NHS usa adolescente para comunicar morte do avô a mãe surda

© Mark Kerrison/In Pictures via Getty Images

Uma investigação recente revelou uma situação profundamente perturbadora que abalou os alicerces da confiança pública no Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido. Um adolescente de apenas 16 anos foi alegadamente instruído por funcionários hospitalares a transmitir à sua mãe, que é surda, a notícia devastadora de que o seu pai, e avô do jovem, tinha grandes probabilidades de morrer naquela mesma noite. Este incidente, que ocorreu no Hospital Queen Elizabeth, em Birmingham, levanta questões cruciais sobre a acessibilidade e a adequação dos serviços de comunicação para pacientes com deficiência auditiva, sublinhando a falha em garantir uma comunicação clara e profissional em momentos de extrema vulnerabilidade e dor familiar. A queixa subsequente e a intervenção de um organismo independente trouxeram à luz as graves deficiências protocolares.

O incidente chocante no hospital

O cerne desta história reside numa falha de comunicação de proporções alarmantes, que transformou um momento de despedida familiar num episódio de angústia e má conduta. Alan Graham, de 75 anos, havia sido diagnosticado com insuficiência cardíaca em junho de 2021. Após um período em casa, o septuagenário regressou ao Hospital Queen Elizabeth, em Birmingham, em setembro do mesmo ano, devido a um agravamento dos sintomas, incluindo inchaço nas pernas e fortes dores no peito. A sua condição deteriorou-se rapidamente e, duas semanas após a sua readmissão, viria a falecer. Contudo, foi a noite anterior à sua morte que se tornou o foco de uma polémica investigação.

Naquela fatídica noite, Connor Petty, um jovem de apenas 16 anos, foi chamado pelos funcionários do NHS para uma tarefa que nenhum filho ou neto deveria ter de enfrentar: comunicar à sua mãe, Jennifer Graham-Petty, que o seu pai poderia não sobreviver às próximas horas. Jennifer, que nasceu surda e utiliza a Língua Gestual Britânica como principal meio de comunicação, viu-se numa posição inaceitável. Para além de transmitir o prognóstico sombrio, Connor foi também instruído a informar a mãe de que os médicos consideravam que a reanimação cardiopulmonar (RCP) não deveria ser efetuada, caso a situação do avô se agravasse ainda mais. Esta decisão médica complexa e de grande peso emocional foi delegada a um menor, sem o suporte de um intérprete profissional.

A comunicação devastadora através de um adolescente

A delegação de uma mensagem tão crítica e sensível a um adolescente levanta sérias questões éticas e de conformidade com as diretrizes de cuidados de saúde. A comunicação de um prognóstico de vida ou morte exige clareza, precisão e, acima de tudo, a sensibilidade e o profissionalismo que apenas um intérprete qualificado pode proporcionar, especialmente quando a barreira da língua – neste caso, a língua gestual – está presente. O pedido para que Connor traduzisse não apenas a iminência da morte, mas também a recomendação de não realizar reanimação, expôs o jovem a um trauma psicológico considerável. A responsabilidade de ser o mensageiro de notícias tão devastadoras, em circunstâncias tão precárias, é um fardo impróprio para qualquer criança ou adolescente. A experiência não só submeteu a família a um sofrimento adicional, como também falhou redondamente em respeitar os direitos da paciente surda a uma comunicação digna e eficaz com a equipa médica.

A voz da família e a falha de comunicação

A angústia e a frustração da família não se limitaram àquela noite específica. Jennifer Graham-Petty expressou o quão “muito perturbadora” toda a experiência foi, conforme o revelado pela investigação. O seu desespero por uma comunicação adequada era evidente, e a sua exigência por um intérprete profissional era constante. “Pedi um intérprete todos os dias em que o meu pai esteve hospitalizado”, afirmou Jennifer, sublinhando a persistente falta de resposta do hospital às suas necessidades fundamentais de comunicação. Durante as 11 semanas em que Alan Graham esteve internado, Jennifer contou com a presença de intérpretes profissionais em apenas três ocasiões, uma lacuna chocante que revela uma falha sistémica.

A dependência dos filhos para traduzir informações médicas complexas era uma constante. Jennifer explicou que os seus filhos, Connor e Mia (de 12 anos), apenas queriam “visitar o avô e estar lá para ele como membros da família”. No entanto, viram-se constantemente na posição de mediadores entre a equipa médica e a sua mãe. Embora os jovens tivessem algum conhecimento de língua gestual, a sua fluência não se compara à de um profissional. “Ainda que saibam alguma língua gestual, ouvem e por isso não é a primeira língua deles”, referiu Jennifer. Esta observação é crucial, pois realça a impossibilidade de crianças e adolescentes interpretarem com precisão o jargão médico complexo, que lhes era exigido pelos profissionais de saúde. A expectativa de que conseguissem fazê-lo era irrealista e, fundamentalmente, injusta.

