Portugal impulsiona liderança global em serviços de TI de alto valor

Carlos Lourenço, Senior Vice President, CGI

Portugal está em franca ascensão, consolidando a sua posição como um interveniente de destaque na economia digital global. O país possui condições ímpares para reforçar o seu estatuto como um prestador global de serviços de TI de elevado valor, atraindo investimentos e talentos. Esta ambição, contudo, não se apoia apenas na infraestrutura tecnológica ou na capacidade de inovação; reside fundamentalmente na compreensão de que a tecnologia, longe de diminuir o valor humano, o transforma. A evolução digital não elimina a necessidade de intervenção humana, mas sim a redireciona para funções de maior análise, responsabilidade estratégica e criatividade, redefinindo o paradigma do trabalho no século XXI e posicionando Portugal na vanguarda desta transição.

Portugal como polo de excelência tecnológica

Portugal tem vindo a traçar um percurso notável no panorama tecnológico mundial, posicionando-se como um destino atrativo para o investimento e desenvolvimento na área das Tecnologias de Informação. As características intrínsecas do país, aliadas a uma estratégia focada no desenvolvimento digital, criam um ambiente propício para que Portugal não só reforce, mas lidere o fornecimento de serviços de TI de alto valor a nível global. A sua relevância crescente é um testemunho da aposta contínua na inovação, na formação de talentos e na criação de um ecossistema robusto.

A vantagem competitiva e o ecossistema inovador

A localização geográfica estratégica de Portugal, à porta da Europa e com ligações privilegiadas a África e às Américas, confere-lhe uma vantagem horária que facilita a colaboração em projetos globais. Mais importante, o país beneficia de uma força de trabalho altamente qualificada, proveniente de um sistema de ensino superior que aposta fortemente em áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). As universidades e politécnicos portugueses produzem anualmente milhares de graduados em engenharia informática e outras disciplinas tecnológicas, muitos dos quais dominam fluentemente o inglês e outras línguas, tornando-os ideais para equipas internacionais.

Adicionalmente, Portugal oferece um custo de vida e de operação empresarial mais competitivo em comparação com outros centros tecnológicos da Europa Ocidental, sem comprometer a qualidade de vida. Esta combinação tem sido um ímã para nómadas digitais, expatriados e empresas que procuram expandir as suas operações. O ecossistema de startups floresce, apoiado por incubadoras, aceleradoras e uma rede crescente de investidores. Iniciativas governamentais, como o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), canalizam fundos significativos para a transição digital, incentivando a inovação, a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico em todo o território. A qualidade de vida, o clima ameno e a cultura vibrante também contribuem para a atração e retenção de talentos globais, solidificando a reputação de Portugal como um centro tecnológico vibrante e em crescimento.

Infraestruturas e especialização em áreas chave

A aposta em infraestruturas digitais de ponta é outro pilar da estratégia portuguesa. O país possui uma extensa rede de fibra ótica e está na vanguarda da implementação da tecnologia 5G, garantindo conectividade de alta velocidade e baixa latência essencial para serviços de TI modernos. Esta infraestrutura robusta serve de base para o desenvolvimento de soluções complexas em áreas como a inteligência artificial (IA), cibersegurança, computação na nuvem (cloud computing), ciência de dados e desenvolvimento de software.

Portugal tem vindo a especializar-se em nichos de mercado de alto valor, como a construção de plataformas SaaS (Software as a Service), soluções de fintech, agritech e cleantech, bem como o desenvolvimento de componentes avançados para a indústria 4.0. A adesão de Portugal à União Europeia, e o consequente alinhamento com regulamentações como o RGPD (Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados), confere uma camada adicional de confiança e segurança aos serviços prestados, sendo um diferencial competitivo para empresas que procuram parceiros que garantam a conformidade e a proteção de dados. Grandes multinacionais de tecnologia já estabeleceram centros de desenvolvimento e serviços em Portugal, confirmando a capacidade do país para albergar operações de elevado perfil e complexidade. A crescente especialização e a qualidade das infraestruturas posicionam Portugal como um player incontornável na exportação de serviços de TI.

