Socotra, a “Galápagos do Índico” e a sua riqueza única

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No vasto Oceano Índico, próximo ao famoso Corno de África, emerge um arquipélago de beleza singular e importância ecológica inquestionável: Socotra. Considerada um dos locais de maior biodiversidade no mundo, esta ilha isolada é frequentemente apelidada de “Galápagos do Oceano Índico”, uma denominação que sublinha a sua extraordinária riqueza natural e o seu elevado grau de endemismo. Com uma paisagem que parece ter sido talhada por lendas, Socotra alberga espécies de fauna e flora que não se encontram em mais nenhum outro lugar do planeta. A sua geologia peculiar, resultante de um passado distante, e o isolamento prolongado, transformaram-na num verdadeiro laboratório natural, onde a evolução moldou formas de vida únicas, essenciais para a conservação global.

Santuário da biodiversidade no Oceano Índico

Socotra não é apenas uma ilha; é um ecossistema vivo, pulsante com uma diversidade biológica que deslumbra cientistas e naturalistas. A sua relevância universal reside precisamente na vasta coleção de espécies endémicas, resultado de milhões de anos de isolamento e adaptação a condições climáticas extremas. Este arquipélago, um ponto quente de biodiversidade, oferece um vislumbre de um mundo primitivo, intocado pelo desenvolvimento desenfreado.

Um endemismo sem igual

A singularidade de Socotra manifesta-se de forma mais impressionante no seu extraordinário nível de endemismo. Trinta e sete por cento das suas espécies de plantas vasculares são únicas, um valor superado apenas por alguns poucos locais no mundo, como a Nova Caledónia, o Havai e as Ilhas Galápagos. No reino animal, os números são ainda mais surpreendentes: 90% das 34 espécies de répteis identificadas na ilha são endémicas, assim como 95% das 96 espécies de caracóis terrestres. Esta estatística sublinha a importância crítica de Socotra para a conservação global da biodiversidade.

Mas a vida em Socotra não se limita ao que se encontra em terra. As suas águas costeiras são igualmente ricas e diversas. Os recifes de coral que circundam a ilha abrigam 253 espécies de caracóis construtores de recifes, contribuindo para um ecossistema marinho vibrante. Foram identificadas 730 espécies de peixes costeiros, além de cerca de 300 espécies de caranguejos, camarões e lagostas. Este mosaico de vida marinha complementa a riqueza terrestre, tornando Socotra um verdadeiro santuário natural em todas as suas vertentes.

Património Mundial e Reserva da Biosfera

Reconhecendo a sua importância inestimável, as Nações Unidas, através da UNESCO, declararam o Arquipélago de Socotra como Património Mundial em 2008. Esta designação abrange cerca de 75% da área total da ilha, incluindo zonas de especial interesse botânico e parques nacionais. A decisão baseou-se no elevado grau de endemismo e na integridade ecológica do arquipélago.

Além disso, a UNESCO também designou Socotra como Reserva do Homem e da Biosfera, uma distinção que visa promover a coexistência harmoniosa entre as comunidades locais e a natureza, garantindo a conservação dos ecossistemas enquanto se exploram formas de desenvolvimento sustentável. A presença humana em Socotra, com a sua cultura e práticas tradicionais, tem desempenhado um papel na manutenção da sua biodiversidade ao longo dos séculos, e a colaboração entre a ciência e o conhecimento local é crucial para o seu futuro.

Uma geografia peculiar e uma história antiga

A geografia de Socotra é tão distintiva quanto a sua biodiversidade. A sua localização remota e a sua origem geológica particular contribuíram para a sua evolução única, moldando a paisagem e influenciando o clima que permitiu o florescimento de tantas espécies endémicas.

Ilha nascida de Gondwana

Ao contrário de muitas ilhas oceânicas de origem vulcânica, Socotra tem uma génese muito mais antiga e fascinante. Este arquipélago corresponde a um fragmento de Gondwana, o antigo supercontinente meridional que se desmembrou há milhões de anos. Este facto geológico explica a sua formação isolada e a consequente evolução de uma flora e fauna tão distintas.

