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ZeroDayRAT: o spyware que vê tudo o que fazes no teu telemóvel

Por Portugal 24 Horas

No panorama digital atual, o smartphone transcendeu a sua função inicial de mero dispositivo de comunicação, tornando-se o epicentro da nossa vida pessoal e profissional. Desde a gestão bancária à interação social, passando pelo trabalho e entretenimento, a nossa existência está intrinsecamente ligada a estes aparelhos. Contudo, a conveniência acarreta vulnerabilidades significativas, e a premissa de que o nosso telemóvel é um espaço privado e seguro está sob ataque. Uma nova ameaça cibernética, conhecida como ZeroDayRAT, está agora a circular, visando indistintamente utilizadores de Android e iPhone. Esta sofisticada plataforma de spyware tem a capacidade alarmante de monitorizar e registar praticamente todas as atividades que ocorrem no dispositivo infetado, pondo em risco a privacidade e a segurança digital de milhões de pessoas em todo o mundo. A sua proliferação sublinha a urgência de uma maior vigilância e de medidas preventivas eficazes por parte dos utilizadores.

A ascensão do ZeroDayRAT e a sua modus operandi

O que é o ZeroDayRAT?
O ZeroDayRAT, cujo nome evoca a sofisticação das ameaças de “dia zero”, é, na realidade, um Remote Access Trojan (RAT), um tipo de software malicioso que permite a um atacante aceder e controlar remotamente o dispositivo da vítima. Contrariamente ao que o nome pode sugerir, a sua designação pode referir-se mais à sua natureza de ferramenta avançada de espionagem do que à exploração exclusiva de vulnerabilidades “zero-day” desconhecidas. A verdade é que a sua eficácia reside na capacidade de se infiltrar de forma discreta e de operar em segundo plano, tornando-o quase indetetável para o utilizador comum. Uma vez instalado, o ZeroDayRAT transforma o smartphone numa verdadeira ferramenta de vigilância pessoal, fornecendo aos operadores acesso a um vasto leque de informações sensíveis e capacidades de controlo. O objetivo principal deste tipo de malware é a recolha furtiva de dados, que podem ir desde credenciais de acesso a dados bancários, passando por informações de localização e conteúdos multimédia. A sua arquitetura modular permite, em muitos casos, que os atacantes adaptem as suas funcionalidades consoante os seus objetivos, tornando-o numa ameaça flexível e persistente.

As capacidades de vigilância abrangente
A dimensão da intrusão permitida pelo ZeroDayRAT é verdadeiramente perturbadora. Esta plataforma de spyware consegue aceder a praticamente todos os aspetos da vida digital de um utilizador. Entre as suas funcionalidades mais alarmantes, destacam-se:

Interceção de comunicações: O spyware é capaz de ler mensagens de texto (SMS), e-mails e conversas em aplicações de mensagens instantâneas populares como WhatsApp, Telegram e Signal. Pode, inclusive, contornar a encriptação ponto a ponto em algumas situações, capturando os dados antes da encriptação no dispositivo de origem ou explorando vulnerabilidades na própria aplicação.
Monitorização de chamadas: Não só consegue registar o histórico de chamadas, identificando números e durações, como também pode, em alguns casos, gravar as conversas telefónicas, transformando as chamadas privadas em sessões de escuta para os atacantes.
Acesso a microfone e câmara: Sem o conhecimento ou consentimento do utilizador, o ZeroDayRAT pode ativar remotamente o microfone para escutar conversas no ambiente circundante ou a câmara para capturar fotografias e vídeos. Isto transforma o telemóvel numa poderosa ferramenta de escuta e vigilância visual, potencialmente expondo a vida pessoal e profissional da vítima.
Localização geográfica: Acompanhamento preciso da localização do dispositivo em tempo real, permitindo aos atacantes traçar os movimentos da vítima, monitorizar padrões de deslocação e inferir rotinas diárias.
Roubo de credenciais: Captação de nomes de utilizador, palavras-passe e outros dados de autenticação através de keyloggers (registadores de teclas) que registam tudo o que é digitado, ou através de páginas de phishing inseridas que imitam interfaces legítimas.
Acesso a ficheiros e galerias: Exfiltração de documentos, fotografias e vídeos armazenados no telemóvel, comprometendo a privacidade de conteúdos pessoais e confidenciais.
Monitorização de aplicações: Registo das aplicações utilizadas e da forma como são interagidas, fornecendo um perfil detalhado dos hábitos digitais da vítima, o que pode ser usado para inferir interesses, vulnerabilidades ou até mesmo para chantagem.

Esta capacidade de recolha de dados tão abrangente representa uma violação profunda da privacidade, com potenciais repercussões graves para os indivíduos afetados, que podem incluir roubo de identidade, extorsão, espionagem industrial ou pessoal.

