Portugal saúda reeleição de Touadéra e reafirma compromisso com a RCA

© Dursun Aydemir/Anadolu via Getty Images

A diplomacia portuguesa, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, veio a público saudar a recente realização de eleições na República Centro-Africana (RCA) e a consequente reeleição do Presidente Faustin-Archange Touadéra para um terceiro mandato. Numa comunicação oficial, Portugal sublinhou o seu papel ativo no seio da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana (MINUSCA) e reforçou o compromisso com o diálogo bilateral, europeu e no âmbito das Nações Unidas, um posicionamento que reflete a importância estratégica e humanitária que a estabilidade na RCA representa para a comunidade internacional. Este reconhecimento, contudo, surge num contexto de considerável controvérsia interna, após o Tribunal Constitucional da RCA ter validado os resultados eleitorais, rejeitando as alegações de fraude massiva apresentadas pela oposição, que contestou a legitimidade do processo e, em particular, a possibilidade de um terceiro mandato presidencial.

A posição de Portugal e o contexto diplomático

Felicitações e o papel na MINUSCA

O Ministério dos Negócios Estrangeiros português, tutelado por Paulo Rangel, formalizou as suas felicitações ao Presidente Faustin-Archange Touadéra pela sua reeleição na República Centro-Africana. Este gesto diplomático, divulgado na rede social X, não se limitou a um cumprimento protocolar, mas incluiu um reforço do empenho de Portugal na estabilização da RCA. A mensagem destacou de forma explícita o contributo de Portugal no âmbito da MINUSCA, a missão das Nações Unidas que opera no país, e reiterou o compromisso com um diálogo contínuo. Este diálogo abrange múltiplas plataformas: bilateralmente com a RCA, a nível europeu, através da União Europeia, e no palco global das Nações Unidas, onde Portugal tem sido um defensor ativo de soluções para a paz e segurança internacionais.

A postura portuguesa reflete uma política externa que valoriza o multilateralismo e a intervenção em zonas de conflito, particularmente em países de língua oficial portuguesa ou com ligações históricas e estratégicas. A República Centro-Africana, embora não seja um país de língua portuguesa, é uma nação africana que enfrenta desafios complexos, onde a presença portuguesa na MINUSCA assume um carácter de solidariedade e de contribuição para a segurança e estabilização regionais, alinhando-se com os princípios da política externa nacional de promoção da paz e dos direitos humanos.

O processo eleitoral na República Centro-Africana

Reeleição contestada e alterações constitucionais

A reeleição do Presidente Faustin-Archange Touadéra para um terceiro mandato foi confirmada pelo Tribunal Constitucional da República Centro-Africana, que anunciou os resultados definitivos e rejeitou um recurso da oposição que visava anular o escrutínio. Touadéra obteve uma vitória expressiva, com 77,90% dos votos, enquanto o seu principal opositor, Anicet George Dologuélé, que denunciou publicamente uma fraude eleitoral “maciça” e apresentou um recurso legal, ficou em segundo lugar com 13,50% dos votos. A contestação não é inédita; Touadéra, eleito pela primeira vez em 2016 e reeleito em 2020, já havia enfrentado acusações semelhantes de irregularidades nos processos eleitorais anteriores.

A controversa possibilidade de um terceiro mandato adveio de uma nova Constituição, aprovada em julho de 2023, que permitiu a Touadéra recandidatar-se. Esta alteração constitucional foi amplamente criticada pela oposição e por setores da sociedade civil, que a interpretaram como um estratagema para perpetuar o poder e minar os princípios democráticos do país. A aprovação da nova Carta Magna gerou tensões políticas significativas, exacerbando a desconfiança em relação ao processo eleitoral e à integridade das instituições.

Participação eleitoral e cenário de segurança

As eleições na República Centro-Africana, que incluíram quatro escrutínios simultâneos – presidencial, legislativo, regional e municipal – foram realizadas no final de dezembro, num cenário de segurança particularmente volátil. A Autoridade Nacional Eleitoral (ANE) reportou uma taxa de participação de 52,43%, o que, embora modesta, reflete os desafios logísticos e de segurança inerentes à organização de um ato eleitoral num país com infraestruturas precárias e áreas sob controlo de grupos armados.

A segurança tem sido uma preocupação constante na RCA, que tem sido palco de anos de conflito armado e instabilidade. A realização das eleições, nomeadamente as municipais – as primeiras em 37 anos –, representa um marco importante, ainda que frágil, nos esforços de democratização e estabilização. No entanto, a tensão latente em termos de segurança e as acusações de fraude ensombram a perceção de legitimidade dos resultados, alimentando a polarização política e social num país já profundamente dividido.

Desafios e riquezas de um país em conflito

Realidade socioeconómica e potencial inexplorado

A República Centro-Africana é classificada como um dos países mais empobrecidos do mundo, profundamente dependente da ajuda internacional para sustentar os seus serviços básicos e infraestruturas. Apesar desta realidade desoladora, o país possui vastas reservas de recursos naturais cobiçados, incluindo urânio, lítio, diamantes, madeira e ouro. Esta riqueza mineral, ironicamente, tem sido um fator de instabilidade, alimentando conflitos e atraindo interesses externos predatórios, em vez de impulsionar o desenvolvimento e o bem-estar da sua população.

