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Meteorologistas de Espanha sob ataque em meio às alterações climáticas

Por Portugal 24 Horas

A Espanha, tal como outras nações europeias, tem sido palco de fenómenos meteorológicos cada vez mais extremos, uma realidade incontornável das alterações climáticas. Contudo, no epicentro desta crise ambiental, surge uma preocupante tendência: os profissionais que partilham informações cruciais sobre o clima e o tempo enfrentam uma escalada alarmante de hostilidade nas redes sociais. Discursos de ódio, ataques pessoais e campanhas de difamação dirigidas a meteorologistas e cientistas climáticos estão a aumentar exponencialmente, minando a confiança na ciência e comprometendo a comunicação de dados essenciais. Esta situação levou já à intervenção de figuras governamentais, sublinhando a gravidade de um problema que transcende a esfera digital, impactando diretamente a percepção pública e a própria capacidade de resposta aos desafios impostos por um clima em mutação acelerada.

A escalada da hostilidade contra os especialistas do clima

A realidade das alterações climáticas manifesta-se de forma cada vez mais visível em Espanha, com o país a registar eventos meteorológicos sem precedentes. Desde incêndios florestais devastadores que consumiram vastas áreas no noroeste no verão passado, a um dezembro excecionalmente frio e chuvoso – o mais rigoroso das últimas décadas –, a nação ibérica tem sido confrontada com a volatilidade do seu clima. No entanto, o verdadeiro temporal parece estar a formar-se no espaço digital, onde os meteorologistas e especialistas em clima se tornaram alvos de uma vaga crescente de ataques e difamação. Este cenário preocupante foi recentemente denunciado por Sara Aagesen, a ministra da Transição Ecológica e do Desafio Demográfico de Espanha, que sublinhou o aumento da linguagem hostil dirigida a estes profissionais nas plataformas de comunicação social.

A gravidade da situação levou a ministra Aagesen a intervir formalmente na semana passada. Numa carta dirigida aos procuradores de crimes de ódio do país, a governante alertou para a intensificação dos ataques e discursos de ódio que visam os peritos climáticos. Esta iniciativa oficial não só realça a seriedade do problema, como também demonstra a preocupação do executivo espanhol em proteger aqueles que desempenham um papel fundamental na informação pública sobre os desafios climáticos. A ministra enfatizou que a disseminação de informações precisas e verificadas por parte destes profissionais é vital para o combate à desinformação, um flagelo que se agrava paralelamente à crise climática.

A intervenção ministerial e os dados alarmantes

Os ataques a meteorologistas não são incidentes isolados, mas sim parte de uma tendência documentada. Um estudo recente, para o qual a ministra Aagesen chamou a atenção, revelou que uma percentagem significativa da hostilidade digital é direcionada precisamente a estes profissionais. O levantamento indicou que 17,6% das mensagens hostis publicadas na plataforma X (anteriormente conhecida como Twitter) tinham como alvo direto os especialistas responsáveis por partilhar informações climáticas precisas e verificadas. Estas mensagens transcendem a mera crítica, incluindo discursos de ódio explícitos, ataques pessoais difamatórios e assédio, e têm vindo a registar um aumento notável em termos de “intensidade, frequência e violência”. Tal escalada afeta não só os meteorologistas de carreira, mas também outros profissionais da comunicação científica, que veem a sua integridade e o seu trabalho postos em causa de forma injusta e agressiva.

A investigação destacou que estes ataques não só afetam a percepção pública da meteorologia como ciência rigorosa, como também têm um impacto tangível no próprio trabalho científico. A Agência Estatal de Meteorologia de Espanha (AEMET), por exemplo, tem sido um dos alvos frequentes deste tipo de hostilidade. A pressão social e as campanhas de difamação podem ter um efeito inibidor nos cientistas, desmotivando-os a partilhar publicamente os resultados do seu trabalho ou até mesmo a comunicar corretamente as suas pesquisas. Este cenário, por sua vez, pode limitar o avanço do conhecimento científico e restringir o acesso do público a informações exatas sobre as alterações climáticas, criando um ciclo vicioso de desinformação e desconfiança.

O impacto do discurso de ódio na ciência e na sociedade

O fenómeno do discurso de ódio direcionado a meteorologistas e cientistas do clima não é meramente um problema de comportamento online; as suas ramificações estendem-se profundamente à esfera pública e à própria fundação da ciência. Quando os especialistas são atacados por comunicarem factos, a fronteira entre a informação verificada e a especulação é intencionalmente desfocada, com graves consequências para a literacia climática da população. A percepção da meteorologia como uma disciplina rigorosa, baseada em dados e modelos complexos, é corroída, dando lugar à ideia de que as suas previsões e análises são meras opiniões ou até mesmo invenções. Esta erosão da credibilidade científica é particularmente perigosa num momento em que a urgência de agir face às alterações climáticas exige uma compreensão clara e partilhada da realidade.

