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Sismos na Beira Interior: o despertar da falha de Vilariça

Por Portugal 24 Horas

A recente atividade sísmica na Beira Interior e no Nordeste Transmontano, com destaque para um abalo sentido em Celorico da Beira, colocou novamente em destaque a realidade dos sismos em Portugal. Este evento, que despertou a população de várias regiões, não só sublinhou a presença de fenómenos telúricos em áreas historicamente menos associadas a elevada sismicidade, como também redirecionou as atenções para a falha de Vilariça. Esta estrutura geológica ancestral, formada há cerca de 300 milhões de anos, é um lembrete vívido da dinâmica constante do nosso planeta e da complexa história geotectónica do território continental. A compreensão destes fenómenos é crucial para a prevenção e para a segurança das comunidades.

Atividade sísmica em Portugal: para além do litoral sul

O abalo em Celorico da Beira e as suas implicações

Na madrugada de 13 de dezembro, precisamente às 00h38, a Rede Sísmica do Continente registou um sismo de magnitude 4.1 na escala de Richter, com epicentro a cerca de quatro quilómetros de Celorico da Beira, no distrito da Guarda. Este abalo, que atingiu uma profundidade de 22 quilómetros, foi o segundo mais forte do ano, superado apenas por um sismo de magnitude 4.7 que afetou a região de Lisboa em 17 de fevereiro de 2025. Apesar da sua intensidade moderada e da amplitude da área onde foi sentido – abrangendo distritos como Castelo Branco, Vila Real e Viseu, e inclusive zonas próximas da fronteira com Espanha –, não foram reportados danos pessoais ou materiais significativos.

Contudo, a sua ocorrência na Beira Interior e no Nordeste Transmontano, regiões onde os sismos não são tão frequentes como na faixa costeira do sul do país, serviu como um importante alerta. O evento sublinhou que a atividade sísmica pode manifestar-se em diversas áreas do território, independentemente da sua frequência histórica, e reforçou a necessidade de vigilância e conhecimento sobre as estruturas geológicas locais que podem originar estes fenómenos. O interesse gerado foi notório, tanto nas redes sociais como na imprensa local e nacional, evidenciando a surpresa e a curiosidade da população face a um acontecimento menos usual.

Sismos no Alentejo: a interação de placas tectónicas

Além do evento em Celorico da Beira, Portugal Continental tem sido palco de outros sismos, muitos dos quais associados à interação das placas Euroasiática e Africana. Esta fronteira, uma das mais ativas, é responsável pela maioria dos sismos sentidos no país, afetando predominantemente o litoral sul e a região algarvia.

Ainda no mesmo dia do abalo na Beira Interior, às 09h39, um outro sismo foi sentido em Évora. Com epicentro a dez quilómetros a sul da cidade, este evento registou uma magnitude de 3.5 na escala de Richter, sem provocar vítimas ou estragos materiais. Os especialistas confirmaram que o sismo de Évora está diretamente ligado à pressão exercida pela placa tectónica Africana sobre a Euroasiática. O movimento constante destas placas gera falhas ativas em Portugal Continental, resultando numa maior sismicidade. Exemplo disso foram os abalos registados em Albufeira e Faro, em março, e em Almada, Sintra e Sesimbra, em fevereiro, demonstrando a distribuição geográfica da atividade sísmica impulsionada por esta dinâmica de placas.

A falha de Vilariça: uma antiga estrutura ativa

Contexto geológico e localização da falha

O sismo de Celorico da Beira direcionou as atenções para a falha de Vilariça, uma estrutura geológica de grande relevância e antiguidade. Segundo os especialistas do Centro de Interpretação da Serra da Estrela, trata-se de um grande acidente tectónico que representa a continuidade da falha da Nazaré, a sudoeste. Esta fratura geológica é impressionante pela sua extensão, rasgando os vales de Alforfa, entre a Covilhã e Unhais da Serra, projetando-se para nordeste pelo Vale da Vilariça e culminando em Puebla de Sanábria, já em Espanha, cobrindo uma distância total de aproximadamente 250 quilómetros.

