir o jogo seja visível. A LaLiga informa que os estabelecimentos autorizados exibem um indicador específico (uma letra) num canto da transmissão, cuja ausência pode ser um sinal de emissão não autorizada. A recompensa só é paga após a validação da denúncia, com limites por estabelecimento para evitar repetições, e existe ainda a possibilidade de fazer denúncias anónimas, embora sem o pagamento associado. A liga defende que este canal é “seguro e confidencial”, procurando assegurar os denunciantes da seriedade e discrição do processo.

Os riscos e o debate em torno da privacidade

Apesar das intenções declaradas da LaLiga, a implementação desta estratégia gerou um intenso debate, sobretudo no que toca às implicações para a privacidade e proteção de dados pessoais. A exigência de fotografias do interior dos estabelecimentos, ainda que com o objetivo de provar a pirataria, levantou de imediato sérias preocupações por parte de especialistas em direito digital e organizações de defesa dos direitos cívicos. O cerne da questão reside na facilidade com que estas imagens podem captar não só a televisão, mas também indivíduos que se encontrem no local.

Imagem pessoal: um dado sensível em questão

Em Espanha, vários especialistas alertaram publicamente para o “ponto crítico” deste método. Ao fotografar o interior de um bar ou restaurante, é quase inevitável captar os rostos de clientes, trabalhadores ou, em certos casos, até de menores. Em Espanha, tal como em Portugal e na União Europeia, a imagem de uma pessoa é considerada um dado pessoal e, como tal, está protegida pelas leis de proteção de dados. A sua recolha, armazenamento e divulgação sem o consentimento expresso do indivíduo é, em regra, proibida, exceto em circunstâncias muito específicas previstas na lei (como em eventos de interesse público onde a pessoa seja um elemento secundário e incidental).

O risco não se limita a quem tira as fotografias. Quem recebe e trata essas imagens – neste caso, a LaLiga – também passa a lidar com dados pessoais, o que levanta questões de proporcionalidade na recolha e de necessidade de salvaguardas robustas para a sua proteção. Um denunciante, ao submeter uma fotografia que contenha rostos de terceiros sem o seu consentimento, arrisca-se a ser alvo de uma queixa por violação da proteção de dados, o que poderia resultar em sanções e processos legais, tornando a “recompensa” de 50 euros num encargo consideravelmente maior e mais problemático.

A reação do setor da restauração espanhol

A polémica em torno da iniciativa da LaLiga não se fez sentir apenas no campo jurídico, mas também na indústria da hotelaria e restauração em Espanha. A “Hostelería de España”, a principal confederação do setor, manifestou a sua forte oposição à medida, classificando-a como “inaceitável”. O presidente da associação expressou profunda preocupação com a forma como a LaLiga está a lidar com o problema da pirataria, considerando que o método de denúncia proposto é desproporcionado e coloca os seus associados numa posição vulnerável.

A confederação, embora reconheça o problema da pirataria audiovisual e a necessidade de combatê-lo, ameaçou rever as suas relações de colaboração com a LaLiga. Argumentam que a medida não só incita à desconfiança entre os consumidores e os estabelecimentos, como também expõe estes últimos e os seus clientes a riscos de privacidade. A postura da LaLiga, que mantém a sua linha de ação, é a de que a pirataria prejudica profundamente o ecossistema do futebol e os negócios que cumprem as suas obrigações, defendendo a “confidencialidade” do seu canal de denúncias. Contudo, esta garantia não apaziguou as preocupações legítimas sobre a intrusão na privacidade individual.

Conclusão

A iniciativa da LaLiga de pagar por denúncias de pirataria em bares e restaurantes, embora bem-intencionada no seu objetivo de combater uma prática prejudicial, revela uma complexa interseção entre o enforcement de direitos e a proteção de liberdades individuais. A aposta na “colaboração responsável” dos consumidores, através de um incentivo financeiro, é um método que gera um significativo debate ético e legal. A exigência de provas fotográficas do interior dos espaços públicos e semipúblicos, onde pessoas alheias à infração podem ser captadas, expõe tanto os denunciantes como a própria LaLiga a potenciais violações da legislação de proteção de dados pessoais. Para o público português que viaja para Espanha e consome futebol em estabelecimentos locais, a lição prática é clara: embora denunciar uma emissão ilegal possa parecer um ato cívico e vantajoso, a simples ação de fotografar pessoas em espaços públicos, mesmo que de forma “acidental”, pode acarretar sérias consequências legais e éticas, que superam largamente a recompensa financeira oferecida. É fundamental ponderar os riscos antes de agir, privilegiando sempre a proteção da privacidade alheia.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Porque é que a LaLiga oferece dinheiro por denúncias de pirataria?
R: A LaLiga oferece 50 euros por denúncias válidas para intensificar o combate à pirataria audiovisual no setor da restauração e hotelaria em Espanha. O objetivo é proteger os direitos de transmissão, o ecossistema do futebol e os estabelecimentos que pagam licenças, incentivando a colaboração dos consumidores na identificação de transmissões ilegais.

2. Que tipo de provas são exigidas para uma denúncia bonificada?
R: Para uma denúncia ser elegível para a recompensa, o denunciante deve submeter três fotografias: uma do ecrã com o jogo a ser transmitido, uma da fachada do estabelecimento e uma terceira do interior, mostrando a televisão a emitir o jogo.

3. Quais são os riscos de privacidade ao denunciar e fotografar num bar?
R: O principal risco é a violação da proteção de dados pessoais. Ao fotografar o interior de um bar, é fácil captar rostos de clientes, trabalhadores ou menores, cujas imagens são consideradas dados pessoais. A recolha e divulgação destas imagens sem consentimento pode levar a queixas legais por parte dos indivíduos fotografados, com potenciais consequências para o denunciante e para a entidade que processa os dados.

4. A LaLiga oferece alternativas para denúncias sem riscos de privacidade?
R: Sim, existe a possibilidade de fazer denúncias anónimas, que não exigem o mesmo nível de prova fotográfica nem a identificação do denunciante, mas estas não dão direito à recompensa financeira de 50 euros.

Se planeia viajar para Espanha e pretende assistir a jogos em bares, esteja ciente destas regras e dos seus direitos de privacidade. Proteja os seus dados e os dos outros.

Fonte: https://postal.pt

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