A Somalilândia emerge silenciosamente como um pilar estratégico no Corno de África, ecoando uma importância que remonta a séculos. Esta região, historicamente uma artéria vital para o comércio global desde o século XV, retoma hoje o seu papel preponderante. Tal como Portugal, sob a liderança de D. Manuel I, redefiniu as rotas marítimas globais ao expandir-se pela costa oriental africana, a Somalilândia contemporânea está a moldar o futuro logístico da região. Com um posicionamento geográfico ímpar no Golfo de Áden e Mar Vermelho, procura transformar-se num ponto de pressão estratégico. A Somalilândia, ao inovar nas suas infraestruturas e governação, está a criar uma vantagem económica vital, aproveitando o potencial de uma das localizações mais críticas do mundo, um facto já reconhecido pelos navegadores portugueses.
O legado português e a redefinição das rotas globais
A expansão marítima portuguesa, iniciada no século XV, visava desafiar os monopólios comerciais existentes e estabelecer novas rotas diretas para a Europa e o Oriente. A costa oriental de África tornou-se um palco crucial para este desígnio.
A Carreira da Índia e o controlo costeiro
No século XVI, a presença portuguesa na África Oriental centrava-se menos na exploração territorial e mais no estabelecimento de uma rede estratégica de controlo costeiro. O objetivo primordial era dominar a rota comercial para a Índia e o Oriente, conhecida como a Carreira da Índia.
A rota principal (Lisboa – Goa)
A principal rota portuguesa de Lisboa para a Índia passava inevitavelmente pela África Oriental.
Ponto de Partida e Reabastecimento: O Cabo da Boa Esperança (África do Sul) era essencial para contornar o continente. Baías como Saldanha ou da Mesa eram usadas para reabastecimento de água e reparações iniciais das naus.
Ponto de Controlo e Escalas (Costa Oriental): A Ilha de Moçambique destacava-se como o ponto de escala mais vital e estratégico na África Oriental. Servia como:
Local de Reparação e Invernada: Crucial para o reabastecimento e reparação de embarcações antes da travessia para a Índia, especialmente durante os meses de ventos desfavoráveis (monções).
Centro de Comércio: Atuava como um centro de troca, onde ouro e marfim do interior (provenientes, por exemplo, do Reino do Monomotapa) eram trocados por têxteis e especiarias asiáticas, num sistema conhecido como “Comércio de Resgate”.
Base Naval: Um ponto essencial para o controlo militar da rota.
Escalas Adicionais (a Norte de Moçambique): Cidades-Estado da costa suaíli, como Quíloa (Kilwa), Mombaça (Mombasa) e Melinde (Malindi), foram inicialmente alvos de ataques e posteriormente usadas para estabelecer a hegemonia portuguesa sobre o comércio muçulmano tradicional do Oceano Índico. Melinde, em particular, foi frequentemente um aliado crucial.
Rotas comerciais internas (Rios e feiras do ouro)
Para aceder ao ouro do interior, sobretudo do Reino do Monomotapa, os portugueses estabeleceram rotas fluviais a partir das suas bases costeiras. O Rio Zambeze era a principal artéria fluvial para penetrar no interior, com pontos de entrada como Sofala (inicialmente) e Quelimane (mais tarde). Os portugueses estabeleceram presença em feiras ou “prazos” no interior (como Masapa, Sena e Tete) para negociar diretamente com as populações locais, garantindo o fluxo de ouro e outros minerais.
Controlo do estreito (Golfo de Áden)
A presença portuguesa era igualmente vital para controlar a foz do Mar Vermelho, que ligava o Oceano Índico ao Mediterrâneo – a rota tradicional das especiarias. Embora tecnicamente fora da África Oriental, bases como Socotorá (Socotra) e Ormuz (no Golfo Pérsico) eram cruciais para estrangular o comércio árabe-veneziano, reforçando a superioridade da rota portuguesa via Cabo da Boa Esperança.
A Somalilândia e os desafios dos estrangulamentos africanos
As rotas comerciais de África são excessivamente dependentes de alguns pontos de estrangulamento congestionados, o que tem consequências económicas graves para a região e para o mundo.
Os custos de uma cadeia de abastecimento frágil
Países sem acesso direto a portos, como a Etiópia, enfrentam alguns dos maiores custos logísticos do mundo, devido à dependência de portos vizinhos. Esta situação cria uma fragilidade intrínseca na cadeia de abastecimento. A ausência de portais diversificados significa que qualquer choque político, bloqueio de um corredor ou atraso portuário pode desencadear um “terramoto económico”, resultando em inflação mais elevada e um ritmo de industrialização mais lento em economias em desenvolvimento.