Além disso, a crescente virulência dos ataques tem um custo humano significativo. Rubén del Campo, porta-voz da AEMET, confessou a um jornal espanhol a dificuldade de lidar com esta realidade. “Embora eu saiba que o meu trabalho implica muita exposição, quando vemos mensagens que nos atacam e usam a nossa fotografia – muitas vezes para coisas inventadas que nunca dissemos – sentimo-nos mal”, afirmou. Esta declaração sublinha o peso psicológico e emocional que estes ataques representam para os indivíduos, que dedicam as suas vidas a um serviço público essencial. O ambiente de hostilidade pode levar ao burnout, à auto-censura e, em última instância, ao afastamento de talentos da área da comunicação científica, privando a sociedade de vozes informadas e experientes.

Desinformação e negacionismo climático nas redes

A proliferação do discurso de ódio e dos ataques pessoais contra especialistas do clima é intrinsecamente ligada ao crescimento do negacionismo climático e das teorias da conspiração. Um estudo revelou que o negacionismo em relação às alterações climáticas é galopante na plataforma X, sendo identificado em 49,1% das publicações analisadas. Esta percentagem alarmante demonstra a dimensão do desafio que a comunicação científica enfrenta. As redes sociais, embora ferramentas poderosas de disseminação de informação, são também ecossistemas férteis para a propagação de narrativas falsas e pseudocientíficas. Teorias da conspiração sobre o controlo do clima e a manipulação do tempo ganham terreno, afetando as perceções sobre as condições climáticas atuais e a origem dos eventos extremos.

A negação de que os eventos climáticos extremos – como os incêndios florestais intensos ou as chuvas torrenciais – resultam das alterações climáticas, prejudica seriamente os esforços para mitigar os seus impactos e para se adaptar a eles. Se uma parte significativa da população acredita que estes fenómenos são naturais, isolados ou fabricados, a urgência de implementar políticas de sustentabilidade e de redução de emissões é desvalorizada. Os ataques a meteorologistas, ao descredibilizarem a fonte primária de informação sobre o clima, alimentam diretamente este ciclo de desinformação, dificultando a construção de um consenso social necessário para enfrentar um dos maiores desafios da humanidade. A intervenção de Aagesen, ao contactar os procuradores, visa precisamente interromper este ciclo, protegendo os profissionais e, por extensão, a verdade científica.

Conclusão

A crescente hostilidade e o discurso de ódio dirigidos a meteorologistas e cientistas do clima em Espanha representam um sintoma preocupante de uma sociedade cada vez mais polarizada e vulnerável à desinformação. Num contexto de eventos meteorológicos extremos, impulsionados pelas alterações climáticas, a voz dos especialistas é mais crucial do que nunca. A intervenção governamental, liderada pela ministra Sara Aagesen, é um passo fundamental para reconhecer a gravidade da situação e para proteger aqueles que dedicam o seu trabalho à comunicação de uma realidade científica complexa, mas vital.

É imperativo que a sociedade e as plataformas digitais encontrem mecanismos eficazes para combater o negacionismo e os ataques pessoais, garantindo que o conhecimento científico possa ser partilhado livremente e sem receio. A capacidade de uma nação para enfrentar os desafios climáticos depende diretamente da sua literacia científica e da confiança nas suas instituições e nos seus especialistas. A proteção dos meteorologistas não é apenas uma questão de justiça individual; é uma salvaguarda para o futuro coletivo.

FAQ

1. Qual é o principal problema que os meteorologistas estão a enfrentar em Espanha?
Os meteorologistas em Espanha estão a enfrentar um aumento alarmante de discursos de ódio, ataques pessoais e difamação nas redes sociais, especialmente na plataforma X (antigo Twitter). Esta hostilidade é direcionada a profissionais que partilham informações precisas e verificadas sobre o clima e os eventos meteorológicos extremos.

2. Como é que os negacionistas das alterações climáticas contribuem para este problema?
O negacionismo climático é galopante nas redes sociais, com um estudo a indicar que quase metade das publicações analisadas continha este tipo de conteúdo. Ao descredibilizar a ciência e os cientistas, o negacionismo alimenta teorias da conspiração sobre o controlo do clima e prejudica os esforços para mitigar e responder às alterações climáticas, tornando os meteorologistas alvos fáceis de ataques.

3. Que ações estão a ser tomadas pelo governo espanhol para abordar esta situação?
Sara Aagesen, ministra da Transição Ecológica e do Desafio Demográfico de Espanha, enviou uma carta aos procuradores de crimes de ódio, alertando para o aumento da linguagem hostil. O seu ministério manifestou-se preparado para colaborar com as autoridades para proteger os meteorologistas e combater a desinformação, sublinhando a importância social do seu trabalho.

Para um futuro mais informado e resiliente, apoie a ciência do clima e partilhe apenas informações verificadas.

Fonte: https://www.tempo.pt

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