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Neom, megaprojeto saudita, enfrenta reduções significativas e atrasos

Por Portugal 24 Horas

O ambicioso projeto Neom, a supercidade futurista concebida para ser um pilar da modernização da Arábia Saudita, encontra-se agora numa fase de reavaliação. Após anos marcados por derrapagens orçamentais e atrasos substanciais na sua execução, o projeto emblemático do reino saudita está prestes a ser significativamente redimensionado. Esta megaestrutura, que prometia funcionar integralmente com fontes de energia alternativas e incorporar tecnologias de ponta, era aguardada com grande expectativa global. Contudo, a magnitude dos desafios e a complexidade inerente a uma iniciativa desta escala levaram a uma revisão estratégica. Uma das consequências mais visíveis desta alteração de planos é o adiamento dos Jogos Asiáticos de Inverno, originalmente agendados para 2029 e que teriam lugar numa das suas regiões montanhosas, Trojena. Este desenvolvimento sublinha as enormes dificuldades em transformar uma visão tão audaciosa em realidade, face aos obstáculos práticos e financeiros.

Uma visão de futuro no deserto: A promessa de Neom

Neom foi inicialmente apresentada como a pedra angular da Visão 2030 da Arábia Saudita, uma estratégia abrangente para diversificar a economia do reino para além do petróleo e posicioná-lo como um centro global de inovação e sustentabilidade. O nome Neom, uma fusão da palavra grega “neos” (novo) e da letra árabe “m” (de “mostaqbal”, futuro), reflete a ambição de criar algo verdadeiramente revolucionário. Lançado com um investimento estimado em 500 mil milhões de dólares, o projeto imaginava uma região autónoma, com cidades flutuantes, cidades lineares e estâncias de esqui no deserto, todas ligadas por redes de transporte ultrarrápidas e alimentadas exclusivamente por energia renovável.

As múltiplas facetas de um sonho

O Neom é composto por várias regiões distintas, cada uma com uma função específica e um design inovador. “The Line”, talvez a mais famosa, é uma cidade linear de 170 quilómetros de comprimento, com 500 metros de altura e apenas 200 metros de largura, sem carros, estradas ou emissões de carbono, prometendo habitar nove milhões de pessoas. A ideia era que os habitantes pudessem aceder a todas as suas necessidades diárias em cinco minutos a pé. “Oxagon” é concebida como uma cidade industrial flutuante, focada na inovação e na logística, enquanto “Trojena” se destina a ser um destino de esqui e montanha durante todo o ano, o que a torna um desafio de engenharia num clima desértico. A quarta e mais recente adição é “Sindalah”, uma ilha de luxo destinada a ser um refúgio exclusivo. A visão subjacente a cada uma destas componentes é a de redefinir o conceito de vida urbana, integrando tecnologia avançada, inteligência artificial e uma profunda consciência ambiental.

Sustentabilidade e tecnologia como pilares

A promessa central de Neom residia na sua sustentabilidade radical. A cidade foi projetada para ser alimentada a 100% por energias renováveis, como solar e eólica, e para incorporar tecnologias de ponta em todos os aspetos da vida quotidiana, desde a gestão de resíduos à agricultura vertical e à mobilidade. A inteligência artificial estaria no cerne de Neom, otimizando os serviços e a qualidade de vida dos seus residentes. A ambição era criar um ecossistema onde as pessoas e a natureza pudessem coexistir em harmonia, com um impacto ambiental mínimo. No entanto, a implementação de tais avanços tecnológicos em grande escala, aliada à necessidade de construir infraestruturas colossais a partir do zero num ambiente desértico, levantou questões sobre a viabilidade e os custos associados.

Os desafios e a revisão estratégica

Desde a sua conceção, Neom enfrentou um escrutínio considerável devido à sua escala sem precedentes e à audácia das suas propostas. A concretização de tal projeto exige não só um investimento financeiro monumental, mas também uma proeza de engenharia e logística que poucos projetos na história conseguiram igualar. A complexidade do terreno, a necessidade de importar materiais e mão de obra em vasta escala e a exigência de desenvolver novas tecnologias em simultâneo contribuíram para os desafios que se foram acumulando.

