No cenário tecnológico de ponta, uma mudança sísmica está a ser preparada no domínio dos processadores. Durante muitos anos, a Qualcomm, gigante dos chips topo de gama para dispositivos móveis, manteve uma dependência quase exclusiva da TSMC, a fabricante taiwanesa reconhecida pela sua performance e eficiência energética. No entanto, o paradigma que ditava esta parceria duradoura parece estar à beira de uma transformação significativa. Informações recentes, reveladas durante a CES 2026, apontam para uma estratégia inovadora da Qualcomm: a adoção de uma abordagem de dupla fundição. Esta decisão marca um regresso triunfante da Samsung ao fabrico de semicondutores de alto desempenho, prometendo reconfigurar o mercado e, potencialmente, aliviar os custos para o consumidor final. É um movimento estratégico que pode trazer a tão desejada luz ao fundo do túnel para os preços dos processadores.
Uma mudança estratégica na produção de chips
A indústria de semicondutores, com a sua complexidade e ritmos acelerados de inovação, tem sido palco de uma hegemonia particular no que toca ao fabrico de processadores de alto desempenho. Durante uma era considerável, a TSMC consolidou-se como o porto seguro da maioria das empresas que procuram a máxima performance e a melhor eficiência energética para os seus chips. Para a Qualcomm, isto significava que qualquer processador Snapdragon de topo, fundamental para a indústria de telemóveis e outros dispositivos inteligentes, seria invariavelmente produzido pela TSMC. Enquanto isso, a Samsung, apesar de ser um titã tecnológico, enfrentava desafios significativos no seu processo de fabrico de semicondutores, incluindo problemas de rendimento (yields), consumo excessivo de energia e decisões técnicas menos otimizadas, que a afastavam das grandes encomendas de terceiros para chips de ponta.
Contudo, este cenário de dependência quase total parece estar prestes a ser alterado, com a Qualcomm a delinear uma nova estratégia a partir de 2026. A gigante dos processadores móveis não pretende abandonar a TSMC, mas sim complementar a sua capacidade de produção com a Samsung, apostando numa abordagem de dupla fundição. Esta decisão representa uma viragem histórica, que não se via há mais de cinco anos, e sublinha a crescente confiança da Qualcomm na renovada capacidade de fabrico da Samsung. O mais notável é que esta não é uma especulação ou um plano a longo prazo; o próprio CEO da Qualcomm já confirmou que o trabalho de design está concluído e que o objetivo é a comercialização num futuro próximo, solidificando a decisão como uma realidade iminente.
O regresso da Samsung ao palco principal
A ascensão da Samsung como um fabricante de semicondutores de ponta não é obra do acaso, mas sim o resultado de anos de investimento e aprimoramento tecnológico. O seu processo de 2 nanómetros (nm) com arquitetura Gate-All-Around (GAA) é a pedra angular deste renascimento. Embora os rendimentos (yields) de produção ainda não sejam perfeitos, rondando os 50%, representam uma melhoria substancial em relação ao passado e são considerados suficientemente bons para atrair clientes de peso. Este processo já está a ser utilizado com sucesso no chip Exynos 2600 da própria Samsung, demonstrando a sua viabilidade e potencial.
A capacidade da Samsung de estabilizar e melhorar continuamente os seus processos de produção é crucial. À medida que os rendimentos se tornam mais robustos, a sua atratividade para empresas como a Qualcomm aumenta exponencialmente, oferecendo uma alternativa credível para quem procura fugir à dominância e, por vezes, aos preços mais elevados da TSMC. Esta prova de fogo não se limita apenas aos processadores móveis; a Samsung tem vindo a assegurar contratos importantes, desde chips de inteligência artificial para a Tesla até encomendas de fabricantes chineses de hardware especializado, sinalizando que a empresa leva a sério a sua revitalização no setor dos semicondutores.
A estratégia de dupla fundição da Qualcomm
A decisão da Qualcomm de adotar uma estratégia de dupla fundição é motivada por múltiplos fatores, que vão desde a segurança da cadeia de abastecimento até, crucialmente, à otimização de custos. Ao diversificar os seus parceiros de fabrico, a Qualcomm reduz a sua dependência de uma única entidade, mitigando riscos de produção, interrupções ou flutuações de preços. Embora a TSMC continue a ser um parceiro vital, a inclusão da Samsung assegura uma maior flexibilidade e capacidade de negociação.
Esta estratégia não só garante um fornecimento mais estável, mas também abre portas para uma competição saudável entre os fabricantes, algo que beneficia diretamente a Qualcomm e, por extensão, o mercado. A confiança expressa pelo CEO da Qualcomm, que atesta o estado avançado dos designs dos chips, valida a maturidade da tecnologia da Samsung e a seriedade deste compromisso. É um movimento que posiciona a Qualcomm para uma maior resiliência e inovação num setor cada vez mais exigente e globalizado.
Economia e inovação: o fator preço
Um dos maiores catalisadores para a mudança na estratégia da Qualcomm é, indubitavelmente, o fator preço. No mercado de semicondutores, onde os custos de produção são astronomicamente elevados e a escala das encomendas é massiva, mesmo pequenas diferenças por unidade podem resultar em poupanças gigantescas. A Samsung apresentou uma proposta de valor extremamente competitiva, que se tornou difícil de ignorar.
