Michael Cerqueira da Costa: de ator em Nova Iorque a guarda suíço

Francisco Nascimento

Uma história notável emerge do coração do Vaticano, revelando a jornada singular de um jovem de trinta anos que trocou os holofotes de Nova Iorque pela farda da Guarda Suíça Pontifícia. Michael Cerqueira da Costa, um luso-descendente com raízes profundas em Portugal, abandonou uma promissora carreira artística para abraçar um compromisso de serviço e proteção ao Sumo Pontífice. Esta drástica mudança de vida, impulsionada por um forte sentido de dever e fé, coloca-o agora no epicentro da segurança papal. A sua presença é ainda mais significativa por ser o único falante de português entre os seletos membros deste corpo militar de elite, sublinhando a diversidade cultural que permeia a sede da Igreja Católica. A sua história é um testemunho da força dos laços familiares e do poder transformador de um chamamento superior.

Uma transição notável: dos palcos ao Vaticano

A vida de Michael Cerqueira da Costa sofreu uma reviravolta radical, partindo do efervescente cenário teatral de Nova Iorque para a disciplina monástica e centenária da Guarda Suíça Pontifícia. Durante dois anos, Michael dedicou-se à arte da representação nos Estados Unidos da América, perseguindo o sonho de se estabelecer como ator numa das cidades mais cosmopolitas do mundo. No entanto, o seu percurso tomou um rumo inesperado quando sentiu aquilo que descreve como um “chamado de Deus”, uma vocação inadiável para servir a Igreja Católica.

O apelo da fé e o compromisso solene

Esta chamada espiritual impulsionou-o a deixar para trás a vida boémia e a incerteza da carreira artística em prol de um compromisso solene de proteção e segurança do Papa. A decisão não foi tomada de ânimo leve, mas a convicção foi mais forte do que qualquer ambição secular. A adaptação à vida regrada e às exigências da Cidade do Vaticano, conhecida pelo seu ritmo e tradições seculares, poderia parecer um desafio monumental. Contudo, para Michael, a experiência de sobrevivência e adaptação que adquiriu em Nova Iorque revelou-se uma preparação valiosa. Ele considera que o ambiente competitivo e as dificuldades inerentes à vida de ator na metrópole americana o muniram das ferramentas necessárias para prosperar em qualquer contexto, por mais diferente que fosse. A transição, portanto, não se revelou tão árdua quanto se poderia supor, enraizada na resiliência e na capacidade de adaptação forjadas nos palcos.

A Guarda Suíça Pontifícia: uma elite centenária

A Guarda Suíça Pontifícia não é um exército comum; é a mais antiga e uma das menores forças militares do mundo, com uma história que remonta ao século XVI. A sua função primordial é a segurança pessoal do Papa e a proteção do Palácio Apostólico e dos seus habitantes. Com os seus uniformes renascentistas listados, as alabardas e a postura marcial, os guardas suíços são um símbolo icónico do Vaticano, misturando tradição militar com a fé e a dedicação. Atualmente, este corpo de elite conta com cerca de 135 elementos, todos eles cuidadosamente selecionados.

Requisitos rigorosos e um legado de honra

A admissão na Guarda Suíça Pontifícia é extremamente rigorosa, refletindo a seriedade e a importância da sua missão. Os candidatos devem ser cidadãos helvéticos, professar a fé católica, ter entre 19 e 30 anos, possuir boa reputação e uma altura mínima de 1,74 metros. Além disso, é indispensável terem concluído o serviço militar na Suíça e possuírem um diploma profissional ou o ensino secundário completo. No caso de Michael Cerqueira da Costa, a sua cidadania suíça e a prática religiosa foram requisitos cruciais. Adicionalmente, teve de comprovar o domínio das línguas francesa e italiana, essenciais para a comunicação diária no Vaticano. A combinação destes critérios garante que apenas os indivíduos mais aptos e dedicados integrem esta guarda de honra, perpetuando um legado de bravura, lealdade e fé que perdura há mais de quinhentos anos. O serviço mínimo exigido é de dois anos, durante os quais os guardas vivem uma vida de dedicação exclusiva e disciplina exemplar, longe dos holofotes e das distrações do mundo exterior.

Encontro com a pátria: um português no coração da Igreja

A presença de Michael Cerqueira da Costa na Guarda Suíça Pontifícia assume um significado particular para a comunidade portuguesa. Aconteceu durante a visita de Estado do Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, ao Vaticano, que o jovem militar teve a oportunidade de se encontrar e trocar algumas palavras na sua língua materna com o chefe de Estado português. Este momento marcou a visita de uma forma única, conferindo um tom familiar e de proximidade a um encontro oficial no mais pequeno estado do mundo. O facto de Michael ser o único lusofalante entre os guardas suíços realça a singularidade do seu percurso e a surpresa agradável para o Presidente.

