Durante décadas, a imagem dos mamutes e dinossauros gigantes a avançar a velocidades estonteantes, capazes de abalroar tudo no seu caminho, tem povoado o imaginário popular e as produções cinematográficas. Contudo, esta perceção idealizada da velocidade dos gigantes terrestres está agora a ser posta em causa por uma investigação inovadora. Um estudo recente vem desmistificar estas representações, revelando que os maiores animais terrestres que alguma vez habitaram o planeta eram consideravelmente mais lentos do que se acreditava. Os seus limites de velocidade assemelham-se, na verdade, mais aos ritmos que um ser humano consegue manter do que às perseguições dramáticas retratadas no grande ecrã. A chave para esta nova compreensão reside na biomecânica e na física, que impõem restrições claras à locomoção de corpos com várias toneladas.
O peso e a física da locomoção gigantesca
A investigação que reavalia a velocidade dos grandes dinossauros herbívoros, mastodontes e vários mamutes centra-se não apenas no seu colossal tamanho, mas também nos princípios fundamentais da biomecânica. Este campo da ciência estuda a mecânica dos sistemas biológicos, e no caso dos animais terrestres, demonstra uma relação direta entre a massa corporal e a velocidade máxima que podem atingir. É um princípio inabalável que a física impõe: o tamanho importa, e muito, quando se trata de movimento.
A biomecânica dos graviportais
A partir de um peso corporal de aproximadamente 100 quilos, quanto maior for a massa de um animal, mais desafiador se torna deslocar-se rapidamente sem comprometer a integridade dos seus ossos, músculos e articulações. Para os gigantes da Terra, a estabilidade e a eficiência energética assumem uma preponderância muito superior à velocidade pura. Além disso, a forma como os animais se deslocam não é uniforme. Os grandes herbívoros, tanto os que existem hoje como os que já foram extintos, são classificados como graviportais. Esta designação descreve animais com pernas retas e colunares, perfeitamente adaptadas para suportar cargas imensas. Embora este tipo de locomoção seja extremamente seguro e energeticamente eficiente para transportar peso, tem como contrapartida uma penalização significativa na sua velocidade máxima. A necessidade de manter a estabilidade e evitar lesões estruturais impõe um limite físico intransponível à rapidez com que estes colossos podem mover-se.
Elefantes: o espelho dos colossos do passado
Para melhor compreender a forma como os gigantes do passado se moviam, os elefantes atuais servem como o espelho mais fidedigno. Sendo os maiores animais terrestres vivos, a sua locomoção oferece dados cruciais para extrapolar o comportamento dos seus antepassados e de outros megatérios extintos. Apesar da sua inegável potência e força, os elefantes não ultrapassam os 25 quilómetros por hora. Este é um limite claro, imposto pelas leis da biomecânica que regem corpos de tamanha magnitude.
Redefinindo os limites da velocidade terrestre
A compreensão do limite de velocidade dos elefantes é fundamental porque modelos mais antigos, utilizados para estimar a velocidade de dinossauros e mamutes, frequentemente previam velocidades muito superiores. O grande problema desses modelos residia na mistura de animais com anatomias de locomoção bastante diferentes em equações de cálculo. Ao ignorar as particularidades da estrutura óssea e muscular de animais graviportais, estes modelos acabavam por sobrestimar grosseiramente a velocidade real dos gigantes pré-históricos. Ao recalcular as velocidades, utilizando apenas dados comparáveis e ajustando os modelos para considerar as características específicas dos animais graviportais, os resultados são, para muitos, surpreendentes e alteram profundamente a nossa perceção destes seres magníficos.
Mamutes: mais próximos do ritmo humano
Com a revisão dos modelos e a aplicação rigorosa dos princípios da biomecânica, as estimativas de velocidade para os mamutes revelam um cenário bastante diferente daquele que perdurava no imaginário coletivo. Longe de serem corredores impetuosos, a sua velocidade máxima assemelha-se a ritmos sustentáveis para um humano.
O mamute-lanoso e o borsoni: velocidades surpreendentes
O mamute-lanoso (Mammuthus primigenius), uma espécie que podia atingir cerca de seis toneladas, emerge como o mais rápido do grupo de mamutes analisados. No entanto, a sua velocidade máxima raramente ultrapassaria ligeiramente os 20 km/h. Se compararmos este ritmo com o de um ser humano, estamos a falar de um passo acelerado ou de uma corrida contínua e exigente, mas, inequivocamente, está muito aquém de um sprint ou de uma fuga desesperada. Já o Mammuthus borsoni, uma espécie ainda mais colossal que podia pesar até 16 toneladas, teria dificuldades em ultrapassar os 15 km/h. Em termos práticos, uma pessoa bem treinada conseguiria manter uma corrida contínua e alegre ao lado deste gigante, sem grande dificuldade em acompanhar o seu ritmo. Esta descoberta reescreve a dinâmica que imaginamos entre humanos e mamutes no Pleistoceno.