A simbiose entre tecnologia e valor humano

A ascensão tecnológica, frequentemente associada à automação e à potencial substituição de postos de trabalho, adquire em Portugal uma interpretação mais matizada: a de uma oportunidade para realçar e redefinir o valor humano. A visão dominante é que a tecnologia não elimina o contributo das pessoas, mas antes o eleva, libertando-as de tarefas repetitivas e permitindo-lhes focar-se em domínios que exigem capacidades intrinsecamente humanas, como a análise crítica, a criatividade e a tomada de decisões estratégicas. Esta simbiose entre o avanço tecnológico e o desenvolvimento do capital humano é crucial para o posicionamento de Portugal no cenário global.

Redefinição de funções e o imperativo da requalificação

A automação, impulsionada por algoritmos avançados e robótica, é um dado adquirido. No entanto, o seu impacto traduz-se mais numa transformação do que numa eliminação de funções. Tarefas rotineiras e padronizadas são progressivamente assumidas por máquinas, libertando os colaboradores para se dedicarem a atividades de maior valor acrescentado. Este cenário cria uma imperativa necessidade de requalificação (reskilling) e aperfeiçoamento (upskilling) da força de trabalho. Profissionais de diversas áreas são chamados a desenvolver novas competências, desde a literacia digital avançada à proficiência em ferramentas de análise de dados, gestão de projetos ágeis ou compreensão de princípios de inteligência artificial.

Surgem, assim, novas profissões e especializações que exigem uma combinação de conhecimentos técnicos e habilidades interpessoais. Exemplos incluem especialistas em ética de IA, analistas de dados, arquitetos de cloud computing, designers de experiência do utilizador (UX/UI), engenheiros de machine learning e consultores de transformação digital. As empresas portuguesas e as instituições de ensino têm vindo a reagir a esta tendência, investindo em programas de formação contínua e em parcerias com o setor tecnológico para garantir que o capital humano do país se mantém relevante e adaptável às exigências de um mercado em constante mutação. A capacidade de Portugal para fomentar esta requalificação é um fator determinante para a sua resiliência e competitividade.

Competências humanas no centro da inovação digital

No cerne da inovação digital, persistem as competências humanas insubstituíveis. Enquanto a tecnologia pode processar grandes volumes de dados e executar tarefas complexas, o pensamento crítico, a resolução de problemas complexos, a criatividade e a inteligência emocional continuam a ser atributos exclusivamente humanos. Estas habilidades são cruciais para a interpretação de dados, a formulação de estratégias inovadoras, a conceção de produtos e serviços que respondam a necessidades humanas e a gestão de equipas multidisciplinares.

A capacidade de Portugal em desenvolver e nutrir estas competências é um diferencial competitivo. As instituições de ensino, desde o ensino básico ao superior, estão a adaptar os seus currículos para promover não apenas o conhecimento técnico, mas também as chamadas “soft skills”. A colaboração, a comunicação eficaz e a adaptabilidade tornam-se tão importantes quanto a programação ou a análise de sistemas. A supervisão humana em sistemas de IA, a validação de algoritmos e a tomada de decisões estratégicas em cenários incertos reforçam a ideia de que a tecnologia é uma ferramenta poderosa que amplifica o potencial humano, mas não o substitui na totalidade. A visão portuguesa é a de que o futuro do trabalho passa por uma “aumentação” do ser humano pela tecnologia, onde a colaboração entre ambos leva a resultados que seriam inatingíveis por qualquer um separadamente.

Perspetivas futuras e o caminho para a liderança

O caminho que Portugal tem vindo a trilhar no setor das tecnologias de informação demonstra um compromisso claro com a inovação e o desenvolvimento. A capacidade de atrair talento, investir em infraestruturas e adaptar-se às dinâmicas do mercado global de serviços de TI de elevado valor coloca o país numa posição privilegiada. A valorização do capital humano, através da requalificação e do foco em competências intrinsecamente humanas, afigura-se essencial para solidificar esta liderança.

Para o futuro, será crucial manter e reforçar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, incentivar a colaboração entre a academia, a indústria e o setor público, e continuar a promover um ambiente regulatório favorável à inovação. A adaptabilidade será a chave, exigindo que Portugal se mantenha atento às tendências emergentes, como a computação quântica, a Web3 ou a biotecnologia digital, e que prepare a sua força de trabalho para os desafios e oportunidades que estas trarão. Ao fazê-lo, Portugal não só consolidará a sua posição como um prestador global de serviços de TI de alto valor, mas também poderá servir de modelo para outras nações na forma como a transição digital pode ser gerida de forma humana e estratégica, garantindo um futuro próspero e equitativo.

Fonte: https://sapo.pt

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