O impacto psicológico nas crianças

Para Jennifer, o pedido para que os seus filhos, em particular Connor, lhes dessem “as más notícias” sobre o prognóstico do pai foi “completamente inaceitável” e “muito perturbador”. O impacto psicológico de tal responsabilidade sobre os menores é imensurável. Forçar crianças a assumir o papel de intérpretes em situações de vida ou morte, exigindo que processem e transmitam informações médicas complexas e emocionalmente carregadas, representa uma violação da sua infância e do seu bem-estar emocional. A ausência de suporte profissional adequado não só prejudicou a mãe, impedindo-a de compreender plenamente a situação do seu pai, mas também impôs um fardo insustentável sobre os seus filhos, que deveriam ter tido a oportunidade de viver o luto e de se despedir do avô sem a pressão de serem intermediários cruciais. A família foi privada de um processo de luto digno e apoiado, devido às falhas na acessibilidade.

A intervenção do Provedor de Justiça e as repercussões

Perante a gravidade da situação e a angústia sentida, Jennifer Graham-Petty decidiu formalizar uma queixa junto do Provedor de Justiça Parlamentar e de Saúde (PHSO), um organismo independente responsável por investigar queixas contra departamentos governamentais e organismos públicos no Reino Unido. Esta ação destacou a determinação da família em procurar justiça e em garantir que tais falhas não se repitam com outras pessoas em situações semelhantes. A queixa de Jennifer detalhou não apenas o incidente envolvendo Connor, mas também a extensão dos pedidos de tradução à sua filha Mia, de 12 anos, evidenciando um padrão de dependência indevida dos menores para as comunicações essenciais.

A investigação do PHSO corroborou as alegações de Jennifer e as preocupações levantadas. Rebecca Hilsenrath, diretora-executiva do PHSO, expressou publicamente que o NHS causou “sofrimento desnecessário” à família. Hilsenrath sublinhou a necessidade imperativa de garantir que “pacientes surdos e as suas famílias devem ter acesso aos mesmos cuidados que todos os outros, sem enfrentar barreiras adicionais”. Esta declaração realça o princípio fundamental da igualdade de acesso aos cuidados de saúde, independentemente da deficiência.

A investigação e as conclusões do PHSO

No relatório final da sua investigação, o PHSO concluiu que o serviço de Saúde falhou em cumprir as diretrizes nacionais para a comunicação com pacientes surdos. Estas diretrizes existem precisamente para evitar situações como esta, assegurando que os pacientes recebam informações claras e precisas através de canais apropriados. A falha em fornecer intérpretes profissionais de forma consistente e em momentos críticos não foi apenas uma inconveniência, mas uma violação dos padrões de atendimento. Como resultado das suas conclusões, o PHSO impôs que fosse paga uma indemnização a Jennifer e aos seus netos, Connor e Mia, em reconhecimento do sofrimento e do impacto negativo que esta falha teve nas suas vidas. Esta compensação, embora não apague o trauma vivido, serve como um reconhecimento oficial da negligência e da necessidade de reparações.

A resposta e o compromisso do NHS

Em resposta às conclusões do PHSO e à repercussão pública do caso, a Fundação dos Hospitais Universitários de Birmingham do NHS expressou o seu “profundo lamento” pela situação. A fundação admitiu a sua responsabilidade e garantiu ter “implementado medidas de aprendizagem” desde 2021, o ano em que o incidente ocorreu. “Desde 2021 implementámos formações em toda a organização para ajudar a melhorar a experiência dos nossos pacientes surdos e das suas famílias. Continuamos empenhados em aprender e fornecer cuidados inclusivos”, sublinharam os representantes do hospital. Reconheceram abertamente: “Reconhecemos que não fizemos as coisas da maneira correta e entendemos o impacto que isso causou”. Esta declaração, ainda que tardia, reflete um compromisso com a melhoria e a prevenção de futuras ocorrências. As medidas incluem, presumivelmente, o reforço da formação de pessoal sobre a importância da acessibilidade comunicacional e a garantia de disponibilidade de intérpretes profissionais para todos os pacientes surdos.

Lições aprendidas e o caminho para uma saúde inclusiva

Este caso, doloroso e complexo, serve como um lembrete contundente da importância inegável da comunicação acessível nos cuidados de saúde. A experiência de Jennifer Graham-Petty e da sua família expôs uma vulnerabilidade crítica dentro do NHS, onde a falta de provisão para pacientes surdos resultou em sofrimento desnecessário e na delegação inadequada de responsabilidades vitais a menores. O desfecho da investigação do Provedor de Justiça Parlamentar e de Saúde, com a imposição de uma indemnização e o reconhecimento oficial da falha, é um passo crucial para a responsabilização e para a exigência de melhores práticas.

A resposta do NHS, que inclui um pedido de desculpas e a implementação de novas formações, sugere um reconhecimento do erro e um compromisso com a mudança. No entanto, é fundamental que estes compromissos se traduzam em ações concretas e sustentáveis, garantindo que todos os hospitais e serviços de saúde no Reino Unido adiram estritamente às diretrizes nacionais de acessibilidade. A comunicação eficaz não é um luxo, mas um direito fundamental de cada paciente. A história de Alan Graham e da sua família deve ecoar como um apelo à vigilância contínua e à promoção de um sistema de saúde verdadeiramente inclusivo, onde cada indivíduo, independentemente das suas capacidades, receba cuidados com a dignidade e a compreensão que merece. A prevenção de situações semelhantes no futuro depende da adoção universal de uma cultura de respeito e acessibilidade plena.

Fonte: https://www.noticiasaominuto.com

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