Raízes lusas e o elo com o Presidente

Michael aproveitou a presença de Marcelo Rebelo de Sousa no Pátio de São Dâmaso, à saída do Palácio Pontifício após o encontro com o Papa Leão XIV, para expressar a sua admiração. O militar confessou ser um grande fã do Presidente da República, um gesto de respeito e carinho que culminou numa fotografia conjunta. Este breve, mas significativo, encontro serviu para reforçar os laços entre Portugal e o Vaticano, simbolizado pela presença de um luso-descendente num papel tão proeminente.

A ligação de Michael a Portugal é forte e inegável, mesmo tendo crescido em Genebra. Os seus pais, emigrantes portugueses, partiram para a Suíça na década de oitenta, levando consigo a herança cultural e as raízes minhotas e transmontanas. O pai é natural de Montalegre, no distrito de Vila Real, e a mãe provém de Arcos de Valdevez, no distrito de Viana do Castelo. Apesar desta ligação profunda ao norte de Portugal, Michael Cerqueira da Costa elege Lisboa como a sua cidade favorita, mantendo o hábito de visitar o território nacional quase todos os anos, evidenciando que a distância geográfica não esbate o amor pela sua pátria de origem.

O juramento de sangue: serviço e dedicação

Integrar a Guarda Suíça Pontifícia é muito mais do que assumir um cargo; é um compromisso de honra, um juramento de sangue que transcende um simples contrato de trabalho. Michael Cerqueira da Costa recordou o momento solene do seu juramento, prestado há seis meses no Vaticano, perante as mais altas autoridades eclesiásticas. Neste ato simbólico e profundamente significativo, o soldado prometeu proteger o Papa e os seus legítimos sucessores contra qualquer ameaça, por mais grave que fosse.

Esta promessa inclui a disposição de entregar a própria vida, se tal for necessário, para garantir a integridade física do Sumo Pontífice. É um juramento de lealdade inabalável e de sacrifício máximo, que reflete a seriedade e a sacralidade da sua missão. Michael encara esta missão não como uma mera obrigação profissional, mas como algo impulsionado por uma força maior, uma vocação divina que o levou dos holofotes e do anonimato dos palcos para o serviço silencioso e devoto no coração da Igreja. A farda listada e a alabarda que agora enverga são símbolos visíveis de uma profunda transformação e de um compromisso incondicional com a sua fé e o seu dever.

Conclusão

A trajetória de Michael Cerqueira da Costa, de ator em Nova Iorque a membro da Guarda Suíça Pontifícia, é um testemunho eloquente de um percurso de vida guiado por convicções profundas e um forte sentido de serviço. A sua história não só ilustra a capacidade de adaptação e a resiliência humana, mas também sublinha a universalidade da fé e a persistência dos laços culturais, mesmo quando se está a milhares de quilómetros da terra natal. O seu papel como o único lusofalante na guarda do Papa adiciona uma camada de simbolismo e orgulho para a comunidade portuguesa, reafirmando a presença e a influência de Portugal nos mais diversos contextos globais. Michael, ao vestir a farda renascentista, não apenas protege uma das figuras mais importantes do mundo, mas também personifica um legado de fé, honra e devoção.

Perguntas frequentes (FAQ)

Quais são os requisitos para ingressar na Guarda Suíça Pontifícia?
Para ingressar na Guarda Suíça Pontifícia, é necessário ser cidadão helvético, professar a fé católica, ter entre 19 e 30 anos, uma altura mínima de 1,74m, possuir boa reputação, ter concluído o serviço militar suíço e possuir um diploma profissional ou ensino secundário. O domínio do francês e do italiano também é essencial.

Quanto tempo dura o compromisso de serviço na Guarda Suíça Pontifícia?
O compromisso mínimo de serviço na Guarda Suíça Pontifícia é de dois anos, período durante o qual os guardas dedicam-se exclusivamente à proteção do Papa e do Vaticano.

Qual a importância da presença de Michael Cerqueira da Costa como lusofalante na Guarda Suíça?
A presença de Michael Cerqueira da Costa como o único lusofalante na Guarda Suíça Pontifícia é significativa por reforçar os laços culturais entre Portugal e o Vaticano, proporcionando um ponto de contacto único para o chefe de Estado português durante visitas oficiais e sublinhando a presença global da diáspora lusa.

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Fonte: https://postal.pt

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