A falha de Vilariça é uma estrutura tectónica muito antiga, formada há cerca de 300 milhões de anos, durante a era Paleozoica. A sua origem está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento das cadeias montanhosas da Europa, um evento geológico de grande escala conhecido como Orogenia Varisca. Apesar da sua antiguidade, é considerada uma falha ativa e encontra-se bem monitorizada pelos sismólogos. A sua importância reside não apenas na sua impressionante dimensão e história geológica, mas também na sua capacidade de gerar eventos sísmicos.

Eventos históricos e o sismo recente

Embora a falha de Vilariça apresente uma baixa atividade sísmica na atualidade, o seu histórico revela a sua capacidade de ser responsável por eventos sísmicos de relevo. Um dos mais notáveis foi o sismo de 1858, que resultou na devastação da vila de Moncorvo, no distrito de Bragança. Mais recentemente, entre julho e agosto de 1986, a falha esteve associada a uma crise sísmica que se prolongou por quase um mês, afetando os distritos de Viseu, Guarda, Vila Real, Bragança e até a região do Grande Porto, demonstrando o seu potencial de impactar uma vasta área do Norte e Centro de Portugal.

O sismo registado a 13 de dezembro, apesar da sua considerável profundidade de 22 quilómetros e de uma magnitude classificada como baixa a moderada, possui uma função didática relevante. Os sismólogos veem-no como um alerta para a imperativa necessidade de se prestar uma atenção contínua à história geológica e a todo o enquadramento geotectónico das regiões onde estes fenómenos ocorrem. O conhecimento aprofundado destas estruturas e dos mecanismos sísmicos associados é, sem dúvida, o melhor trunfo para se estar mais bem prevenido face a futuros eventos, minimizando riscos e salvaguardando vidas e património.

A importância do conhecimento e prevenção sísmica

Os recentes abalos em Portugal Continental servem como um lembrete contundente da constante atividade sísmica que molda a nossa paisagem. Da interação das placas Euroasiática e Africana que afeta o Sul, à reativação de antigas falhas como a de Vilariça nas regiões do Centro e Norte, o território português é dinâmico. Compreender a geologia que nos rodeia, os riscos associados e as melhores práticas de segurança é fundamental. O conhecimento não só permite uma melhor preparação, como também fomenta uma cultura de resiliência nas comunidades.

Perguntas frequentes sobre sismos em Portugal

Qual a principal causa dos sismos em Portugal?
A maioria dos sismos em Portugal Continental é causada pela interação e movimento das placas tectónicas Euroasiática e Africana, que colidem e deslizam uma em relação à outra, gerando falhas ativas e libertando energia acumulada sob a forma de sismos.

A falha de Vilariça é perigosa?
A falha de Vilariça é uma estrutura ativa e, como tal, tem o potencial de gerar sismos. Embora apresente uma baixa atividade sísmica na atualidade, o seu historial inclui eventos significativos. Está, no entanto, bem monitorizada, e a sua atividade é estudada para melhor compreender os riscos associados.

São comuns os sismos no Norte de Portugal?
Os sismos no Norte e Centro de Portugal são menos frequentes e geralmente de menor intensidade em comparação com os que ocorrem no Sul do país. Contudo, o sismo em Celorico da Beira e a história da falha de Vilariça demonstram que estas regiões também estão sujeitas a atividade sísmica e merecem atenção.

O que devo fazer em caso de sismo?
Em caso de sismo, siga a regra “Baixar, Proteger e Aguardar”: baixe-se para o chão, proteja a cabeça e o pescoço (e se possível, abrigue-se debaixo de uma mesa robusta) e aguarde que o abalo termine. Mantenha a calma e siga as indicações das autoridades de proteção civil.

Para aprofundar o seu conhecimento sobre a sismicidade em Portugal e aprender a agir em caso de sismo, procure informações junto do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) ou das entidades de Proteção Civil do seu município.

Fonte: https://www.tempo.pt

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