Situado no Oceano Índico, entre a Península Arábica e o Corno de África, Socotra encontra-se a aproximadamente 240 quilómetros a leste do Cabo Guardafui, na Somália. A sua posição estratégica no passado, no cruzamento de rotas marítimas, conferiu-lhe também uma rica história cultural e comercial, ligada ao comércio de resinas e produtos aromáticos.

Zonas climáticas e características geográficas

O arquipélago de Socotra estende-se por cerca de 132 quilómetros de comprimento e 49 quilómetros de largura, abrangendo uma superfície total de 3.796 quilómetros quadrados. Este território divide-se em três zonas principais: um planalto calcário no interior, as imponentes montanhas Hagghier que alcançam os 1.500 metros de altitude, e as planícies costeiras que orlam a ilha. A paisagem é dominada por um clima semi-desértico, com uma temperatura média superior a 25°C.

A precipitação anual é geralmente baixa, embora as terras altas do interior recebam mais chuva do que as zonas costeiras. A estação das monções, entre junho e setembro, é caracterizada por ventos extremamente fortes e ondas altas, que contribuíram para o isolamento e a formação de paisagens esculpidas pela natureza. Juntamente com as ilhas vizinhas de Abd Al-kuri, Darsa e Samha, Socotra forma um dos grupos de ilhas com maior diversidade botânica do mundo, um tesouro inestimável para a ciência e para o planeta.

Tesouros da flora de Socotra

O longo período de isolamento e as condições climáticas extremas de Socotra resultaram numa flora incrivelmente rica e adaptada. Muitas das suas espécies vegetais são de grande interesse científico, algumas delas icónicas e verdadeiramente únicas no mundo.

A árvore-sangue-de-dragão e o incenso

Entre as espécies mais emblemáticas da flora de Socotra encontra-se a Dracaena cinnabari, mais conhecida como árvore-sangue-de-dragão. O seu nome peculiar deve-se à seiva de cor vermelha intensa que brota de qualquer ferimento na sua casca, um líquido que, desde a antiguidade, tem sido utilizado para fins cosméticos e medicinais. A sua silhueta singular, semelhante a um guarda-chuva invertido, é uma imagem distintiva da paisagem socotrina.

Outra árvore de grande importância é o incenso. Das 24 espécies de incenso existentes no mundo, oito são endémicas deste arquipélago, destacando a sua relevância como centro de diversidade para esta valiosa planta. As resinas aromáticas e curativas destas árvores, historicamente procuradas, atestam a riqueza botânica e o valor económico e cultural da ilha.

Resinas com história e lendas

Socotra é um território historicamente conhecido pela produção de resinas aromáticas e curativas, como o melhor aloé, gomas de plantas endémicas, mirra e incenso. A ilha desempenhou um papel fundamental na indústria naval e comercial do Mar Arábico, com as suas preciosas resinas a serem transportadas por antigas rotas comerciais. A origem do nome “Socotra” é, ela própria, um mistério envolto em múltiplas histórias e lendas que refletem a sua antiguidade e a sua importância cultural.

Em tempos de guerra, diz-se que Socotra produzia aloés milagrosos que curavam romanos e gregos. Esta reputação mística e curativa contribuiu para a aura de mistério que rodeia a ilha. Da região provém um grande número de mitos e lendas, havendo quem afirme que os feiticeiros mais poderosos do mundo antigo vieram desta parte remota do planeta, acrescentando uma camada de fascínio e intriga a este santuário natural.

O legado e o futuro de Socotra

O arquipélago de Socotra é, sem dúvida, um dos tesouros mais preciosos do nosso planeta. A sua biodiversidade excecional, o seu elevado grau de endemismo e a sua história geológica única conferem-lhe um valor incalculável para a ciência e para a conservação global. O seu isolamento secular, que por um lado protegeu a sua singularidade, por outro, representa um desafio para a sua preservação no mundo moderno. A ilha continua a ser um testemunho vivo da capacidade da natureza para evoluir e prosperar em condições extremas, oferecendo lições vitais sobre a resiliência dos ecossistemas. A sua designação como Património Mundial e Reserva da Biosfera da UNESCO é um reconhecimento da sua importância e um compromisso com a sua proteção, garantindo que as futuras gerações possam continuar a maravilhar-se com esta “Galápagos do Índico” e a sua riqueza inigualável.

Fonte: https://www.tempo.pt

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