Vetores de infeção e a vulnerabilidade de Android e iPhone

Como o ZeroDayRAT se propaga
A disseminação de spyware como o ZeroDayRAT baseia-se frequentemente na engenharia social e na exploração de vulnerabilidades. Embora os sistemas operativos Android e iOS sejam desenvolvidos com fortes medidas de segurança, nenhum é imune a ataques. Os principais vetores de infeção incluem:

Phishing e smishing: Mensagens enganosas enviadas por e-mail ou SMS (smishing) que contêm links maliciosos. Ao clicar nestes links, o utilizador é levado a descarregar o spyware diretamente ou a visitar um site comprometido que explora vulnerabilidades do navegador para instalar o malware de forma discreta. Estes ataques são frequentemente sofisticados, imitando comunicações de entidades legítimas para enganar a vítima.
Aplicações maliciosas: O spyware pode ser disfarçado como uma aplicação legítima, muitas vezes com funcionalidades atrativas para o utilizador. No ecossistema Android, é mais comum encontrar estas aplicações em lojas de terceiros não oficiais ou como ficheiros APK para “sideloading” (instalação manual fora da Google Play Store). No caso do iOS, o cenário é mais restrito, mas em casos mais raros e sofisticados, o spyware pode infiltrar-se nas lojas oficiais através de técnicas complexas de evasão ou ser instalado em dispositivos com “jailbreak” ou através de perfis de configuração maliciosos.
Exploração de vulnerabilidades: Embora o nome sugira “zero-day”, o ZeroDayRAT pode também explorar falhas de segurança conhecidas em sistemas operativos ou aplicações que não foram devidamente atualizadas pelos utilizadores. Estas vulnerabilidades são portas de entrada que permitem ao spyware contornar as defesas do sistema.
Ataques de “Man-in-the-Middle”: Em redes Wi-Fi públicas, inseguras ou comprometidas, os atacantes podem intercetar a comunicação entre o dispositivo e a internet, injetando o spyware no dispositivo do utilizador sem que este se aperceba.

Porquê ambos os sistemas são alvo
Historicamente, o Android era frequentemente visto como mais vulnerável devido à sua natureza de código aberto e à fragmentação do ecossistema, que dificulta a aplicação de atualizações de segurança consistentes em todos os dispositivos. Esta diversidade cria um ambiente propício para a proliferação de malware, uma vez que nem todos os utilizadores recebem as mesmas atualizações ou as instalam a tempo. No entanto, o iOS, apesar da sua reputação de ser mais fechado e seguro devido ao controlo rigoroso da Apple sobre o hardware e o software, não está imune. A crescente sofisticação dos cibercriminosos e o valor dos dados de utilizadores de iPhone significam que ambos os sistemas são alvos cobiçados. Ataques a iOS são frequentemente mais caros e complexos, exigindo ferramentas de nível governamental ou explorando cadeias de infeção mais elaboradas, como as que visam vulnerabilidades específicas do sistema operacional ou do navegador web. A capacidade do ZeroDayRAT de atingir ambos os ecossistemas sublinha a universalidade da ameaça e a necessidade de os utilizadores de todas as plataformas estarem vigilantes e adotarem as melhores práticas de segurança digital.

A defesa da privacidade digital face ao ZeroDayRAT

A proliferação de spyware como o ZeroDayRAT exige uma abordagem proativa e consciente por parte de cada utilizador. A primeira linha de defesa passa por manter o software do telemóvel e de todas as aplicações sempre atualizado, pois as atualizações frequentemente incluem correções críticas de segurança que bloqueiam vulnerabilidades conhecidas. É fundamental adotar senhas fortes e únicas para cada serviço, ativando sempre a autenticação de dois fatores (2FA) quando disponível, para adicionar uma camada extra de proteção contra acessos não autorizados. A vigilância é crucial ao lidar com links e anexos em e-mails ou mensagens de texto de remetentes desconhecidos ou suspeitos, pois estes são vetores comuns para a instalação de malware. Descarregar aplicações apenas de lojas oficiais e verificar cuidadosamente as permissões solicitadas antes da instalação pode mitigar significativamente o risco de software malicioso. Além disso, considerar a utilização de soluções de segurança móvel e Redes Privadas Virtuais (VPNs) de confiança pode reforçar a proteção contra interceções e acessos não autorizados. No entanto, a medida mais poderosa é a educação: compreender os riscos e as táticas dos cibercriminosos capacita os utilizadores a protegerem-se de forma mais eficaz neste cenário digital em constante evolução, onde a privacidade nunca é garantida e exige vigilância contínua e um compromisso com a higiene digital.

Fonte: https://www.leak.pt

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