Somalilândia: a alternativa estável de Berbera
A Somalilândia está a posicionar-se como uma porta de entrada estável e alternativa no estratégico corredor do Mar Vermelho. Esta estratégia assenta em seis pilares fundamentais que capitalizam a sua posição geográfica única:
Litoral Estratégico: Uma vantagem natural ao longo do Mar Vermelho e do Golfo de Áden, uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo e historicamente crucial.
Porto de Berbera: Uma expansão significativa de águas profundas, apoiada pela DP World, capaz de ancorar o comércio regional. A capacidade de contentores aumentou de 150.000 TEUs para mais de 500.000 TEUs, transformando-o num porto de escala internacional.
Aeroporto de Berbera: Um eixo modernizado de trânsito e carga que melhora drasticamente a conectividade da África Oriental e do Golfo, facilitando o transporte aéreo de mercadorias.
Proximidade a Hubs Globais: A sua localização privilegiada nas rotas marítimas com destino a centros como o Dubai, Jeddah e Singapura coloca-o no centro do comércio mundial.
Portal para a África: Representa um potencial “salva-vidas” para a Etiópia, com a sua população superior a 120 milhões e uma base de indústria transformadora em crescimento, que necessita urgentemente de acesso marítimo diversificado.
Governação Forte: Estabilidade, segurança e instituições democráticas robustas, que são ativos valiosos e raros nesta região volátil do Corno de África.
Alívio para a Etiópia e a cadeia global
Atualmente, a Etiópia depende de Djibouti para mais de 90% do seu comércio marítimo, uma dependência que é simultaneamente custosa e frágil. Um corredor funcional a partir de Berbera tem o potencial de reduzir o tempo de transporte em 30% a 40% para os estados do norte da Etiópia, proporcionando a diversificação logística de que o país e a região necessitam urgentemente. O Golfo de Áden processa quase 12% do comércio global. A Somalilândia está notavelmente bem posicionada nesta artéria, e a sua ascensão não dependerá do seu tamanho, mas sim de uma conjugação perfeita de geografia, governação e timing. Se for bem executada, esta estratégia pode fazer da Somalilândia um dos pivôs logísticos mais importantes da África Oriental na próxima década.
Conclusão
A Somalilândia, com a sua localização estratégica no Corno de África, está a redefinir o seu papel no comércio global, traçando paralelos com a histórica expansão marítima portuguesa. Através do investimento no Porto e Aeroporto de Berbera e de uma governação estável, oferece uma alternativa vital aos congestionados estrangulamentos africanos. Esta nação, embora pequena em dimensão, capitaliza a sua geografia para se tornar um hub logístico crucial, prometendo um alívio significativo para economias como a da Etiópia e contribuindo para a resiliência das cadeias de abastecimento globais. A sua ascensão discreta mas determinada sinaliza uma nova era para a logística na África Oriental.
FAQ
O que torna a Somalilândia estrategicamente importante?
A Somalilândia possui um litoral privilegiado no Mar Vermelho e no Golfo de Áden, uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo. A sua localização permite-lhe servir como uma porta de entrada alternativa para o comércio regional e global, especialmente para países sem saída para o mar como a Etiópia.
Qual a ligação histórica entre Portugal e a costa da Somalilândia?
Desde o século XV, a costa do que hoje é a Somalilândia foi uma artéria vital para o comércio global. A expansão marítima portuguesa nessa época procurou precisamente controlar e redefinir o comércio marítimo, fazendo do Mar Vermelho e do Golfo de Áden pontos de pressão estratégica, reconhecendo a importância duradoura da região.
Como é que o Porto de Berbera beneficia a Etiópia?
O Porto de Berbera oferece à Etiópia uma alternativa crucial para o seu comércio marítimo, atualmente excessivamente dependente de Djibouti. Um corredor funcional a partir de Berbera pode reduzir o tempo de transporte em 30% a 40% para os estados do norte da Etiópia, diversificando as opções logísticas e reduzindo os custos e a fragilidade da cadeia de abastecimento etíope.
Quais são os principais pilares da estratégia logística da Somalilândia?
A estratégia da Somalilândia assenta em seis pilares: o seu litoral estratégico, a expansão do Porto de Berbera (apoiada pela DP World), o modernizado Aeroporto de Berbera, a proximidade a hubs globais como o Dubai, o seu papel como portal para o interior de África e uma governação forte e estável.
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Fonte: https://postal.pt