Início » O estranho ‘dedo’ fronteiriço nos Balcãs complica o espaço Schengen

O estranho ‘dedo’ fronteiriço nos Balcãs complica o espaço Schengen

Por Portugal 24 Horas

No coração da Península dos Balcãs, onde a lógica geográfica parece desvanecer-se, existe uma fronteira que desafia todas as expectativas. Uma anomalia territorial, com cerca de três quilómetros de comprimento e uma largura irrisória, traça uma delimitação única entre a Croácia e a Bósnia e Herzegovina. Esta curiosa faixa de terra, frequentemente referida como o “dedo” de Donji Tiškovac, insere-se nos imponentes Alpes Dináricos e representa uma das mais invulgares e menos conhecidas fronteiras do continente europeu. Longe das rotas turísticas convencionais, esta divisão administrativa, que mais parece um capricho, adquiriu recentemente uma relevância geopolítica considerável. Com a adesão da Croácia à União Europeia e, subsequentemente, ao espaço Schengen, este corredor montanhoso transformou-se num ponto de controlo externo crucial, evidenciando como a topografia pode complicar as políticas de livre circulação.

O enigmático “dedo” de Donji Tiškovac

Uma anomalia geográfica nos Alpes Dináricos

A estranha configuração desta fronteira emerge a sudoeste da Bósnia e Herzegovina, a cerca de um quilómetro da pequena aldeia de Donji Tiškovac. Aqui, o território bósnio estende-se de forma antinatural, penetrando o solo croata como uma agulha fina ou um dedo apontado para o mar. Esta forma peculiar não encontra correspondência em qualquer padrão topográfico comum na região, o que a torna um caso de estudo fascinante e único. As dimensões deste corredor são, por si só, notáveis. Embora se estenda por mais de três quilómetros, a sua largura máxima atinge apenas 200 metros. O que mais surpreende é a sua base, uma secção extremamente estreita que varia entre os 40 e os 70 metros. É um corredor tão diminuto que quase se poderia atravessar com um fôlego suspenso, tornando a gestão territorial neste espaço comprimido e isolado numa tarefa verdadeiramente complexa.

Ao contrário da maioria das fronteiras naturais, não existe qualquer barreira geográfica evidente, como um rio, um vale profundo ou uma cadeia montanhosa, que justifique esta separação. A linha divisória é puramente imaginária, traçada através de um terreno rochoso. É um limite invisível que mantém duas nações separadas num espaço onde a coexistência física é quase íntima, desafiando a premissa de que as fronteiras devem ser largas, claras e, idealmente, defendíveis através de acidentes geográficos. A origem exata desta forma tão incomum permanece um mistério para muitos, incluindo especialistas locais, que não conseguiram encontrar uma justificação histórica clara para a inclusão desta faixa de terra bósnia com um formato tão peculiar.

Os desafios para o espaço Schengen

A importância deste apêndice territorial, que antes era apenas uma linha interna dentro da antiga Jugoslávia, intensificou-se drasticamente com o tempo. A adesão da Croácia à União Europeia e, mais tarde, a sua entrada no espaço Schengen em 2023, transformou este estreito corredor montanhoso num dos mais delicados e complexos pontos de controlo fronteiriço externo de toda a União Europeia. Garantir a segurança ao longo de um perímetro tão irregular e exíguo representa um desafio logístico monumental para as autoridades fronteiriças.

Transformar uma faixa de terra com menos de 50 metros de largura, rodeada por montanhas e densa vegetação, numa barreira eficaz para o espaço Schengen – a área de livre circulação que aboliu os controlos nas fronteiras internas entre os países membros – exige um investimento constante de recursos humanos e tecnológicos. Qualquer passo em falso nesta fina língua de terra implica entrar ou sair ilegalmente da União Europeia. Esta situação confere a este canto esquecido dos Balcãs uma gravidade legal que contrasta marcadamente com a sua aparência quase inofensiva num mapa. A ausência de elementos geográficos naturais que marquem a separação entre os dois países coloca toda a responsabilidade na vigilância humana e tecnológica para controlar o fluxo de pessoas e bens. É um paradoxo: um lugar que parece ter sido desenhado sem qualquer lógica por uma criança tornou-se uma peça essencial da geopolítica moderna, demonstrando que os mapas ainda guardam segredos capazes de complicar a vida das burocracias mais sofisticadas.

Outras fronteiras invulgares na Europa e no mundo

Baarle e o caos administrativo

O caso dos Balcãs não é, contudo, o único que surpreende pela sua peculiaridade fronteiriça. Existem outros locais, especialmente no Velho Continente, onde a política e a história ignoraram a funcionalidade urbana ou a lógica geográfica. Um exemplo notório é Baarle, um município que se estende entre a Bélgica e a Holanda, formando um verdadeiro labirinto administrativo. Nesta localidade, não são as montanhas ou os rios que dividem, mas sim uma complexa teia de 22 enclaves belgas e 7 holandeses, tão intrincados que as fronteiras atravessam casas, lojas e até mesmo salas de estar. Os habitantes de Baarle veem-se obrigados a marcar o chão com azulejos especiais para saberem em que país estão a dormir, uma demonstração diária do absurdo da coexistência fronteiriça.

O Hotel Arbez e a Biblioteca Haskell

Esta tendência para o absurdo administrativo tem contrapartidas igualmente fascinantes noutros pontos do globo. O Hotel Arbez, localizado precisamente na linha divisória entre a França e a Suíça, perto de Genebra, é fruto da astúcia de um empresário que construiu a propriedade antes da assinatura de um tratado fronteiriço. Hoje, os hóspedes podem desfrutar de um jantar num restaurante binacional ou dormir com a cabeça num país e os pés noutro.

Além disso, a Biblioteca Haskell, que abriga uma casa de ópera, está estrategicamente dividida: a sua entrada principal encontra-se nos Estados Unidos, enquanto a maioria da sala de espetáculos e o palco estão no Canadá. Situações semelhantes existiram outrora em Cooch Behar, uma região fronteiriça entre a Índia e o Bangladesh, um intrincado delírio de enclaves dentro de enclaves que, felizmente, foi simplificado há cerca de uma década. Outra curiosidade é a cidade espanhola de Llivia, completamente rodeada por território francês, configurando um enclave espanhol em pleno território gaulês.

Todos estes exemplos recordam-nos que as fronteiras, embora muitas vezes percebidas como elementos fixos e naturais, são, na verdade, construções humanas. Moldadas pelas reviravoltas da história, pelos acordos políticos e, por vezes, pela pura capricho ou erro, estas anomalias provam que a realidade é frequentemente mais surpreendente e complexa do que qualquer ficção, continuando a desafiar mapas e burocracias em todo o mundo.

Fonte: https://www.tempo.pt

Você deve gostar também