Coexistência na Península Ibérica: humanos e mamutes
Os dados relativos aos mamutes do sul da Península Ibérica oferecem uma perspetiva particularmente fascinante. O Mammuthus meridionalis, que coexistiu com os primeiros humanos na Europa Ocidental, deslocava-se a uma velocidade média de cerca de 18 km/h. Esta velocidade mantinha-se mesmo para exemplares excecionais que podiam atingir até 14 toneladas de peso. Esta nova compreensão significa que os nossos antepassados, que partilhavam a paisagem com estes animais imponentes, não enfrentavam “tanques imparáveis”. Pelo contrário, deparavam-se com gigantes cuja velocidade máxima estava ao alcance do esforço humano sustentado. Estes animais representavam uma força da natureza impressionante, mas não eram predadores velozes ou máquinas de perseguição insuperáveis, o que sugere uma interação e coexistência muito diferentes das frequentemente idealizadas.
Saurópodes: gigantes ainda mais ponderosos
Se os mamutes já se revelam mais lentos do que o esperado, os dinossauros saurópodes apresentam velocidades ainda mais reduzidas, reforçando a ideia de que o gigantismo terrestre impõe limites de movimento estritos.
Argentinossauro e Turiasaurus: caminhadas em vez de corridas
O colossal Argentinossauro (Argentinosaurus huinculensis), considerado um dos maiores animais terrestres que alguma vez existiu, teria tido uma velocidade de locomoção máxima que não ultrapassaria os 10 km/h. Este ritmo é mais comparável a uma corrida muito suave ou, na maioria das vezes, a uma caminhada rápida e enérgica. Na Europa, o Turiasaurus riodevensis, cujos restos foram descobertos na região de Teruel, em Espanha, alcançaria um máximo de cerca de 11,8 km/h. Mais uma vez, estas velocidades estão muito longe da imagem de um dinossauro a perseguir velozmente a sua presa ou a fugir a toda a velocidade. É crucial entender que estes animais não eram lentos por serem desajeitados ou ineficientes. A sua baixa velocidade máxima era uma imposição da física do gigantismo. O seu enorme sucesso evolutivo não dependeu de serem corredores mais rápidos, mas sim da sua dimensão esmagadora, da sua resistência, da sua capacidade de processar grandes volumes de alimento e da sua eficiência energética. A sua estratégia de sobrevivência residia na magnitude, não na agilidade.
Conclusão
As novas descobertas sobre a velocidade dos mamutes e dinossauros gigantes transformam radicalmente a nossa compreensão destes colossos pré-históricos. Longe dos mitos cinematográficos que os retratavam como criaturas de velocidade assombrosa, a ciência revela que a sua locomoção era regida por estritos princípios biomecânicos e físicos, limitando-os a ritmos mais próximos do esforço humano sustentado. Esta reavaliação não apenas desmistifica imagens populares, como também oferece uma perspetiva mais realista sobre a coexistência entre os primeiros humanos e a megafauna, sugerindo interações menos dramáticas e mais adaptadas à realidade da física do gigantismo. A lentidão, neste contexto, não era uma desvantagem, mas uma consequência inerente e eficaz da sua estratégia evolutiva de domínio pela dimensão.
FAQ
Qual a velocidade máxima real dos mamutes e dinossauros gigantes?
Um estudo recente indica que os mamutes-lanosos podiam atingir cerca de 20 km/h, enquanto os mamutes mais pesados, como o Mammuthus borsoni, ficavam-se pelos 15 km/h. Os dinossauros saurópodes, como o Argentinossauro, eram ainda mais lentos, não ultrapassando os 10 km/h, um ritmo mais parecido com uma caminhada rápida.
De que forma a biomecânica influencia a velocidade de animais de grande porte?
A biomecânica impõe limites estritos: quanto maior a massa corporal de um animal (acima de 100 kg), maior a dificuldade em mover-se rapidamente sem comprometer ossos e articulações. Animais graviportais, com pernas retas para suportar peso, priorizam a estabilidade e a eficiência energética em detrimento da velocidade.
Os humanos primitivos conseguiam fugir de um mamute?
Sim, os dados sugerem que os humanos que coexistiram com mamutes, como o Mammuthus meridionalis na Península Ibérica (velocidade máxima de 18 km/h), não enfrentavam “tanques imparáveis”. A sua velocidade máxima estava ao alcance do esforço humano sustentado, permitindo uma coexistência mais plausível e menos perigosa do que se pensava.
Porque é que as estimativas anteriores sobre a velocidade destes gigantes estavam erradas?
As estimativas antigas frequentemente misturavam dados de animais com anatomias de locomoção muito distintas em equações de cálculo. Esta abordagem levava a uma sobrestimação da velocidade real dos gigantes, pois não considerava as restrições biomecânicas específicas dos animais graviportais, como os mamutes e os saurópodes.
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Fonte: https://www.tempo.pt