Diferenças de custo: Samsung vs. TSMC
Os dados revelados sobre os custos de produção são esclarecedores. A Samsung está a cobrar cerca de 20 mil dólares por wafer no seu processo de 2nm GAA, enquanto a TSMC exige aproximadamente 30 mil dólares pelo mesmo tipo de wafer. Esta diferença de 10 mil dólares por wafer é monumental, especialmente quando consideramos as centenas de milhares, ou até milhões, de wafers que empresas como a Qualcomm encomendam anualmente. Para se ter uma ideia, um wafer pode conter centenas ou milhares de chips individuais, dependendo do seu tamanho e da complexidade do design. Uma poupança de 10 mil dólares por wafer representa um benefício financeiro substancial que a Qualcomm pode repercutir, seja em maior margem de lucro ou, potencialmente, em preços mais competitivos para os seus produtos finais.
Esta assimetria de preços torna o negócio com a Samsung não só viável, mas extremamente apelativo. Permite à Qualcomm otimizar os seus custos de produção a montante, um fator crítico num mercado onde o preço de um processador como o Snapdragon 8 Elite Gen 5 já é estimado em cerca de 280 dólares por unidade. As projeções para o futuro, que apontam para que o vindouro Snapdragon 8 Elite Gen 6 Pro seja ainda mais caro, reforçam a urgência da Qualcomm em encontrar formas de controlar os custos.
O impacto no mercado e no consumidor
Embora a principal beneficiária a curto prazo seja a Qualcomm, que assegura poupanças significativas na produção, o impacto desta parceria poderá estender-se ao mercado global e, em última instância, ao bolso do consumidor. Num setor onde os preços dos componentes têm vindo a aumentar constantemente, a introdução de uma maior concorrência no fabrico de chips topo de gama é uma notícia promissora.
Para a Samsung, esta parceria é igualmente vantajosa. As estimativas apontam para receitas na ordem dos 470 milhões de dólares apenas com este acordo com a Qualcomm, dedicando cerca de 10% da capacidade da sua fábrica Hwaseong S3 a estes chips. Este volume de negócio reforça a posição da Samsung no mercado de fundição e incentiva a empresa a continuar a investir em pesquisa e desenvolvimento para melhorar ainda mais os seus processos.
Para o consumidor, a perspetiva é de que a maior concorrência e as poupanças da Qualcomm possam, eventualmente, traduzir-se em preços mais estáveis ou até ligeiramente mais baixos para dispositivos equipados com estes processadores. Embora seja prematuro prever o impacto exato, a criação de mais “oxigénio para respirar” no panorama dos preços dos processadores é um desenvolvimento bem-vindo, sugerindo que nem tudo pode ser um ciclo interminável de aumentos.
Um futuro mais competitivo e acessível para os chips
A estratégia de dupla fundição da Qualcomm, com a inclusão da Samsung como um parceiro de fabrico de chips topo de gama, representa uma viragem histórica e um sinal de maturidade para a indústria de semicondutores. Este movimento não só diversifica a cadeia de abastecimento de um dos maiores fornecedores de processadores móveis do mundo, como também introduz uma competição crucial no setor de fundição de alta tecnologia. A capacidade da Samsung de oferecer o seu processo de 2nm GAA a preços significativamente mais competitivos do que a TSMC é um fator disruptivo que pode redefinir as dinâmicas de mercado. Em última análise, esta parceria promete benefícios substanciais para a Qualcomm em termos de controlo de custos e segurança de produção, e cria a esperança de que os futuros dispositivos eletrónicos, impulsionados por chips mais acessíveis, possam oferecer uma melhor relação custo-benefício aos consumidores em Portugal e em todo o mundo. A inovação não se limita apenas à performance; estende-se também à forma como os produtos chegam ao mercado e aos preços que os consumidores estão dispostos a pagar.
Perguntas Frequentes sobre a estratégia da Qualcomm
Qual é a principal mudança na estratégia de fabrico de chips da Qualcomm?
A Qualcomm está a adotar uma estratégia de “dupla fundição”, o que significa que, além da sua parceira de longa data TSMC, também passará a encomendar chips topo de gama à Samsung. Esta é uma mudança significativa após anos de dependência quase exclusiva da TSMC para os seus processadores de alto desempenho.
Por que a Samsung é agora uma alternativa viável para a Qualcomm?
A Samsung fez avanços consideráveis nos seus processos de fabrico de semicondutores, nomeadamente com o seu processo de 2nm GAA (Gate-All-Around). Embora os rendimentos ainda estejam a ser otimizados, a sua melhoria e a oferta de preços por wafer significativamente mais competitivos do que a TSMC tornaram a Samsung uma opção atrativa e credível para a Qualcomm.
Qual o impacto desta parceria nos preços dos processadores para o consumidor?
A introdução de concorrência no fabrico de chips de ponta, juntamente com a diferença de preço por wafer entre a Samsung e a TSMC, pode levar a uma estabilização ou mesmo a uma redução nos custos de produção para a Qualcomm. Embora não haja garantia direta de que estes cortes de custos serão totalmente transferidos para o consumidor, há uma perspetiva de que o aumento da concorrência e a otimização dos custos de fabrico possam, eventualmente, contribuir para que os dispositivos equipados com estes processadores sejam mais acessíveis ou evitem aumentos tão acentuados no futuro.
A Qualcomm vai deixar de trabalhar com a TSMC?
Não, a Qualcomm não vai deixar de trabalhar com a TSMC. A estratégia é de dupla fundição, o que significa que a Qualcomm continuará a ser um cliente da TSMC, mas irá diversificar parte das suas encomendas para a Samsung. O objetivo é reduzir a dependência de um único fornecedor, aumentar a segurança da cadeia de abastecimento e beneficiar da competição de preços.
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Fonte: https://www.leak.pt