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Massa oceânica lidera subida do nível do mar nos últimos 30 anos

Por Portugal 24 Horas

A subida do nível do mar tem sido um dos indicadores mais visíveis e preocupantes das alterações climáticas, mas desvendar as suas causas exatas sempre representou um desafio complexo para a comunidade científica global. Durante décadas, os investigadores debateram a proporção entre a expansão térmica da água do oceano, devido ao aquecimento, e o acréscimo de volume resultante do derretimento de gelos terrestres. Agora, um estudo inovador, liderado por cientistas da Universidade Politécnica de Hong Kong (PolyU), oferece uma resposta mais clara e um registo detalhado de 30 anos, de 1993 a 2022. Esta investigação revela que o aumento da massa oceânica, impulsionado principalmente pelo degelo de vastas extensões de gelo terrestre, emergiu como o principal impulsionador da subida do nível do mar, com uma influência particularmente acentuada desde 2005. Este avanço na compreensão é crucial para refinar as projeções climáticas futuras e orientar estratégias de mitigação e adaptação perante este fenómeno global.

A complexidade da medição e uma nova perspetiva

Desvendar os mistérios da subida oceânica

A superfície do oceano não se eleva por uma única razão, tornando a medição precisa da subida do nível do mar uma tarefa notavelmente árdua para os climatologistas. As principais causas incluem a expansão térmica da água, que se dilata à medida que aquece, e a adição de água proveniente do derretimento de glaciares e calotas polares terrestres. Distinguir a contribuição de cada um destes fatores tem sido um quebra-cabeças persistente, gerando sérias dificuldades na atribuição de responsabilidades e na previsão de cenários futuros.

Neste contexto, a equipa de investigação da PolyU produziu o que descrevem como o primeiro registo altamente preciso de 30 anos (1993-2022) de alterações na massa oceânica global. Este registo, fundamentalmente, monitoriza a quantidade extra de água que foi adicionada aos oceanos ao longo do tempo. O professor Jianli Chen e o doutor Yufeng Nie lideraram este esforço de investigação, que se destaca pela sua precisão e pela capacidade de oferecer uma compreensão mais matizada dos mecanismos subjacentes à subida do nível do mar. A inovação reside na metodologia e na interpretação dos dados, que permitiram pela primeira vez quantificar de forma tão detalhada a contribuição da massa.

A abordagem inovadora da equipa

Para quantificar estas alterações na massa oceânica, os investigadores recorreram à tecnologia de SLR (satellite laser ranging). Esta técnica envolve o disparo de impulsos laser entre satélites e estações terrestres para medir distâncias com uma precisão extrema. As alterações nestas distâncias são então traduzidas em variações no campo gravitacional da Terra, que, por sua vez, refletem diretamente as mudanças na massa oceânica. Este método, embora já existente há algum tempo, apresentava limitações significativas para este tipo de estudo devido a problemas de resolução. A escassez de satélites e estações de rastreio, as órbitas elevadas e a capacidade de captar apenas padrões gerais das medições da gravidade impediam uma análise mais detalhada.

A equipa da PolyU superou estas barreiras desenvolvendo uma abordagem de modelagem avançada. Esta nova metodologia melhora o detalhe espacial das medições de SLR ao incorporar informações cruciais sobre as fronteiras entre a terra e o oceano. Esta otimização permitiu uma leitura muito mais precisa e granular das alterações de massa, transformando uma ferramenta com potencial limitado numa poderosa aliada para a investigação climática. O estudo sublinha que esta inovação metodológica foi fundamental para desvendar as complexidades da subida do nível do mar com um nível de clareza nunca antes alcançado.

A evidência: massa oceânica como motor principal

Quase dois terços da subida atribuídos ao aumento de massa

Utilizando esta abordagem aperfeiçoada, o estudo estimou que o nível global do mar subiu aproximadamente 90 milímetros entre 1993 e 2022. Esta subida ocorreu a uma taxa média de cerca de 3,3 milímetros por ano, uma taxa que, segundo os cientistas, tem vindo a acelerar progressivamente. Mais de metade deste aumento total deveu-se diretamente ao acréscimo de água nos oceanos, e não apenas à expansão térmica resultante do aquecimento. De forma ainda mais específica, quase dois terços (60%) da subida global do nível do mar durante este período foram impulsionados pelo aumento da massa oceânica, o que significa que mais água foi adicionada aos mares.

Este dado é de extrema relevância, pois clarifica o papel dominante da adição de massa em comparação com a expansão térmica. E o impacto não parou por aí: desde aproximadamente 2005, o estudo afirma que o aumento da massa oceânica tem sido o principal fator na subida do nível do mar, superando a contribuição da expansão térmica. Esta mudança de dinâmica sublinha a crescente urgência do fenómeno do degelo e a sua importância para as projeções futuras. A capacidade de quantificar esta contribuição direta da massa oceânica é um avanço significativo para a ciência climática.

O impacto crescente do degelo polar

Os investigadores associam este aumento substancial da massa oceânica, em grande parte, ao derretimento acelerado do gelo terrestre, com particular destaque para a Gronelândia. Durante todo o período analisado pelo estudo, o degelo das camadas de gelo polar e dos glaciares de montanha contribuiu com mais de 80% do aumento total da massa oceânica global. Estes números não só validam preocupações antigas sobre a fragilidade dos nossos polos e glaciares, mas também fornecem uma quantificação concreta do seu impacto no balanço hídrico global.

O professor Jianli Chen afirmou que, “nas últimas décadas, o aquecimento climático conduziu a uma perda acelerada de gelo terrestre, que tem desempenhado um papel cada vez mais preponderante na subida global do nível do mar”. Esta declaração ressalta a ligação direta entre as alterações climáticas e a aceleração do derretimento do gelo, bem como a sua consequente influência no nível dos oceanos. A investigação oferece, portanto, uma prova robusta de que as camadas de gelo da Terra estão a responder de forma dramática ao aquecimento global.

Implicações e o futuro da investigação climática

Validação de modelos e projeções futuras

Os resultados desta investigação são de valor inestimável para a comunidade científica e para os decisores políticos. A capacidade de quantificar diretamente o aumento global da massa oceânica e fornecer uma avaliação abrangente do seu impacto a longo prazo no balanço do nível do mar é um marco. O professor Jianli Chen destacou que esta investigação “fornece dados cruciais para a validação de modelos climáticos acoplados utilizados para projetar cenários futuros de subida do nível do mar”. Este é um aspeto fundamental, pois a precisão dos modelos climáticos depende da sua capacidade de replicar e prever com exatidão os fenómenos observados.

O doutor Yufeng Nie acrescentou que a investigação demonstrou que as alterações da massa oceânica, derivadas da análise de SLR, estão bem alinhadas com as alterações totais do nível do mar observadas pelos altímetros de satélite, após contabilizado o efeito da expansão térmica do oceano. Esta concordância valida a nova metodologia e reforça a fiabilidade dos resultados. O doutor Nie concluiu, afirmando que a “técnica tradicional SLR pode agora servir como uma ferramenta nova e poderosa para estudos de alterações climáticas a longo prazo”. Esta ferramenta abre portas para uma monitorização mais eficaz e para uma compreensão mais profunda dos complexos processos que impulsionam a subida do nível do mar, permitindo que os cientistas continuem a refinar as suas projeções e que a sociedade se prepare melhor para os desafios que se avizinham.

Fonte: https://www.tempo.pt

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