A esmagadora maioria dos cerca de 5,5 milhões de habitantes da RCA – mais de 70% – vive abaixo do limiar da pobreza, enfrentando condições de vida extremamente precárias. A falta de serviços básicos como água potável, saneamento, energia e saúde é generalizada. As estradas são, na sua maioria, intransitáveis, dificultando o acesso a regiões remotas e o escoamento de produtos. O desemprego é endémico, especialmente entre os jovens, e a taxa de escolaridade é alarmantemente baixa, limitando as perspetivas de futuro para as novas gerações. Adicionalmente, o custo de vida tem vindo a aumentar, agravando ainda mais a situação de vulnerabilidade de milhões de centro-africanos. Este panorama complexo sublinha a urgência de uma intervenção coordenada e sustentável para abordar as raízes da pobreza e da instabilidade.

O papel crucial da MINUSCA e a contribuição portuguesa

Esforços de paz e estabilização

A MINUSCA, estabelecida em 2014, tem desempenhado um papel fundamental nos esforços de estabilização da República Centro-Africana. A missão das Nações Unidas foi crucial na facilitação do Acordo de Paz de 2019, assinado entre o governo e vários grupos armados do país, um passo significativo para tentar pôr termo a anos de violência. Desde então, a MINUSCA tem apoiado ativamente os mecanismos de paz locais e tem sido instrumental na implementação de operações de desmobilização, desarmamento e reintegração (DDR) de ex-combatentes. Estes esforços resultaram na entrega de armas por parte de mais de 6.300 combatentes, contribuindo para a redução da violência e a construção de um ambiente mais seguro, ainda que frágil.

Além da sua intervenção direta em operações de segurança e manutenção da paz, a missão das Nações Unidas tem sido um pilar na organização de processos democráticos. A MINUSCA participou na supervisão e assistência a várias eleições, incluindo as históricas votações de 28 de dezembro de 2023, que, com as suas quatro votações simultâneas, representaram um desafio logístico e de segurança sem precedentes, especialmente com a realização das primeiras eleições municipais em quase quatro décadas. Em outubro, a MINUSCA mantinha um contingente robusto de aproximadamente 17.420 militares e polícias destacados no país, com a missão primordial de apoiar a paz e a estabilidade num território devastado por conflitos e uma grave crise humanitária.

A presença de Portugal na missão das Nações Unidas

Portugal é um dos países que integram ativamente a MINUSCA, reafirmando o seu compromisso com a paz e a segurança internacionais. Segundo dados do Ministério da Defesa Nacional, na altura das recentes eleições, Portugal contava com 220 operacionais destacados na República Centro-Africana, integrando a 17.ª Força Nacional Destacada. Estes militares e polícias portugueses desempenham funções cruciais no apoio à missão, contribuindo com a sua experiência e recursos para as operações de segurança, formação e assistência humanitária.

A participação de Portugal na MINUSCA não só demonstra o seu papel como parceiro credível nas operações de paz das Nações Unidas, mas também sublinha a importância de uma abordagem coletiva para enfrentar os desafios complexos de países como a RCA. A presença portuguesa contribui diretamente para a proteção de civis, a estabilização das instituições estatais e a criação de condições para o desenvolvimento sustentável, num país onde a necessidade de apoio internacional continua a ser premente.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. O que é a MINUSCA e qual o seu principal objetivo?
A MINUSCA (Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana) foi criada em 2014 com o objetivo principal de proteger os civis na RCA. Além disso, a missão apoia a implementação do processo de paz, promove o desarmamento e a reintegração de grupos armados, facilita a assistência humanitária e ajuda na restauração da autoridade estatal.

2. Por que a reeleição do Presidente Touadéra é considerada controversa?
A reeleição do Presidente Faustin-Archange Touadéra é controversa principalmente porque envolveu uma alteração constitucional em julho de 2023, que lhe permitiu candidatar-se a um terceiro mandato. Esta mudança foi amplamente criticada pela oposição e por observadores como um movimento para consolidar o poder. Além disso, houve acusações de fraude massiva durante o processo eleitoral, embora estas tenham sido rejeitadas pelo Tribunal Constitucional.

3. Qual o papel de Portugal na República Centro-Africana e na MINUSCA?
Portugal desempenha um papel ativo na República Centro-Africana através da sua participação na MINUSCA. O país contribui com militares e polícias para a missão das Nações Unidas, apoiando as operações de manutenção da paz, segurança e estabilização no território centro-africano. A presença portuguesa reflete o compromisso com a diplomacia multilateral e a promoção da paz e dos direitos humanos.

4. Quais são os principais desafios socioeconómicos da República Centro-Africana?
A República Centro-Africana é um dos países mais pobres do mundo, com mais de 70% da população a viver abaixo do limiar da pobreza. Os principais desafios incluem a falta de serviços básicos (saúde, educação, saneamento), infraestruturas precárias (estradas intransitáveis), desemprego endémico, baixa taxa de escolaridade e um custo de vida crescente. Apesar da riqueza em recursos naturais como urânio, diamantes e ouro, estes não se traduzem em benefícios para a maioria da população, sendo frequentemente causa de conflitos.

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Fonte: https://www.noticiasaominuto.com

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