Custos exorbitantes e cronogramas apertados

Os relatos de derrapagens orçamentais e cronogramas excessivamente ambiciosos têm sido uma constante na narrativa de Neom. Construir uma cidade futurista do zero, com as exigências de sustentabilidade e tecnologia que Neom propõe, é inerentemente dispendioso. As estimativas iniciais de custos foram rapidamente superadas, levando a uma pressão considerável sobre os recursos financeiros do Fundo de Investimento Público (PIF) da Arábia Saudita. Além disso, os prazos apertados para a conclusão das primeiras fases do projeto revelaram-se difíceis de cumprir, com as obras a avançar a um ritmo mais lento do que o originalmente previsto. A realidade da construção em larga escala, com todas as suas complexidades inesperadas, colidiu com a visão utópica inicial.

O adiamento dos Jogos Asiáticos de Inverno de 2029

Um dos indicadores mais claros das dificuldades enfrentadas por Neom é o adiamento dos Jogos Asiáticos de Inverno, que deveriam ser realizados em Trojena em 2029. Esta região montanhosa, projetada para ser um destino de esqui e lazer no deserto, era um dos elementos mais espetaculares e desafiadores do projeto. A decisão de sediar os jogos foi inicialmente vista como uma demonstração da capacidade da Arábia Saudita para realizar o impossível. Contudo, a recente revisão estratégica de Neom, que inclui a redução das ambições para “The Line”, tem implicações diretas para o desenvolvimento de Trojena. O adiamento dos jogos sugere que as infraestruturas necessárias para acolher um evento desta magnitude não estarão prontas a tempo, evidenciando o impacto das revisões de escala e dos atrasos na execução.

Implicações para a Visão 2030 da Arábia Saudita

A reorientação de Neom tem implicações significativas para a Visão 2030 da Arábia Saudita. Embora o reino continue empenhado na diversificação económica, a escala e o ritmo de projetos como Neom são cruciais para o sucesso desta estratégia. A desaceleração ou redução das ambições de Neom pode levantar questões sobre a viabilidade de outros megaprojetos e a capacidade do país de atrair investimento estrangeiro em grande escala. No entanto, é também uma oportunidade para uma abordagem mais pragmática e realista, garantindo que os investimentos sejam sustentáveis e que os objetivos sejam alcançáveis, sem comprometer a ambição geral de modernização e diversificação. A Arábia Saudita, ao recalibrar Neom, demonstra uma capacidade de adaptação face aos desafios inesperados.

O futuro incerto de um projeto ambicioso

O futuro de Neom, embora ainda promissor na sua essência, apresenta-se agora com uma dose de realismo. A necessidade de redimensionar o projeto não significa o seu abandono, mas sim uma adaptação às realidades financeiras e logísticas de construir uma cidade do zero, com uma ambição sem precedentes. A Arábia Saudita continua empenhada em transformar partes significativas da sua visão original em realidade, embora a um ritmo potencialmente mais lento e com um foco mais aguçado nas fases e componentes mais viáveis. Este ajustamento estratégico pode, paradoxalmente, fortalecer o projeto a longo prazo, garantindo que os recursos sejam alocados de forma mais eficiente e que as expectativas se alinhem com a capacidade de execução. A jornada de Neom continua a ser um fascinante estudo de caso sobre os desafios de materializar as mais ousadas visões urbanas.

Perguntas frequentes sobre Neom

O que significa a redução de escala de Neom?
A redução de escala de Neom significa que o projeto original, particularmente a cidade “The Line”, terá uma extensão significativamente menor e uma população prevista mais baixa nas suas fases iniciais do que o inicialmente anunciado. Em vez dos 170 km planeados, apenas cerca de 2,4 km deverão estar concluídos e habitados até 2030.

Porque é que os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029 foram adiados?
Os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029, que teriam lugar na região de Trojena, foram adiados devido aos atrasos e à reavaliação estratégica do projeto Neom. As infraestruturas necessárias para acolher um evento desta magnitude não estariam prontas a tempo, face à complexidade e ao ritmo das obras.

Qual é o principal objetivo do projeto Neom?
O principal objetivo de Neom é diversificar a economia da Arábia Saudita para além do petróleo, posicionando o reino como um centro global de inovação, tecnologia e turismo sustentável, alinhado com os objetivos da Visão 2030.

Como a Arábia Saudita planeia financiar Neom?
Neom é financiado principalmente pelo Fundo de Investimento Público (PIF) da Arábia Saudita, um dos maiores fundos soberanos do mundo. Além disso, o projeto procura atrair investimento estrangeiro direto e parcerias público-privadas para cobrir os seus custos colossais.

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Fonte: https://www.euronews.com

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